Selic acima dos 14% ainda este ano? Mercado já avalia riscos dos juros voltarem para os patamares da crise do governo Dilma — guerra na Ucrânia está na lista de culpados
Com a invasão na Ucrânia, inflação tende a continuar vindo com força, o que pode pressionar para cima a taxa Selic

A marcha das expectativas de inflação para níveis cada vez mais distantes das metas perseguidas pelo Banco Central (BC) acendeu um alerta para o risco de a taxa Selic renovar o seu último pico nominal, de 14,25% ao ano, ainda este ano. Essa perspectiva, considerada impensável até antes da disparada de commodities (matérias-primas em dólar) deflagrada pela invasão da Ucrânia pela Rússia, já é um risco acompanhado pelo mercado.
Ao Estadão, economistas afirmam que um novo pico de juros exigiria piora adicional do quadro de inflação. Para acomodar um novo choque, a política monetária poderia ter de avançar novamente em direção ao último pico, considerando que a mediana do mercado para o fim do ciclo já se encontra em 13,25%, a apenas 1 ponto porcentual da marca.
Nas contas do ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC Alexandre Schwartsman, seria necessária uma Selic terminal entre 13,5% e 14,0% - praticamente encostada no último pico - para levar a inflação ao centro da meta no ano que vem. O economista ressalva que há dúvidas sobre se a autarquia estaria disposta a sancionar juros neste nível, considerando a sinalização do último comunicado de que 12,75% seria um nível suficiente para promover a convergência.
"Fica minha dúvida sobre se o BC vai estar disposto a dar mais juros do que isso. Se não der, não vamos convergir no ano que vem", resume Schwartsman. Com juros de 12,75%, o economista estima que o IPCA de 2023 deveria ficar em torno de 3,70%, em linha com o mais recente relatório Focus, mesmo que o Comitê de Política Monetária (Copom) tenha estimado, neste cenário, uma inflação de 3,10% em 2023, se houver desaceleração do petróleo.
Na mesma linha, o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, calcula que a taxa Selic precisaria ficar acima de 13,5% no fim do ciclo para promover a convergência da inflação para o centro da meta no ano que vem e ancorar as expectativas em horizontes mais longos. Mas o analista observa que o BC parece estar disposto a promover um ciclo de aperto mais suave e tolerar um IPCA pouco acima do alvo no ano que vem.
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Contra uma disparada da Selic acima de 14,0%, pesa o nível já elevado dos juros reais, acima do observado quando a taxa atingiu o último pico. Para o economista-chefe do Banco Alfa, Luis Otávio de Souza Leal, essa dinâmica torna improvável uma volta dos juros aos níveis de 2015 e 2016, durante a crise do governo Dilma.
Para João Savignon, economista da Kínitro, uma retomada do último pico histórico é um risco cada vez mais improvável dado o avanço do horizonte relevante da política monetária, que já deve começar a mirar também o ano de 2024 a partir do segundo semestre. Como o BC só tem mais duas reuniões até junho, elevar a Selic de 11,75% para um nível acima de 14,0% exigiria acelerar o ritmo de aperto monetário.
"Teria de ter algo a mais, uma nova rodada de pressão, ou a escalada de preços de commodities se mantendo por mais tempo", avalia. "Eu tenderia a acreditar que, se em março, no olho do furacão, o BC optou por desacelerar o ciclo para 1,0 ponto, é muito difícil voltar a acelerar."
Veja também - Brasil é o paraíso dos rentistas: com Selic em alta, é hora de abandonar a bolsa e buscar riqueza na renda fixa?
Com a Selic de volta aos dois dígitos e os juros reais (acima da inflação) próximos dos 6% ao ano, enriquecer investindo em renda fixa voltou a ser possível. E não se trata de um eufemismo. Nessa classe de ativos, já é possível obter retornos capazes de dobrar o capital do investidor em apenas sete anos. Dê o play no podcast Touros e Ursos para descobrir se está na hora de abandonar a bolsa e buscar bons ganhos na renda fixa:
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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