Carro popular: O que você precisa saber em dez perguntas e respostas sobre o projeto do governo Lula
Medida que recriou o carro popular mexe com concessionárias, lojas de carros usados, indústria de autopeças e, claro, o consumidor

A Medida Provisória do governo Lula que vai reduzir os preços e recriar o chamado carro popular só deverá sair em 15 dias. Até lá, o mercado todo espera entender melhor o que vai acontecer e por quanto tempo.
Todas essas mudanças vão impactar não apenas as montadoras, mas concessionárias, lojas de carros usados, indústria de autopeças e, claro, o consumidor.
Milad Kalume Neto, diretor de desenvolvimento de negócios da consultoria global especializada Jato Dynamics, estima um aumento de 200 mil emplacamentos, grande parte vinda do segmento de entrada.
“As montadoras hoje em dia estão focando nos veículos de maior valor agregado, como sedãs médios e grandes e SUVs. O ticket médio está elevado, dobrou de 2017 para cá”, afirma.
Para Kalume, importante não é só pensar na redução de preço, mas também no acesso ao crédito, porque sem isso a medida do carro popular pode não ter efeito.
Para facilitar o entendimento, vamos resumir o tema em perguntas e respostas e analisar algumas perspectivas para o setor automotivo e, também, o que os interessados em comprar e até alugar um carro por assinatura devem fazer.
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1- O que são as medidas anunciadas para o carro popular?
Por enquanto, o que se sabe é que o governo vai reduzir alíquotas de impostos federais que incidem em uma faixa de carros novos, como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e o PIS/Confins.
2- A medida valerá para todos os carros?
Não. A proposta é limitada a veículos que custem até R$ 120 mil (confira abaixo uma lista dos modelos e possíveis faixas de redução). Os descontos para o carro popular com o corte de impostos vão variar de 1,5% a 10,96%.
Conforme nosso levantamento, caso mais marcas não baixem seus valores para participar do programa, são nove marcas e 88 modelos (em suas diversas versões até o limite estabelecido).
3- A partir de quanto vão custar os carros mais acessíveis?
A expectativa é que os modelos mais baratos hoje, na faixa de R$ 70 mil, custem perto de R$ 60 mil ou menos, porque as montadoras também podem promover mudanças nas atuais linhas. Ou seja, o carro popular não será exatamente uma pechincha.
A conta do governo, contudo, levará em consideração algumas variáveis: o nível de eficiência energética, que se traduz em menor emissão de carbono (incluindo consumo e emissões), o índice de nacionalização do veículo (quanto mais peças localizadas, melhor) e o teto de R$ 120 mil.
4- A medida do carro popular vale para modelos usados?
Não, é voltada apenas a carros zero-km. De qualquer forma, o mercado de usados será afetado porque se os preços dos novos caem, os de usados seguem a mesma tendência. Mas isso pode demorar um pouco, até o mercado se acomodar.
5- Quem tem um carro usado ou seminovo e pensa em vendê-lo, este é um bom momento?
O mercado de usados passou no período da pandemia e até o fim do ano passado por um momento de supervalorização, reflexo da falta de carros novos que gerava filas de espera e a disparada de preços dos zero-km.
Muitos consumidores que não podiam mais comprar um carro novo migraram para os seminovos e usados. Para 2023 já é esperada uma acomodação desse cenário de preços, porque a indústria se recupera.
Contudo, os altos juros que travam o crédito trouxeram uma nova crise, que paralisa até as linhas de produção. Ou seja, se o mercado de usados já experimentava uma retração de preços, com as novas medidas a tendência é que os preços caiam mais ainda.
Se for um veículo que esteja nessa faixa relativa a um novo que custe até R$ 120 mil, o impacto será maior. Então, se o consumidor tiver a necessidade de vender é melhor fazer isso o quanto antes.
6- Os juros continuam altos. A medida pode melhorar o acesso aos financiamentos?
O governo não sinalizou nada a respeito, mas há um estudo em andamento com o Banco do Brasil para viabilizar linhas de crédito mais acessíveis. Outra ideia “ventilada” de usar o FGTS para comprar ou servir de garantia para um financiamento não foi para frente, ao que tudo indica.
7- O carro popular poderá perder equipamentos obrigatórios?
De acordo com o presidente da Anfavea, Márcio Lima Leite, as medidas não vão afetar questões regulatórias, ambientais e de segurança conquistadas nos últimos anos, como equipamentos de segurança obrigatórios e tecnologias que melhoraram os níveis de emissões.
Segundo ele, a indústria tem o compromisso de não flexibilizar o nível das inovações. Há algumas semanas, o CEO da Volkswagen, Ciro Possobom, comentou com a reportagem do Seu Dinheiro que o consumidor brasileiro não admitiria perder conforto e segurança nos carros mesmo que ficassem mais baratos.
Hoje, as versões mais acessíveis do mercado, como o Renault Kwid Zen, já trazem um “mínimo essencial”, como direção elétrica (ou hidráulica), ar-condicionado e vidros dianteiros elétricos.
8- O que pode mudar na oferta de carros acima de R$ 120 mil?
Para poder ampliar a gama de veículos, montadoras podem lançar mão de estratégias para incluir modelos próximos à faixa de corte de impostos.
Com alguma alteração em versões, alguns carros com valores acima do limite podem ser relançados por preços abaixo de R$ 120 mil. Além disso, as montadoras podem retomar lançamentos de carros de entrada e outros de preços mais acessíveis.
9- As vendas diretas, hoje só concedidas a pessoas jurídicas e PcD, poderão ser estendidas a pessoas físicas?
De acordo com a Anfavea, a redução de preço para os carros pode ser ainda maior se a venda direta for permitida a pessoas físicas – modalidade que entra em choque com a rede de concessionárias, que embora continue intermediando a venda, tem redução em suas margens de lucro.
Hoje esse tipo de venda é feita pela montadora diretamente a locadoras, frotistas, pequenos produtores, taxistas e Pessoas com Deficiência (PcDs), geralmente com descontos.
Por isso, há conversas com a Fenabrave para que haja uma flexibilização da Lei Ferrari, que regula essa relação entre concessionárias e montadoras.
10- Por quanto tempo a redução de impostos para o carro popular vai valer?
O governo ainda não bateu o martelo sobre a vigência das medidas, que passarão pelo crivo do Ministério da Fazenda e deve anunciar o pacote completo em até 15 dias. Mas já informou que serão temporárias.
Por isso, quem pretende comprar um carro popular que esteja dentro da faixa de valor até R$ 120 mil pode esperar pelos anúncios oficiais em meados de junho.
A Anfavea informou que os concessionários, representados pela Fenabrave, poderão promover a pré-venda de modelos, se antecipando às medidas, com alguma previsão de desconto.
Mas não há motivo para correr às lojas: o melhor é esperar e escolher com calma as ofertas, após a Medida Provisória começar a valer.
Além disso, mudanças da Lei Ferrari também podem baixar ainda mais os preços e se o consumidor correr para a concessionária pode fazer mau negócio.
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