Mercado em 5 Minutos: Os investidores não podem ser ansiosos (mas invariavelmente são)
No Brasil, o contexto eleitoral é central e vem fazendo preço desde antes do primeiro turno, repercutindo bem sobre o mercado pela composição legislativa a partir de 2023

Bom dia, pessoal. Lá fora, as ações asiáticas subiram nesta quarta-feira (5), com os investidores esperançosos de que os futuros aumentos das taxas de juros globais possam se tornar menos agressivos em meio aos primeiros sinais de que o aperto da política monetário estava funcionando para moderar as pressões de preços em algumas das principais economias mundiais (os mercados se animaram com isso ontem).
Nesta manhã, por outro lado, os mercados europeus estão caindo unilateralmente, depois de subirem bem na terça-feira, apesar dos dados assustadores de inflação ao produtor na Zona do Euro (os preços europeus não cedem).
Nos EUA, os futuros dos índices também não conseguem sustentar alta e corrigem o avanço de ontem. As ADRs brasileiras não estão tão bem, igualmente pressionadas pela queda das commodities. A ver...
00:30 — Inspire, expire, inspire, expire…
No Brasil, o contexto central é o eleitoral, que vem fazendo preço desde a semana anterior ao primeiro turno, que acabou repercutindo bem sobre o mercado pela composição legislativa a partir de 2023.
Na corrida por apoios, Bolsonaro conseguiu o que queria logo de início, agregando as lideranças de Romeu Zema, de Minas Gerais, Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, e Rodrigo Garcia, de São Paulo (o PSDB deixou aberto para cada diretório tomar sua decisão, mas o movimento não foi bem recebido dentro do partido, já fragilizado).
Enquanto isso, Lula já teve o apoio do PDT e de seu candidato, Ciro Gomes, que apesar de não ter se referido diretamente ao presidenciável petista, declarou que segue a decisão de seu partido. Simone Tebet e o MDB devem se manifestar hoje sobre a questão.
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Falta pouco para Lula ganhar, mas se o petista não se apressar em convergir para o centro de maneira mais evidente, Bolsonaro pode largar adiantado.
Saindo da temática política, avaliamos hoje os dados de produção industrial de agosto, do IBGE. O indicador deverá apresentar queda de 0,6% na comparação mensal, mas alta de 2,3% na anual, ao menos é o que nos conta a mediana das estimativas.
Eventual surpresa positiva pode servir de gatilho doméstico, uma vez que a tese de crescimento destacado brasileiro se confirma em 2022.
01:23 — Uma notícia ruim que não foi tão ruim assim
Ontem, nos EUA, o mercado americano reagiu bem a uma notícia ruim do ponto de vista da atividade; afinal, os sinais de uma economia mais fraca significam inflação mais baixa, o que se traduz em menor aperto da política monetária, que leva a taxas de juros mais baixas e que, por sua vez, possibilita a valorização das ações.
Contudo, se trata da mesma ansiedade que norteou os mercados internacionais no início do terceiro trimestre: sentimento esse que se inverteu completamente até o final de setembro.
Não podemos nos deixar levar pela ansiedade. Se na terça-feira foi o relatório sobre vagas de emprego e rotatividade de mão de obra que impulsionou o mercado, ao vir mais fraco do que o esperado, hoje temos a pesquisa nacional de emprego para setembro.
Deve haver uma adição de 200 mil empregos no setor privado, após um aumento de 132 mil em agosto (frustrações ou surpresas positivas terão efeitos sobre o mercado).
Ainda assim, tudo isso é secundário frente ao dado de payroll, na sexta-feira.
02:03 — Os inúmeros problemas europeus
Depois de recuar em seu plano fiscal mirabolante, a primeira-ministra britânica, Liz Truss, deverá falar hoje com o mercado, prestando conta sobre as movimentações recentes.
Um tipo de comunicado que seria pouco relevante ganha contornos importantes para sabermos o que acontecerá com uma das principais economias europeias — o foco permanece no endividamento insustentável do Reino Unido.
Paralelamente, segue a repercussão sobre o Credit Suisse, já comentada brevemente por aqui em ocasião recente.
Depois de forte desvalorização nas últimas semanas, as ações do Credit Suisse tiveram uma certa recuperação ontem, apesar de nada ter diminuído o risco do banco (na sexta-feira passada, o risco de crédito do banco suíço atingiu um patamar recorde após rumores de iliquidez se espalharem).
Mesmo com a recuperação, as ações ainda caem cerca de 60% neste ano em meio à desconfiança do investidor. O banco pode ser um novo Lehman? Difícil dizer isso.
Todo investidor quer encontrar um novo Lehman (tentaram até já transformar incorporadora chinesa no Lehman Brothers chinês).
A verdade é que não deveremos ter um contágio muito severo tal qual o de 2008 em caso de quebra do banco. Seria ruim, claro, mas não tanto.
03:32 — O dia da reunião da OPEP+ chegou
A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e outros membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo tiveram um lucro inesperado graças ao petróleo subindo acima de US$ 125 o barril após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
No entanto, os preços caíram desde junho, à medida que o dólar se fortalece, a economia global enfraquece e os bloqueios de coronavírus da China continuam.
Agora, a Opep+ se reunirá presencialmente nesta quarta-feira pela primeira vez desde o início de 2020.
O que está em jogo? Um possível grande corte de produção para que haja novamente ganho de preços, variável mais instável nos últimos meses.
Assim, o grupo de 23 países, liderado pela Arábia Saudita e Rússia, está considerando uma redução de mais de 1 milhão de barris por dia.
A perspectiva de tal movimento já impulsionou os mercados de petróleo, com o Brent subindo de volta para cima de US$ 90 por barril.
Embora os preços mais altos sejam uma bênção para os produtores, eles podem prejudicar os principais importadores, que estão lutando contra a inflação impulsionada pela energia.
Eventualmente, um corte de até 2 milhões de barris por dia pode estar na mesa, ainda que menos provável.
04:31 — Uma situação fiscal preocupante
Quando falamos de situação fiscal preocupante, normalmente pensamos no Brasil. De fato, o panorama fiscal brasileiro é difícil de se lidar; contudo, o problema parece ir além de nossas fronteiras.
Em 2022, até o final do primeiro semestre, a relação dívida/PIB global atingiu 350%, com possibilidade de piorar para 352% nesta segunda metade do ano, segundo o Instituto Internacional de Finanças (IIF).
Curiosamente, em termos nominais, o montante deve sofrer um recuo de mais de US$ 5 trilhões, para algo em torno de US$ 300 trilhões no total, principalmente por conta da desvalorização das principais moedas do mundo ante o dólar.
Os mais endividados, por incrível que pareça, são os países desenvolvidos, com dois terços desse total. O quadro é de vulnerabilidade e fragilidade das economias centrais.
Em meio à elevação dos juros, o que piora o custo da dívida, a questão fiscal deverá se tornar central entre as lideranças globais nesta década.
Os governos ainda estão de ressaca depois dos gastos durante a pandemia... Com o fim da era do dinheiro fácil e dos juros negativos, precisamos repensar as estruturas fiscais ao redor do mundo.
A conta chega para todo mundo e ela é bem salgada.
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