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Resultado trimestral da Netflix deixa claro aos investidores que é preciso diferenciar um bom produto de um bom investimento
Olá, seja bem-vindo à Estrada do Futuro, onde conversamos semanalmente sobre a intersecção entre investimentos e tecnologia. Na terça-feira passada (20), a Netflix divulgou seus resultados do 1T22. No dia seguinte, suas ações chegaram a cair mais de 35%.
Naturalmente, recebi vários e-mails de leitores interessados em entender melhor o que aconteceu, em compreender se essa queda é uma oportunidade. Atendendo aos pedidos, a coluna de hoje será focada nos resultados e incertezas envolvendo a ação da Netflix, cujos BDRs são negociados na B3 sob o ticker NFLX34.
Nos EUA, as negociações não param quando o pregão se encerra. No aftermarket, uma espécie de "pregão depois do pregão", negociam-se ações como se o jogo ainda estivesse rolando.
Essa cultura cria um tipo de incentivo muito particular: no instante em que os resultados são divulgados, investidores e algoritmos escaneiam os demonstrativos em busca de duas ou três variáveis chaves.
Essas variáveis (geralmente as mesmas trimestre após trimestre), são comparadas com as "estimativas dos analistas".
Nesse jogo há apenas duas possibilidades: superar ou não as estimativas.
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Um equilíbrio binário como esse é o responsável pelas reações extremas do mercado, como o que aconteceu com as ações da Netflix.
Segundos após a divulgação dos números, investidores e algoritmos se debruçaram sobre o número de novos usuários - e não gostaram do que viram.
A Netflix perdeu 500 mil assinantes no 1T22; os analistas e o mercado esperavam um crescimento de 2,5 milhões de usuários.
Essa é a primeira vez, desde 2011, que a Netflix apresenta um trimestre com queda de base.
Agora, perceba o impacto: no consolidado, a Netflix possui mais de 220 milhões de usuários. Perder menos de 1% deles foi o suficiente para derrubar em 35% a ação.
Precisamos nos perguntar o porquê.
Nos EUA e no Canadá, a Netflix teve um saldo negativo de 600 mil usuários; esse saldo também foi em 300 mil em EMEA (Europa, Oriente Médio e África) e em 400 mil na América Latina.
A única região a contribuir positivamente foi a Ásia, com 1,1 milhão de novos usuários adicionados.
Um detalhe particular é a Rússia: o Netflix perdeu cerca de 2 milhões de usuários ao encerrar sua operação no país.
Ninguém esperaria que os executivos, ao estimarem um acréscimo de 2,5 milhões, considerassem a possibilidade de descontinuar completamente a operação num país, de forma tão abrupta.
Caso não tivesse saído da Rússia, a Netflix teria adicionado 500 mil assinantes, ainda muito abaixo das expectativas.
Na carta aos acionistas, o management escreveu que "o crescimento da receita desacelerou consideravelmente".
No trimestre, a Netflix promoveu uma rodada de aumento de preços e viu aumentar também a sua taxa de cancelamento.
Isso levou muitos investidores a se perguntarem se eles possuem de fato a capacidade de seguirem subindo preços.
Essa variável é importante pois, desde de 2015, o único ano em que o Netflix não apresentou uma queima de caixa bilionária foi em 2020, quando seu investimento em novos filmes e séries diminuiu por limitação da pandemia.
É relativamente simples entender como a Netflix dilui custos: o custo de produzir uma série não depende de quantas pessoas irão assisti-la.
Estima-se, por exemplo, que cada episódio de "Stranger Things" custe entre US$ 6 milhões e US$ 8 milhões de dólares à Netflix.
Esse custo seria proibitivo se poucas pessoas assistissem ao conteúdo; definitivamente não é o caso, pois centenas de milhões de pessoas assistem à série.
Um detalhe que a Netflix sempre soube, mas pôde crescer ignorando, é o de que parte desse milhões consomem os conteúdos compartilhando senhas de maneira indevida.
A Netflix estima em mais de 100 milhões o número total de famílias consumindo seus serviços com contas compartilhadas indevidamente.
Com o crescimento de novos usuários desacelerando, eles irão em breve direcionar esforços para implementar uma cobrança adicional.
Se você, por exemplo, compartilha a senha com a sua irmã que mora em outra residência, em breve receberá um e-mail da Netflix dizendo "olha, amigo, a gente sabe, e está tudo bem. Mas vamos cobrar R$ X a mais por mês, beleza?"
Assumindo que esse "a mais" seja uma média de US$ 5 por mês e que a Netflix consiga converter uns 20% dessa base, temos algo como US$ 1,2 bilhão em receita potencial, um crescimento modesto frente aos mais de US$ 29 bilhões em receitas do ano passado.
Outra possibilidade veiculado por Reed Hastings, fundador e CEO da Netflix, é a implementação de um novo tipo de assinatura, mais barato porém com veiculação de anúncios na programação.
Há alguns anos, essa era uma possibilidade fora da mesa de negociações.
Como eu escrevi na semana passada, "connected TV" é um segmento em ascensão, e a Netflix é provavelmente um dos players com maior capacidade de implementar e executar um produto nessa linha.
Neste momento, porém, tudo são ideias e os investidores não sabem exatamente como avaliar essa iniciativa.
Neste momento, eu permaneceria de fora das ações e BDRs da Netflix.
Como mencionei, os investidores não sabem como avaliar a mudança na estratégia da Netflix.
Por exemplo, em carta aos acionistas, o investidor Bill Ackman comunicou ter zerado sua posição na Netflix após o resultado.
Detalhe: Bill, que é um dos lendários investidores de Wall Street, havia anunciado essa posição há apenas 3 meses, no final de janeiro.
Mesmo com a queda, a NFLX ainda negocia a um múltiplo preços sobre vendas estimadas para os próximos 12 meses pouco abaixo do histórico dos últimos anos e em linha com o passado.
Com a sua escala, os investidores precisam passar a precificar Netflix com base em métricas de rentabilidade. O que não está claro é qual será o seu perfil de rentabilidade caso o cancelamento cresça e a inflação faça subir desproporcionalmente o seu custo de produzir novos shows.
Como investidores, não podemos cair no erro de confundir um bom produto com um bom investimento. Infelizmente, aos preços atuais, acredito que Netflix se encaixe nesta categoria.
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