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A diferença tem intrigado os próprios responsáveis pelas previsões do PIB e chamou a atenção até do presidente do BC, Roberto Campos Neto
Reza a lenda que a taxa de câmbio teria sido inventada com o intuito de humilhar os economistas. Mesmo não sendo este o caso, as projeções sobre os rumos do real, do dólar e de outras moedas estão longe de figurar como as únicas variáveis macroeconômicas sujeitas a erros escandalosos.
Têm chamado bastante a atenção os equívocos nas previsões do Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos anos, principalmente depois da pandemia.
E é melhor não chamar nada que se assemelhe ao VAR. Criada com a intenção de diminuir os erros de arbitragem no futebol, a figura do árbitro de vídeo parece ter exacerbado ainda mais as polêmicas e provocado mais discussão que as previsões de todos os economistas e meteorologistas juntos.
Não se trata de exclusividade do Brasil, mas é quando o resultado do PIB brasileiro sai que a situação se torna mais evidente.
Em 6 de janeiro, data do primeiro boletim Focus de 2023, a projeção do mercado para o PIB deste ano era de uma expansão de 0,78%.
As estimativas começaram a ser ajustadas para cima depois da surpresa positiva do primeiro trimestre.
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Mesmo assim, a expansão da economia continuou surpreendendo aqueles que estudaram para prevê-la.
O último dado disponível, referente ao segundo trimestre de 2023, mostrou uma expansão de 3,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Considerando somente o carrego estatístico dos últimos trimestres, mesmo que a economia brasileira pare de crescer no segundo semestre, o PIB fechará 2023 com alta de mais de 3% maior em relação a 2022.
No entanto, as estimativas aparentemente continuam defasadas. Mesmo revisada em alta nas últimas semanas, a mediana das projeções de alta do PIB brasileiro em 2023 na Focus da última segunda-feira ainda estava em 2,64%.
O cenário político polarizado e a reconhecida antipatia da Faria Lima pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva induzem à tentação de concluir que se trata meramente de um viés pessimista do mercado financeiro em relação ao governo de turno.
Entretanto, a Faria Lima não pode ser acusada de antipatizar com Paulo Guedes, que ocupou o Ministério da Economia sob Jair Bolsonaro. E nos últimos anos do governo anterior as projeções iniciais dos economistas também indicavam um PIB menor do que o realizado.
Em junho de 2020, no auge das incertezas relacionadas à pandemia, a mediana das projeções da Focus chegou a apontar para uma retração de 6,54% para o PIB.
Os mais pessimistas chegaram a falar em uma contração de 10%. Naquele ano, a economia brasileira de fato encolheu, mas a queda foi de “apenas” 3,3%.
Na primeira edição de 2021, as projeções do mercado compiladas pela pesquisa Focus indicavam um crescimento econômico de 3,41%. O resultado final foi uma expansão de 4,6%.
Para 2022, a Focus abriu o ano projetando uma (vamos chamar de) expansão de 0,28%. Mas a alta do PIB foi de 2,9%.
A diferença entre a expectativa e a realidade tem intrigado os próprios responsáveis pelas previsões.
O debate é acalorado. De um lado, economistas ligados ao governo atribuem parte dos resultados recentes à PEC da Transição, elaborada pela equipe de Lula e aprovada pelo Congresso para acomodar despesas urgentes e que estavam fora do orçamento original de 2023.
No lado do mercado, que é de onde saem as projeções para a Focus, cada vez mais economistas apontam para ganhos de produtividade ocasionados por novos hábitos desenvolvidos durante a pandemia, em especial o trabalho remoto.
Seja como for, o fenômeno não tem uma causa única e mensurar seus impactos não é tarefa simples.
O próprio presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, entrou na discussão durante evento do JP Morgan no início de setembro.
Ele abordou possíveis ganhos de produtividade e apontou contradições dos economistas de mercado na hora de projetar o PIB.
Na avaliação da autoridade monetária, “cerca de 80%” das reformas exigidas anos atrás pelo mercado já está em vigor, mas haveria uma tendência entre esses economistas de efetuar projeções econômicas levando em consideração somente o passado recente.
Campos Neto citou como exemplos os possíveis impactos de alterações nas leis previdenciárias, trabalhistas e tributárias, a maioria delas realizada durante o breve mandato de Michel Temer, entre os meses finais de 2016 e dezembro de 2018.
"Pode ser que, em parte, a surpresa de crescimento que a gente está vendo, e já são 15 meses disso, seja por um ganho de eficiência cumulativo de várias coisas feitas no passado”, afirmou.
Por trás das estimativas pessimistas estavam as incertezas. Na lógica do mercado, quanto maior a incerteza dos agentes econômicos, menor é o grau de confiança.
Para Otto Nogami, professor dos cursos de pós graduação do Insper, os erros derivam principalmente de mudanças nos padrões de comportamento dos agentes econômicos em anos recentes.
Essas mudanças vêm das famílias, das empresas e dos governos — e têm a pandemia como pano de fundo. A começar pela demanda reprimida em função do isolamento social.
Agora, a volta à normalidade está fazendo com que as pessoas passem a ter um comportamento menos previsível, afirma Nogami.
Ao mesmo tempo, enquanto os governos adotam programas de estímulo na tentativa de retomar o crescimento econômico, as empresas estão mudando suas estratégias de atuação e operação.
Nogami vê a situação como um momento de ajustes e de acomodação a uma nova realidade.
“A própria mudança do comportamento geopolítico dos países está fazendo com que as relações de comércio internacional se modifiquem”, diz ele.
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