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Em plebiscito, os venezuelanos supostamente aprovaram a proposta de Maduro de anexar a rica região de Essequibo, disputada com a Guiana
Durante o último fim de semana, os venezuelanos participaram de um plebiscito que aprovou, supostamente com mais de 95% de votos favoráveis, a proposta do presidente Maduro de anexar a região de Essequibo, rica em petróleo.
Mais de 10,4 milhões dos 20,7 milhões de eleitores elegíveis votaram.
Essa possível anexação representaria um absurdo geopolítico na América do Sul.
A região disputada, com cerca de 160 mil quilômetros quadrados (dois terços do território do país a que pertence), aproximadamente do tamanho da Flórida, pertence à Guiana desde sua independência, apesar das reivindicações históricas da Venezuela (até mesmo de antes da independência da Guiana).
A iniciativa de Maduro em reviver essa questão é vista como um ato de desespero para desviar a atenção pública da crise econômica e fomentar o nacionalismo. Todos sabem que o regime venezuelano se mostrou completamente incapaz de comandar o país.
Apesar da retórica, o risco de um conflito armado parece remoto, sem indícios de uma real intenção de invasão por parte do presidente venezuelano.
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Isso porque as consequências seriam enormes, incluindo novas rodadas de sanções abrangentes por parte dos EUA e aliados, bem como uma condenação diplomática quase universal, inclusive de parceiros regionais históricos da Venezuela.
Na verdade, o plebiscito parece ser uma manobra clássica para inflamar o nacionalismo antes das supostas eleições em 2024 (se é que vão ocorrer).
Atualmente, Essequibo abriga 125 mil dos cerca de 800 mil cidadãos da Guiana.
Em 1899, um tribunal arbitral internacional concedeu a área ao Reino Unido, que então controlava a Guiana Inglesa; contudo, a Venezuela nunca reconheceu essa decisão.
Caracas considera Essequibo como seu porque a região estava dentro de seus limites durante a época colonial espanhola, bem como nos primeiros anos que se seguiram a sua independência.
O governo da Guiana insiste em manter a fronteira determinada em Paris, em 1899, por um painel de arbitragem, ao mesmo tempo que alega que a Venezuela concordou com a decisão até mudar de ideia em 1962.
Duas décadas atrás, porém, o ex-presidente Hugo Chávez, procurando apoio internacional, havia arquivado a reivindicação territorial.
O que mudou agora foi que as recentes descobertas de petróleo offshore em Essequibo, pela ExxonMobil, levaram Maduro a tentar resgatar uma narrativa nacionalista, sugerindo que a nação foi despojada de sua riqueza.
Essequibo é maior que a Grécia e abundante em recursos naturais, transformando o país na economia de crescimento mais acelerado do mundo na atualidade.
No mapa abaixo, da Bloomberg, a região em questão está marcada em verde, com as delimitações para a exploração nas águas do Oceano Atlântico, e o poço de petróleo destacado em amarelo.
Com a descoberta de petróleo, a Guiana ostenta as maiores reservas de barril per capita, enquanto a Venezuela detém as maiores reservas absolutas, mas sua produção tem estado bem abaixo do potencial por conta da situação econômica do país.
Diante do desastre dos anos de Maduro, o governo parece disposto a provocar uma crise internacional para evitar um vexame nas supostas eleições do ano que vem.
Dessa forma, o plebiscito de Maduro pode ter implicações mais amplas do que parece: representa um desaforo não só para o governo brasileiro, mas também para outros presidentes sul-americanos.
No caso do Brasil, é um vexame especial, pois o território de Essequibo é praticamente inacessível, e os venezuelanos teriam que atravessar território brasileiro para chegar lá. Por isso, inclusive, mandamos tropas para a fronteira.
Com isso, a crise tem o potencial de impactar a imagem internacional da região em um aspecto altamente relevante: a relativa estabilidade geopolítica, uma das grandes vantagens em comparação com praticamente todas as outras regiões do mundo.
No mês de novembro, testemunhamos o auge dos investimentos estrangeiros nas ações brasileiras, registrando o melhor desempenho do ano, com uma entrada líquida de mais de R$ 18 bilhões.
Justamente agora, quando os investidores estrangeiros começaram a retornar, estamos à beira de um potencial atrito regional que pode desencadear aversão por parte dos investidores internacionais. Seria verdadeiramente lamentável.
As ameaças de anexação já levaram o governo da Guiana a buscar ampliar sua cooperação de segurança com os EUA, inclusive considerando convidar o governo americano para estabelecer uma base militar.
Outra possibilidade é que, diante da crise fabricada artificialmente, Maduro anuncie estado de emergência para justificar o adiamento das eleições. Típico e previsível.
Atualmente, considero altamente improvável a criação de uma nova província venezuelana em Essequibo.
Embora o referendo tenha sido aprovado, duvido muito que a região esteja à beira da guerra, especialmente porque a China, aliada íntima da Venezuela, possui uma parte significativa da enorme descoberta de petróleo que Maduro reivindica.
De qualquer forma, a situação como um todo é embaraçosa e gera um ruído desnecessário em um momento no qual a última coisa que precisamos é de mais um problema, diante de tantos que se acumulam.
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