Caos na Americanas (AMER3) faz Lemann e seus sócios perderem um bilhão de dólares e caírem no ranking de bilionários
Lemann, Sicupira e Telles são os principais acionistas da varejista e veem suas fortunas despencarem cerca de US$ 1,01 bilhão, segundo a Forbes

“Sonhar grande dá o mesmo trabalho que sonhar pequeno”, disse Jorge Paulo Lemann certa vez. Acontece que parte do sonho grande do qual o bilionário e seus fiéis escudeiros Carlos ‘Beto’ Sicupira e Marcel Telles perseguem há décadas virou em um amargo pesadelo no caso do investimento na Americanas (AMER3).
A descoberta de “inconsistências” que representam um rombo contábil da ordem de R$ 20 bilhões dizimou o valor de mercado da varejista, que derreteu 77,33% na B3 ontem, incluindo a participação de 31,13% que o trio detém na companhia.
A fatia nas Americanas representa uma parcela pequena do patrimônio multibilionário dos empresários. Mas a descoberta dos problemas colossais no balanço, em conjunto com a queda no valor de mercado de outras empresas, levou o trio a cair algumas posições no prestigiado ranking de bilionários da revista Forbes.
Formada por cerveja, ketchup e hambúrguer, a fortuna combinada do trio caiu US$ 1,01 bilhão entre ontem e hoje, de acordo com o levantamento em tempo real da publicação.
Na mesma base de comparação, as ações da AB Inbev (ABEV3), que representam grande parte do patrimônio dos empresários, caíram 1,33% na bolsa brasileira ontem. Por sua vez, os papéis da operadora do Burger King no Brasil, a Zamp (BKBR3), recuaram 4,91% no último pregão.
VEJA TAMBÉM - É o fim para a Americanas? O que esperar de AMER3
A fortuna do trio
Apesar do caos no mercado financeiro, Jorge Paulo Lemann segue como o homem mais rico do Brasil, mas agora conta com uma fortuna avaliada em US$ 15,8 bilhões. No ranking global compilado pela Forbes, ele passou da 106ª para a 107ª posição.
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Marcel Telles aparece com um patrimônio de US$ 10,7 bilhões e Beto Sicupira, de US$ 8,7 bilhões — cada um caindo, respectivamente, 3 e 7 posições na lista de pessoas mais ricas do mundo.
Ou seja, a derrocada das ações da Americanas não afetará a condição de multibilionários dos empresários. Mas eles provavelmente ainda terão de colocar a mão no bolso para capitalizar a varejista caso seja necessário.
Lemann, Telles e Sicupira na Americanas (AMER3)
Foi nos anos 80 que o trio de empresários mais famoso do Brasil decidiu investir na Lojas Americanas (AMER3), uma das primeiras companhias do país a ter ações listadas em bolsa de valores e que há muito estava na mira do carioca Jorge Paulo Lemann.
Fundada em 1929 por um grupo estrangeiro que buscava revolucionar o varejo brasileiro, a empresa surgiu com o intuito de apresentar-se como uma loja que reunisse produtos de vários segmentos e preços baixos para atender à população “esquecida” do Rio de Janeiro.
Acontece que, ao contrário do que era feito por Lemann, Carlos ‘Beto’ Sicupira e Marcel Telles em seus empreendimentos, a varejista não estava sendo acompanhada de perto por seus fundadores — e logo o negócio viu-se com problemas.
A empresa chamou a atenção dos donos do Banco Garantia, que haviam percebido em outros negócios que, para atingir os resultados que eles gostariam, era necessário assumir o controle das empresas e realmente colocar a mão na massa.
Afinal, na visão de Lemann, ainda que tudo desse errado na Americanas, seria possível ganhar dinheiro com a investida.
Então, o trio do Garantia saiu comprando ações da companhia no mercado, até que, em 1982, conseguiram assumir o seu controle, pagando cerca de US$ 24 milhões por uma fatia de 70% da varejista.
Beto Sicupira foi o escolhido para representar o Garantia na Americanas. O comando do carioca na varejista foi inspirado em um exemplo nos Estados Unidos que já estava dando certo: o Walmart.
A rede norte-americana de lojas possuía um controle rigorosíssimo dos custos e se tornou uma referência para a Americanas.
Desse modo, assim que entrou para o comando da varejista, o empresário criou uma estratégia: conhecer o time, ficar com os melhores, demitir os demais e cortar gastos considerados “supérfluos”.
Não demorou muito para que surgisse a fama que o trio formado por Lemann, Sicupira e Telles carrega hoje. O empresário foi chamado de "trator", "dono da verdade" e "rolo compressor" por colegas de trabalho.
Em poucos meses, algo em torno de 40% do quadro de funcionários da Americanas foi demitido. Para tornar esse número um pouco mais palpável, estamos falando de cerca de 6,5 mil pessoas na rua.
Com o terror no ambiente de trabalho, o nada-amigável-carioca fez a Americanas valer bem mais do que quando o Garantia se tornou controlador em apenas um semestre.
Porém, Carlos Beto Sicupira não mostrava medo de seguir à risca os próprios princípios, e decidiu deixar a Americanas para dar lugar às novas gerações.
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