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Felipe Miranda: Penitências marcadas a mercado

Estamos há anos debatendo a questão fiscal, uma preocupação insuperável. Talvez seja o caso de vasculharmos cases capazes de andar bem a despeito das discussões fiscais, do que propriamente esperar por Godot.

Imagem: Pixabay

Desde que Bia e Beto (COO e CMO da Empiricus, nessa ordem) reclamaram, com toda razão, da repetição da expressão “vocação jesuíta” neste espaço, evito resgatá-la. Mas, sabe como é, vira e mexe o chamamento faz uma visita de cortesia indesejada. “Somos vividos por poderes que fingimos entender” – essa frase, assim mesmo, na voz passiva, também me persegue.

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A ideia da penitência está enraizada na herança católica. O sacrifício seria necessário para um bem posterior. Teríamos que pagar, em determinadas situações até eternamente, por qualquer pecado. Virou até piada do Howard Marks: “capitalismo sem falência é igual a catolicismo sem inferno: não funciona.” A culpa ou o medo de um futuro muito ruim como ferramentas para obrigar a andar na linha.

Claro que a coisa é muito anterior ao cristianismo. Os mitos gregos já contemplavam com primor as quatro penitências típicas e os egos associados a cada uma delas. Os paralelos com o mercado financeiro são por minha conta.

Por ter desafiado e enganado os deuses com sua inteligência e esperteza, Sísifo foi condenado a levar uma enorme pedra até o cume de uma montanha; na iminência de completar seu trabalho, a pedra sempre caía até o vale, exigindo a repetição da dinâmica por toda a eternidade. Ao mito, está associada uma persistente preocupação – ao subir com a pedra novamente, Sísifo já antevia o que estava por vir.

O ciclo vicioso do mercado brasileiro

O mercado brasileiro parece enveredar por um ciclo vicioso inquebrável e repetitivo. Do ponto de vista técnico, travamos numa faixa de oscilação entre 105 mil pontos e 115 mil pontos. Batemos na banda superior e voltamos ao vale, sem direção definida. Estamos há anos debatendo a questão fiscal, uma preocupação insuperável. Talvez seja o caso de vasculharmos cases capazes de andar bem a despeito das discussões fiscais, do que propriamente esperar por Godot.

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Prometeu roubou o fogo dos deuses e foi punido com uma águia que vinha bicar seu fígado todos os dias, acorrentado ao Cáucaso. Aqui falamos do ego impaciente.

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O mercado pede, acertadamente, a definição de um novo e crível arcabouço fiscal. Ao mesmo tempo, lê cada ruído vindo de retórica eleitoreira, com Gleisi Hoffmann sendo talvez a figurinha mais repetida nesse álbum, como garantia de efetivo sinal de mudança na direção da heterodoxia.

Não há nada mais importante do que o estabelecimento de uma nova âncora fiscal no Brasil neste momento. Talvez só a preservação da âncora monetária, infelizmente também em risco, possa estar no mesmo nível de relevância. Contudo, havemos de reconhecer a necessidade de um pouco mais de tempo para isso. Não há meios de, a exemplo de um menino mimado, exigir que isso esteja na mesa desde a largada. “Eu quero do meu jeito, agora e neste lugar.”

Não funciona assim. A materialidade de discursos só vem, nesses casos, depois do discurso. Não há atalhos ou espaço para ansiedade. Quando você pula logo para conclusão a partir de uma retórica de palanque, corre um risco com consequências potenciais muito mais severas: de concluir errado. Há um tempo de acomodação da comunicação entre governo e mercado.

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E mesmo algum revanchismo por questões históricas pode ser dissipado com o tempo, viagens internacionais hospitaleiras e reconhecimento da comunidade financeira.

Meta de inflação

Toda a celeuma em torno das metas de inflação é exemplo importante de como as discussões precisariam ser debatidas com mais profundidade e sem viés, de parte a parte. Se Lula erra na forma (de fato, ele erra), o mérito passa longe de ser intocável.

Sergio Werlang, autor do primeiro working paper do Banco Central sobre a implementação do sistema de metas, é um dos defensores de uma meta superior a 3% para a inflação brasileira. E se precisamos de outros argumentos de autoridade, recorremos a Luis Stuhlberger, André Jakurski e Rogério Xavier: em evento no BTG, formaram unanimidade em prol da revisão da meta de inflação.

Voltando aos mitos, Atlas queria importância e protagonismo. Levou logo a tarefa de carregar o mundo inteiro nas costas. Faria Lima e Leblon pedem a atenção do governo para suas questões, o que, aliás, é legítimo.

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O governo, inclusive, atira no próprio pé quando reclama do mercado. O dólar sobe, os juros futuros sobem, a inflação desancora, os empresários param de investir por conta da incerteza, o desemprego aumenta.

Mas estariam o Leblon e a Faria Lima preparados também para debater as questões do governo? Será que não teria chegado a hora de sairmos dessa discussão adolescente de quem pode mais e quer mais protagonismo, e enveredarmos por um discurso de união nacional efetiva?

Há, inclusive, oportunidades expressivas de uma agenda conjunta, sendo a ideia de uma “onda verde” talvez a mais emblemática. Por que não unir laços em prol de financiamentos de longo prazo, a taxas de mercado, para a Economia verde? Não haveria meios de aproximar a Faria Lima do pequeno produtor rural, a partir de tecnologia e acessibilidade?

O mercado e a frustração eterna

Para encerrar, Tântalo era o insatisfeito crônico. Já era o mortal queridinho dos deuses, mas queria ele mesmo se transformar num deus. Tomou o castigo da fome e da sede. Quando se debruçava para beber água, essa desaparecia. Ao se aproximar de frutos, esses se afastavam.

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O governo eleito é de esquerda. Para alguém de orientação liberal, como eu, não é o desejo íntimo. Mas é a realidade que, como diz Woody Allen, ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife. Enquanto não houver reconhecimento explícito de que se trata de um governo de esquerda, estaremos condenados à eterna frustração.

Se abandonarmos o platonismo ou a espera por uma transmutação pessoal em alguma espécie de deus grego, talvez consigamos reconhecer algum mérito da mediocridade brasileira. A imprensa classifica a eventual reoneração parcial e faseada dos combustíveis como uma “meia derrota de Haddad”.

Não é mentira, mas também poderia ser vista como uma meia vitória. O Brasil não vai bem. Dificilmente irá muito bem. Mas também não vai tão mal quanto o preço de alguns ativos faz crer. Os juros reais são convidativos e o valuation de algumas ações tangencia níveis de ruptura. Isso sugere um modesto e ligeiro otimismo à frente. É o máximo que a penitência me permite.

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