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Você prefere arrecadar mais ou ter menos inflação? Entenda a faca de dois gumes que se impõe à economia em tempos de clima extremo

Eventos climáticos extremos no Brasil geram preocupações sobre a arrecadação, a inflação e a trajetória da taxa de juros

mudança climática
De Norte a Sul, Brasil têm atravessado eventos climáticos extremos. Imagem: Shutterstock

Após uma sequência de dias quentes, diversos leitores têm me procurado para discutir o possível impacto desses eventos climáticos extremos ocorrendo no Brasil, especialmente no que se refere à inflação e, eventualmente, à trajetória de redução da taxa Selic.

Essa preocupação é justificada, uma vez que os especialistas preveem condições ainda mais adversas em dezembro, com calor intenso no Sudeste e no Centro-Oeste, seca na Amazônia e Nordeste, e enchentes no Sul.

A questão central seria se esses eventos teriam um impacto significativo nos preços dos alimentos e da energia.

Entendo que, mesmo que haja alguma influência, pessoalmente, não acredito que isso se torne um game changer.

Embora os alimentos tenham registrado aumentos nos últimos meses, já se observa uma desaceleração nesse movimento. 

Quanto à energia, a mudança notável diz respeito à questão do ICMS em seis estados, para os quais o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, propôs alterações visando reverter o incentivo de aumento de impostos no próximo ano. Além disso, foi confirmada a bandeira verde para dezembro, evitando perturbações significativas.

A possibilidade de uma aceleração nos preços dos alimentos em caso de safra prejudicada não pode ser descartada.

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Contudo, o impacto iminente no IPCA para os próximos quatro a seis meses deve refletir principalmente o que já está sendo observado no atacado atualmente.

Perspectiva para a inflação é de queda

Na Empiricus, mantemos nossa projeção de 4,3% para este ano e 3,6% para 2024.

Em termos gerais, a perspectiva para a inflação parece ser de queda, com os potenciais aumentos sendo impulsionados principalmente pela questão relacionada ao ICMS.

Em relação a este ponto, alguns estados do Sul e Sudeste anunciaram aumento da alíquota de ICMS, em linha com a divulgação do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) sobre o aumento do ICMS em combustíveis a partir de fevereiro de 2024.

A tese subjacente é que estados do Nordeste elevaram a alíquota e outros estados seguem a mesma estratégia para evitar prejuízos na distribuição de impostos no novo sistema de repartição que deverá ser aprovado na reforma tributária.

Ajuste fiscal concentra-se em aumento da receita

Infelizmente, o ajuste fiscal está se concentrando no aumento da receita, sendo que a elevação do ICMS está contribuindo para uma projeção de inflação mais alta no próximo ano, possivelmente em torno de 5%, de acordo com algumas análises.

Talvez seja essa perspectiva que tenha retardado a redução no preço da gasolina até agora.

Parece que o governo está adiando o anúncio do corte devido ao aumento que está previsto para o próximo ano.

Em termos simples, estão tentando sincronizar o aumento com o corte para mitigar a volatilidade nos preços.

Mesmo assim, enxergo espaço para uma queda nos combustíveis.

Às vésperas da COP28 e de uma reunião da OPEP+, que provavelmente confirmará mais cortes na oferta de petróleo, o mercado do petróleo, após avanços de junho a setembro, está experimentando uma queda novamente.

Demanda por gasolina está em queda

Nos bastidores, observamos uma redução nas projeções da demanda por gasolina, que deverá atingir o menor nível per capita em 20 anos em 2024, além de um aumento nas exportações russas, atingindo o maior patamar em 4 meses.

Adicionalmente, há indícios de um expressivo aumento nos estoques. Dados mais fracos de atividade na China, Europa e EUA também não contribuem para uma perspectiva positiva, já que a contração na indústria global sugere uma redução no consumo de petróleo.

É crucial monitorar o volume dos estoques globais, que permanecem elevados devido aos recordes de armazenamento na China e à estabilidade nos estoques da União Europeia.

Dentro desse contexto, o preço da gasolina está em declínio, em grande parte devido à forte redução no crack spread, o valor que as refinarias cobram para transformar o petróleo em derivados, como a gasolina.

No caso da gasolina, o spread está na média histórica e provavelmente não diminuirá ainda mais. Talvez seja apropriado começar a considerar uma saída das mínimas, levando em conta os padrões observados em anos anteriores.

Historicamente, o petróleo apresenta queda entre novembro e abril, o que deve compensar qualquer aumento potencial no crack spread da gasolina.

Adicionalmente, o aumento da frota de carros elétricos está reduzindo a demanda por gasolina.

Considerando os últimos três reajustes de preços (corte ou aumento) no Brasil, parece que a defasagem média é em torno de 10%, tornando viável para a Petrobras vender gasolina e diesel a um preço 10% mais baixo no país.

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Segundo a Abicom, a gasolina está atualmente 3% mais cara no Brasil do que no cenário global, indicando a possibilidade de uma redução nos preços.

Não seria irracional antecipar um novo ajuste nos valores dos combustíveis, potencialmente resultando em uma defasagem de cerca de 10%.

No entanto,  vejo uma redução mais moderada, considerando a volatilidade do mercado e as mudanças iminentes, como a já citada recomposição dos impostos federais no diesel em janeiro de 2024 e o aumento do ICMS na gasolina em fevereiro (um corte significativo exigiria coragem para lidar com possíveis revisões futuras).

No que diz respeito ao IPCA-15, cujos resultados são esperados hoje, uma performance abaixo das expectativas seria positiva.

Em outubro, o IPCA registrou 0,24% de variação mensal, ficando abaixo da mediana das estimativas, 0,29%. Além da surpresa positiva, a composição do indicador também se mostrou favorável.

A contribuição significativa dos preços dos itens administrados, especialmente da gasolina, foi um fator relevante para a surpresa baixista do indicador.

No acumulado do ano, o indicador de preços recuou para 4,82%, ligeiramente acima do teto da meta do Banco Central, que é de 4,75% ao ano.

Inflação anual mais perto dos 4% ou dos 5%?

No entanto, conforme argumentamos anteriormente na Empiricus, é provável que a inflação deste ano se aproxime mais de 4% do que dos 5%, como apontado pelas estimativas do relatório Focus.

Entre os principais fatores que nos levam a acreditar na continuidade da queda do IPCA nos próximos meses estão os fatores sazonais, a persistência na redução dos preços da gasolina para o consumidor, conforme indicado pela ANP (Agência Nacional do Petróleo), bem como a tendência de queda nos preços internacionais dessa commodity.

Uma redução nos preços da gasolina seria benéfica para a inflação, contribuindo para a diminuição das taxas de juros mais curtas, aliviando a pressão sobre o Banco Central e permitindo a continuidade do ciclo de cortes.

Ao mesmo tempo, a queda nos preços das commodities apresenta desafios para o Brasil.

Atualmente, somos grandes exportadores de petróleo, sendo que existe uma correlação entre a receita tributária e as variações nos preços dessas commodities. 

Portanto, um petróleo abaixo de $75 não é favorável para o país, especialmente neste momento em que há uma necessidade premente de arrecadação.

O enfraquecimento das commodities significa menor arrecadação, PIB reduzido, queda nas ações de commodities, exportações em declínio e um dólar ligeiramente mais forte.

Sem dúvida, é uma situação complexa e de difícil equilíbrio.

Uma verdadeira faca de dois gumes: você prefere arrecadação ou desinflação?

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