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Gás, zonas de influência externa e segurança norteiam os mais recentes movimentos de Moscou e Washington no tabuleiro de xadrez internacional
O alvo dos bombardeios é a Ucrânia, mas a guerra é entre Rússia e Estados Unidos.
Gás, zonas de influência externa e segurança norteiam os mais recentes movimentos de Moscou e Washington no tabuleiro de xadrez internacional.
Vamos explorar nos próximos parágrafos cada um desses aspectos para entender melhor os desdobramentos que levaram a Rússia a atacar a Ucrânia na madrugada desta quinta-feira.
Antes, porém, é preciso recuperar um pouco da história.
Como chegamos até aqui, afinal?
Já se vão mais de 30 anos desde o fim da Guerra Fria. Mas seu espectro ainda vaga pelo mundo.
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Até o início dos anos 1990, duas grandes alianças militares garantiam que a Guerra Fria não esquentasse ao ponto de levar Estados Unidos e União Soviética a um conflito nuclear.
Os EUA formaram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A URSS estabeleceu o Pacto de Varsóvia.
Nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, as zonas de influência de EUA e URSS na Europa constituíam a fronteira física e também uma zona tampão entre as duas superpotências.
Um ataque a qualquer um de seus membros pelo bloco rival seria considerado uma agressão a todos. Apesar da tensão permanente, a tão temida guerra de destruição mútua não ocorreu.
A dissolução da URSS permitiu aos EUA emergirem como a única superpotência global. Por muito tempo comprou-se a ideia de que a queda da Cortina de Ferro traria consigo o fim da história.
Uma a uma, as repúblicas socialistas que compunham a URSS ganharam independência e precisaram trilhar caminhos próprios para ingressar no sistema internacional.
Enquanto algumas se aliaram quase imediatamente ao bloco ocidental - caso dos países bálticos -, outras permaneceram alinhadas com Moscou.
Em meio ao processo de dissolução da URSS, o Pacto de Varsóvia foi extinto em março de 1991. Já a Otan, que tinha entre suas funções “deter o avanço do comunismo”, seguiu não apenas existindo, mas também se expandindo.
Inicialmente, Moscou conseguiu de Washington garantias verbais de que a Otan não seguiria em expansão. A promessa norte-americana, porém, não se manteria.
De país em país, a Otan continuou crescendo. Ela passou a incorporar antigos membros do Pacto de Varsóvia. Até praticamente cercar a Rússia com bases militares e sistemas de mísseis.
Agora que a Ucrânia manifestou a intenção de se associar à Otan, somente a Bielorrússia e a Finlândia separam fisicamente a Rússia da aliança militar ocidental.
É disso que Vladimir Putin se queixa quando exige garantias firmes por parte da Otan. Com a Rússia praticamente cercada por bases militares hostis, a ausência de respostas a seus temores levou Moscou a buscar alternativas. Analistas consideram que, para Moscou, a saída militar tornou-se menos custosa do que a diplomacia.
"A pergunta que deveríamos nos fazer é por que a Otan continuou existindo mesmo depois de 1990? Se a Otan deveria deter o comunismo, por que agora ela está se expandindo em direção à Rússia?"
Noam Chomsky, filósofo e linguista norte-americano, sobre a expansão da Otan
Tão importante quanto os temores russos diante da expansão da Otan é a questão do fornecimento de gás à Europa.
A Rússia terminou de construir no ano passado o Nord Stream 2. Trata-se do segundo ramal de um gasoduto que liga a Rússia à Alemanha através do Mar Báltico.
Além de aumentar a oferta, o gasoduto barateia o custo do gás fornecido à Europa, pois vai direto do fornecedor ao consumidor.
Este é, inclusive, um dos pontos de atrito com a Ucrânia. Os ramais do Nord Stream permitem à Rússia contornar países que cobrariam royalties pela passagem da tubulação por seus territórios, como Ucrânia e Polônia.
No início da semana, porém, o aumento da tensão na Ucrânia forçou o chanceler alemão, Olaf Scholz, a adiar a inauguração do ramal.
O governo dos EUA tenta dissuadir a Alemanha de conceder os alvarás restantes e afirma estar em busca de alternativas para garantir que a Europa não fique sem o fornecimento de gás, crucial principalmente nos meses de inverno.
A Casa Branca alega que o Nord Stream 2 deixará a Europa muito dependente da Rússia para suas necessidades energéticas.
Ao mesmo tempo, os EUA mobilizam-se para se transformarem nos maiores exportadores mundiais de gás natural liquefeito. O plano no momento é aumentar a produção de GNL em 20% até o fim do ano.
Durante a madrugada, Putin autorizou uma “ação militar especial” do exército russo no leste da Ucrânia. Hoje, múltiplas explosões eram ouvidas em diferentes partes do país, e não apenas no leste. Em Kiev, autoridades locais impuseram lei marcial e ordenaram que somente trabalhadores de serviços essenciais tivessem autorização para circular pela cidade.
Neste momento, tentar prever os desdobramentos é impossível.
Na melhor das hipóteses, Putin estabelecerá uma conexão terrestre entre o Rostov e a Crimeia pelo leste da Ucrânia, garantindo contiguidade territorial e controle sobre uma área onde os laços étnicos e culturais com a população local são um fato.
Na pior, estamos diante dos primeiros movimentos de uma guerra em grande escala. Entretanto, o fato de a Ucrânia não ser membro pleno da Otan torna essa possibilidade improvável.
Também é improvável um envolvimento direto dos EUA, que, depois da conturbada saída do Afeganistão, no ano passado, encontra-se em seu primeiro período sem envolvimento em guerras desde o ano 2000.
“A Ucrânia está à própria sorte. A reação do ocidente será na forma de sanções econômicas e não num embate armado”, acredita João Beck, economista e sócio da BRA.
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