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entrevista

‘Episódio Petrobras deu um susto grande nos investidores’, diz economista do Itaú

O economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, diz também estar preocupado com as incertezas políticas, que ameaçam o crescimento do PIB

Petrobras (PETR4) bolsonaro
O presidente Jair Bolsonaro mirando a Petrobras - Imagem: Montagem Andrei Morais. Foto: Marcelo Chello/ Shutterstock

Pessimista em relação ao avanço das reformas econômicas, o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, diz também estar preocupado com as incertezas políticas, que ameaçam o crescimento do PIB. "Se persistir esse ambiente de solavancos na gestão de empresas importantes, vai ser difícil a gente manter uma trajetória de crescimento do investimento. A gente, por ora, espera um crescimento em torno de 2% em 2022, mas ele pressupõe uma economia com um grau menor de incerteza do que a gente tem agora."

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Mesquita acrescenta que a interferência do presidente Jair Bolsonaro na Petrobras foi um "susto grande" para o investidor: "Quão relevante esse episódio vai se mostrar como divisor de águas, a história vai dizer. Mas os dados são incontroversos. Trincou um pouco o cristal".

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista do economista ao Estadão.

O Itaú estava entre os menos pessimistas em 2020 nas projeções para o PIB, com queda sempre na casa dos 4%. Agora, também, projetando uma alta de 4%. A gravidade da pandemia não está se acentuando muito rapidamente para manter esse otimismo?

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Nosso indicador de atividade, que ajudou bastante a acertarmos o PIB do ano passado, não sentiu ainda (alteração no ritmo da economia). Esse indicador foi calibrado para equivaler a 100 no pré-pandemia e está rodando há vários meses em torno de 90. Não está crescendo, mas não está caindo. Ainda não captamos o efeito da nova rodada de lockdown. Esses lockdowns estão acontecendo praticamente no mesmo período do ano passado. Então, há um viés de baixa para o PIB do segundo trimestre. Olhando o ano, estimamos que o carrego estatístico para o PIB de 2021 é de 3,6%. Como a gente prevê alta de 4%, isso significa que o crescimento é modesto. Quais são os riscos desses 4%? Da virada do ano para cá, a gente subiu a projeção do PIB mundial de 6,2% para 6,9%, muito em função de uma revisão positiva para a economia americana, que poderia, em tese, ajudar o Brasil. Esse é um risco positivo. O negativo é a pandemia. Se tivermos um impacto que seja metade do da primeira onda, e supondo que o lockdown dure dois meses, o PIB deve crescer 0,5% no primeiro trimestre e cair 0,4% no segundo trimestre. Se o lockdown for mais longo, até maio, aí cairia 0,7% no segundo. Mas vamos ter uma ideia mais clara do efeito do distanciamento social daqui a umas duas ou três semanas.

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O mercado financeiro está instável nos últimos dias, muito por conta da intervenção do governo na Petrobrás, do descontrole da pandemia e do atraso na vacinação. Ainda que a dívida do País caia neste ano e que a PEC do auxílio emergencial tenha sido aprovada no Senado, o País passa por uma crise de confiança?

Esse é o ponto crítico. Desde o fim do ano passado, os economistas vêm ressaltando a importância de se conter a pandemia. Do ponto de vista humanitário, é óbvio, mas, além disso, também do ponto de vista econômico. Não tem recuperação consistente sem superar a pandemia. Vacina virou um instrumento poderoso de política econômica, porque ela permite a recuperação de setores importantes da atividade, como serviços, que emprega muita gente. Esse é o principal fator de risco. O risco fiscal deriva, no curto prazo, do risco da pandemia. Não teríamos uma nova rodada de auxílio emergencial se a pandemia tivesse seguido uma trajetória declinante.

Mas como está a confiança do investidor no País em geral, dado o cenário político?

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Não há dúvida de que o episódio Petrobrás preocupou os investidores. Por exemplo, o fluxo de capital estrangeiro para a Bolsa vinha em recuperação, mas, depois desse episódio, começou a se reverter. Foi um susto grande. Uma vez que o investidor fica assustado, ele demora para se acalmar. Não é a primeira vez que a gente tem interferência do governo na Petrobrás. Governos de diferentes orientações ideológicas já fizeram isso, mas, quando acontece, e da forma como aconteceu, surpreendendo o mercado, tem uma reação natural dos investidores de ficarem mais retraídos, de quererem entender melhor qual é a direção da política econômica. Não dá para dizer que foi um episódio irrelevante. Foi relevante, sim. Quão relevante ele vai se mostrar como divisor de águas, a história vai dizer. Mas os dados são incontroversos. Trincou um pouco o cristal.

Muitos analistas têm dito que o País está sem rumo. Concorda?

Uma coisa que está acontecendo positivamente é que o investimento vem crescendo. Teve dois trimestres consecutivos de alta. Agora, um crescimento razoável não vai se manter em um ambiente de grande incerteza. Vamos resolver a incerteza fiscal? Depois, a reforma tributária? As minhas dúvidas para 2022 são essas. Se persistir esse ambiente de incerteza, de susto, solavancos na gestão de empresas importantes, vai ser difícil manter uma trajetória de crescimento do investimento. O próprio consumo pode acabar sendo afetado. Por ora, nós esperamos um crescimento em torno de 2% em 2022, mas ele pressupõe uma economia com um grau menor de incerteza do que a gente tem agora.

Teremos, então, de esperar a próxima eleição para alavancar o crescimento?

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Se eu estiver errado e tivermos um progresso grande na agenda de reformas neste ano, o ambiente melhora. Mas a frustração com a agenda de reformas não é de agora. A falta de progresso agora é frustrante, mas a frustração vem de muito tempo.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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