Empresas de dono ou com capital pulverizado: qual a melhor opção para investir na bolsa?
Capital pulverizado e gestão profissional são considerados boas práticas de governança, mas para o acionista, ações de companhias com controle definido podem trazer retornos formidáveis

"Investir em ações é para o longo prazo." Você já deve ter ouvido essa frase umas cinquenta mil vezes, pelo menos. Basta ler alguns livros sobre os melhores investidores de todos os tempos para que esse "mantra" fique ecoando para sempre na sua cabeça.
O problema é que, depois de analisar e entender as perspectivas do setor e de chegar à conclusão de que aquele será um investimento para o longo prazo, você acaba comprando ações de uma companhia cujo CEO está pensando apenas no bônus do próximo ano, bem diferente de você.
Mas como esse desalinhamento pode te prejudicar?
Um bônus pela irresponsabilidade
Isso já aconteceu muitas e muitas vezes no mercado financeiro, especialmente nos anos de bull market: CEOs cujos bônus são definidos pelo preço das ações no final do ano fazem de tudo para tentar inflar o preço delas antes de a data de corte chegar.
Por exemplo, eles podem tomar uma dívida gigantesca para adquirir a maior concorrente e prometer sinergias impossíveis de serem capturadas.
Isso fará a ação disparar no curto prazo, e provavelmente renderá um belo bônus para o próprio CEO no fim do ano.
E quando ele tiver deixado o comando da companhia alegando "motivos pessoais", já curtindo um ano sabático no Caribe, as ações estarão desmoronando como um castelo de cartas. Ou seja, quem mais deveria ser punido acabou se tornando o maior beneficiário da manobra irresponsável.
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Desalinhamento de interesses
Apesar de parecer um caso exagerado, ele já aconteceu inúmeras vezes. Mas problemas ocasionados pelo desalinhamento de interesses acontecem até mesmo sem haver má-fé por parte do gestor.
Por exemplo, muitas vezes o tal CEO até tem boas intenções, mas não tem parte relevante do seu patrimônio investido na empresa. Isso normalmente faz com que as decisões sejam menos responsáveis do que deveriam, já que se tudo der errado ele "somente" perderá o emprego.
Será que se esse CEO, na verdade, fosse o fundador da empresa e tivesse quase todo o seu patrimônio investido nela, as decisões seriam diferentes? Será que o impacto dessas decisões seriam melhores ou piores para os preços das ações?
Para tentar responder essa pergunta, a Bain & Company fez uma pesquisa bastante interessante.
Fundadores são a alma do negócio
O gráfico abaixo mostra o retorno de empresas do S&P 500 lideradas pelo fundador, pela família fundadora ou que contavam com membros fundadores no Conselho de Administração (linha azul) comparado com os retornos das outras empresas que não se encaixavam nessa categoria (linha cinza). O retorno das "founder-led companies" foi 3,1 vezes superior no período destacado.

Por que isso acontece? O que melhora quando os fundadores estão presentes no dia a dia? Entre os motivos, alguns se destacam.
A obsessão pela empresa e seus clientes, o fato de praticamente todo o patrimônio estar investido no negócio, a mentalidade de dono, a alocação de capital mais responsável (fundadores prezam mais pelo caixa e menos por aquisições mirabolantes), a necessidade de receber dividendos e a inspiração para os funcionários se refletem em resultados melhores. Além disso, nunca é demais lembrar que, para um CEO contratado, o cargo normalmente é apenas mais um trabalho, enquanto para um fundador trata-se da vida dele.
O Brasil não é para amadores
Muito bonitos os resultados do estudo lá fora, mas aqui no Brasil as coisas costumavam ser bem diferentes num passado não muito distante.
Para começar, tornou-se frequente que herdeiros sem muita capacidade e disciplina assumissem as empresas de família. Em outros casos, a falta de regras de governança permitiu que famílias fundadoras/controladoras fizessem muita sacanagem com acionistas minoritários em décadas passadas – o empréstimo da Gerdau ao haras da família controladora é um bom exemplo, mas não é o único.
Felizmente, as coisas têm melhorado por aqui. Várias dessas companhias até embarcaram em um modelo mais evoluído, com uma gestão (CEO) profissionalizada acompanhada de perto pelos membros da família fundadora no Conselho. A capacidade técnica de um combinada com o melhor interesse no longo prazo do outro.
A própria Gerdau embarcou nesse modelo, depois de passar por uma crise financeira há alguns anos, e hoje colhe excelentes frutos dessa mudança, como a venda de ativos ruins, boa rentabilidade, baixo endividamento e ótimos dividendos – a GGBR4 está no Vacas Leiteiras, inclusive.
Não existe regra, mas normalmente ajuda
Como vimos, o fato de a família fundadora/controladora estar próxima nem sempre ajudou os acionistas minoritários.
Além disso, o fato de não ter um controlador não impediu empresas como a Lojas Renner de apresentar valorizações gigantescas na década passada.
No entanto, é importante lembrar que isso só aconteceu porque a Renner tinha um bom modelo de negócios e estava sob o comando de um CEO (José Galló) que era tão obsessivo pela empresa e pelos clientes quanto qualquer fundador seria.
Cada caso é um caso, e para colocar as probabilidades a seu favor você vai precisar se certificar que o negócio é bom e que o CEO é competente. Se tiver uma família controladora observando tudo de perto e defendendo os interesses de longo prazo e os dividendos dos acionistas minoritários, melhor ainda.
Duas outras empresas que se encaixam nesse estilo de gestão – família controladora no Conselho e CEO profissional – são a Intelbras (que também está no Vacas) e a Irani. Esta última fabrica e vende embalagens, um modelo de negócios pouco cíclico e que tem permitido a ela atravessar a tempestade da bolsa nos últimos dias sem grande volatilidade.
Por se tratar de uma microcap com ótimo potencial, ela inclusive faz parte do Microcap Alert. Se quiser conferir todos os outros ativos da série, deixo aqui o convite.
Um grande abraço e até a semana que vem!
Ruy
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