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A Rússia fornece cerca de 40% do gás consumido na Europa, que estabeleceu um plano para bani-lo até o final do ano e agora precisa encontrar fontes alternativas de fornecimento — uma tarefa que não é simples
No filme “Corra, Lola, Corra”, a personagem central corre pelas ruas de Berlim para salvar o namorado da ira do chefe. Na vida real, os europeus aceleram o passo na tentativa de encontrar uma rota de fuga para escapar da fúria do presidente Vladimir Putin — e da dependência do continente do gás natural russo.
Desde a invasão da Ucrânia, o fornecimento de gás russo para a Europa virou um ponto crucial do conflito. A Rússia é fonte de cerca de 40% do gás consumido no velho continente, e as autoridades europeias estabeleceram um plano para bani-lo até o final do ano.
Mas, depois da enxurrada de sanções que o Ocidente impôs sobre Moscou por conta da guerra, Putin passou a usar o gás e o petróleo como uma forma de pressão.
E um novo capítulo dessa queda de braço vai começar em julho, quando a Rússia fechará as torneiras do gás para a Europa para manutenção — e o medo de que elas não serão reabertas tão cedo ronda as autoridades europeias. Saiba mais sobre essa história.
Diferente do filme, que se passa em Berlim, a rota de fuga encontrada pelos europeus é a África — que responde atualmente por 10% do fornecimento de gás para o velho continente.
Na visão dos europeus, a infraestrutura de gasodutos existente entre o norte da África e a Europa, bem como as relações históricas de fornecimento de gás natural liquefeito (GNL), tornam o continente africano uma alternativa sólida.
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Pensando nisso, a Comissão Europeia lançou o plano REPowerEU, apresentado apenas 12 dias após o início da invasão russa e adotado em 19 de maio. De acordo com ele, a capacidade de produção da África deve dobrar até 2030.
A Itália, cujas importações de gás russo antes da guerra chegavam a 45% do consumo, foi a primeira a buscar a diversificação de fontes de abastecimento.
Quatro dias após o início da ofensiva de Putin sobre a Ucrânia, autoridades italianas foram à Argélia. Em abril, assinaram um acordo para aumentar as importações de gás argelino em cerca de 40%. Ao mesmo tempo, Roma fez o mesmo em Angola e na República do Congo.
Representantes da Alemanha, uma das maiores consumidoras do gás russo na Europa, fizeram o mesmo: foram ao Senegal no mês passado para transmitir o interesse em ajudar a desenvolver recursos de gás por lá.
O plano da Europa parece fazer muito sentido no papel, mas esbarra em questões importantes, como preço e tempo.
Enquanto alguns projetos entrarão em operação nos próximos anos, vários levarão mais de uma década para serem concluídos — e os custos de infraestrutura para extração e transporte de óleo e gás costumam ser bastante elevados.
De acordo com especialistas em energia, os projetos de gás em terra em países como Moçambique e Tanzânia provavelmente não entrarão em operação até o final da década de 2020.
Não bastasse a questão do tempo, o preço é outra barreira. Na semana passada, as cotações de referência do gás na Europa estavam mais de 300% maiores na comparação com um ano atrás.
Esses altos preços da energia estão acelerando a inflação, que está próxima das máximas de quatro décadas em alguns países desenvolvidos — e aumentando os temores de recessão.
Em tese, ter mais fornecedores ajudaria a Europa a conter o aumento de preços, mas a empresa de análise de dados Kpler diz que, embora as cotações do gás natural estejam altas hoje, esse cenário pode mudar à medida que os projetos na África amadurecem.
E aí existe um novo problema: se os preços do gás caírem — vale lembrar que as energias renováveis estão ficando mais baratas e muitos países estão considerando o hidrogênio e a energia nuclear como alternativas — os novos players africanos podem não ser capazes de competir com produtores estabelecidos, como os EUA e o Catar, que têm custos de produção mais baixos.
Esses projetos estão sendo impulsionados em um momento em que o mundo tenta conter as emissões de gases de efeito estufa e evitar as piores catástrofes das mudanças climáticas — a África Subsaariana é altamente vulnerável ao clima extremo.
À medida que muitos países se afastaram do carvão para gerar eletricidade, eles se voltaram para o gás natural, que emite menos dióxido de carbono, como o chamado “combustível de ponte” para o uso eventual de energias renováveis.
Mas o gás é principalmente metano, um potente poluente que aquece o planeta, e uma grande quantidade de pesquisas mostra que ele também está impulsionando as mudanças climáticas.
*Com informações do Le Monde, da Reuters e do Wamur
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