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Medo de ficar de fora do boom dos carros elétricos levou os investidores para dentro da bolha, mas a realidade já começa a cobrar a conta
Olá, seja bem-vindo à Estrada do Futuro, onde conversamos semanalmente sobre a intersecção entre investimentos e tecnologia.
Dos contratos futuros de petróleo com valor negativo ao VIX acima de 50, em alguns anos, os investidores lembrarão de 2020 e 2021 por vários motivos diferentes.
Entre esses motivos, meu preferido é um que alertei em várias ocasiões: a bolha nas ações de "montadoras" de automóveis elétricos.
Na semana passada, a Electric Mile Solutions (ticker "ELMS"), que chegou a valer US$ 1,7 bilhão e projetou um Ebitda de US$ 791 milhões em 2025, declarou falência.
Esse é o primeiro de vários corpos que aparecerão boiando nos próximos meses, num setor que vendeu promessas insanas a investidores tomados pelo FOMO ("fear of missing out", ou medo de ficar de fora).
Nesta coluna, vou explorar contigo várias das insanas promessas feitas ao longo dos últimos 24 meses.
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Um veículo de investimentos chamado "SPAC" é um dos grandes culpados pela farra dos EVs.
Em tradução literal, um SPAC é uma "sociedade de propósito específico", o que não nos serve de grande valia.
Em termos práticos, o SPAC é um fundo com características de "cheque em branco".
Funciona assim: um gestor de recursos (em teoria, com prestígio e boa reputação), busca levantar fundos com investidores através do SPAC, que será negociado em bolsa.
Uma vez realizada essa captação, o gestor sai em busca de uma empresa que irá se fundir ao SPAC, chegando assim ao mercado de capitais sem passar pelo processo tradicional do IPO.
Ao não realizar um IPO formal, as empresas que optaram por se fundir aos SPACs evitam a diligência mais rigorosa das Bolsas, bem como não precisavam se submeter a algumas restrições características dos prospectos de IPOs.
Por exemplo, uma empresa realizando um IPO não pode fazer projeções futuras sobre seu negócio. Ela pode explicar aos investidores sua operação, deve mostrar seus dados históricos, mas não pode realizar projeções futuras.
Os SPACs, por sua vez, se tornaram famosos pelos slides projetando futuros incríveis pela frente.
As "montadoras" de veículos elétricos (a maioria delas nem sequer chegou a montar um único veículo) usaram e abusaram desse mecanismo.
Para mim, ninguém retratou tão bem o pico de insanidade no mercado de veículos elétricos quanto o Wall Street Journal, neste maravilhoso artigo de 14 de março de 2021.
Na ocasião, o jornalista Eliot Brown se debruçou sobre as apresentações dos SPACs e descobriu um total de sete empresas projetando alcançar uma receita anual de US$ 10 bilhões de dólares em menos de 7 anos.
A última empresa a conseguir uma façanha similar demorou 8 anos para fazê-lo, e chama-se Google.
O Facebook demorou pouco mais de 10 anos (similar à Tesla), enquanto a Amazon demorou quase 12 anos para alcançar essa marca.
Ainda sim, sete empresas no setor prometiam uma façanha improvável.
Hoje avaliada em US$2,4 bilhões, a Nikola (ticker "NKLA") acertou em dezembro do ano passado uma multa com a SEC (o regulador do mercado de capitais americano), no valor de US$ 125 milhões, como punição por divulgar informações falsas sobre seus veículos.
Alguns meses antes, a Nikola divulgara um vídeo de um dos seus caminhões elétricos supostamente rodando em estradas americanas.
O vídeo era falso.
Na verdade, o caminhão estava numa descida, em ponto morto.
Em suas projeções iniciais aos investidores, a Nikola imaginava faturar US$ 150 milhões em 2021, dobrar em 2022, triplicar em 2023…
A realidade se provou bem menos animadora que as projeções. Até o presente momento, a empresa não faturou nem um dólar originado da venda de veículos elétricos e suas ações caem mais de 90% das máximas.
E eu poderia citar, no mínimo, mais uns 10 casos insanos como esses.
Particularmente, eu nunca gostei de investir em empresas pré-operacionais.
Sem dúvidas, ao adotar essa postura, abrimos mão de upside, porém com o benefício de uma taxa de erros grosseiros muito menor.
Não tenho dúvidas de que o futuro do automobilismo é de veículos elétricos. Ambientes como o atual, de preços astronômicos para o petróleo e seus derivados, servem apenas como catalisadores, acelerando ainda mais essa transição.
Porém, como é sempre o caso, investir numa tendência vencedora não necessariamente lhe trará bons retornos. Escolher boas empresas, buscar valuations razoáveis e diversificar suas apostas é o melhor a ser feito, mesmo ao apostar em tendências seculares.
Como todos os leitores desta coluna o sabem, nunca escrevo sobre o lado sombrio da de uma tecnologia sem falar também sobre o que considero grandes oportunidades.
Nas próximas semanas, devo explorar o caso de uma remanescente do "banho de sangue" dos SPACs. Uma empresa de veículos elétricos que também sofreu, porém me parece capaz de emergir muito mais forte desta crise.
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