El Salvador quer adotar bitcoin como moeda oficial. O que especialistas pensam sobre isso?
As perspectivas para o país centro-americano são boas, mas os desafios serão tão grandes quanto
O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, anunciou no final de semana que pretende tornar o bitcoin a moeda oficial do país. Isso faria do pequeno país da América Central virar a primeira nação a adotar a criptomoeda como moeda nacional.
A afirmação foi feita pelo próprio Bukele durante a conferência Bitcoin 2021, que acontece em Miami, na Flórida. O governo de El Salvador pretende trabalhar com a empresa Strike, uma startup de tecnologia.
A notícia foi recebida com surpresa. Embora o bitcoin possa ser usado como dinheiro convencional, as oscilações no preço e a sensibilidade ao noticiário tornam a criptomoeda pouco prática para ser usada como pagamento nas compras na padaria, por exemplo.
O presidente de El Salvador deve enfrentar as Casas Legislativas para aprovar sua proposta. Ou seja, ainda há um caminho longo antes do país adotar o bitcoin como moeda oficial.
Se a iniciativa for adiante, será uma espécie de versão 2.0 da "dolarização" usada por vários países, inclusive El Salvador. A ideia, aliás, não é substituir a moeda norte-americana, apenas incluir o bitcoin como divisa no país.
Mas o que essa iniciativa representa para o mercado de criptomoedas? Confira a seguir a visão de especialistas ouvidos pelo Seu Dinheiro.
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Logística
A maior iniciativa de moeda comum no planeta é o euro, adotado por 19 países da União Europeia. O objetivo, nesse caso, foi o de promover uma maior integração das economias do bloco.
Mas os países da periferia do capitalismo, ou seja, nações com um nível de desenvolvimento econômico ainda baixo, também costumam adotar moedas comuns, como explica Fabio Alves Moura, sócio-diretor AMX Law.
Ele dá o exemplo de países da África Ocidental como Benin, Burkina Faso, Guiné-Bissau, que adotaram uma divisa comum: o Eco. Assim, a logística não fica a cargo de apenas uma nação, reduzindo custos de gestão e organização que um Banco Central em um único país teria.
Além disso, criar uma moeda do zero pode ser muito custoso, e países menores não têm força e estrutura financeira para manter seu próprio dinheiro.
“O custo operacional [do bitcoin] é muito menor que o custo operacional de um sistema bancário”, comenta Moura. Na América Central, muitos países já usam o dólar porque suas moedas têm pouco poder de compra.
Moeda digital nacional
Muitos devem se perguntar por que, em vez de adotar o bitcoin, o país não cria uma moeda nacional digital, ou CBDC (Central Bank Digital Currency, moeda digital de Banco Central). Países como China, Estados Unidos e até o Brasil têm esse tipo de projeto. As ideias, contudo, são bem diferentes.
O bitcoin não possui um Banco Central ou instituição por trás, enquanto que uma CBDC obrigatoriamente tem. Por mais que não imprimir dinheiro físico possa baratear os custos de emissão da moeda, a logística de um BC por trás ainda seria grande.
Preço sobe, moeda cai
Um dos grandes pavores do criptomercado são as grandes oscilações de preço. Quem viu o valor do bitcoin cair de US$ 65 mil para US$ 36 mil nas últimas semanas deve ter pensado nisso logo de cara.
Entretanto, o governo tem mecanismos que podem ajudar a amortecer essa queda, como explica Bruno Milanello, do Mercado Bitcoin. Contratos futuros de bitcoin e outros ativos são uma das formas de se prevenir de grandes perdas.
Rocelo Lopes, empresário e especialista em blockchain e critpoeconomia, também afirmou que é possível segurar o preço dos ativos de maneira que não interfira no dia a dia do país.
Ele é responsável pelo Blue Token (BLUE), um token criado a partir de 14 criptomoedas e lastreado nas dez principais criptos do mercado. Por meio de contratos inteligentes, quando um ativo passa a cair, o computador aciona um gatilho que inicia a venda e a compra de dólares ou outra moeda, por exemplo.
O que muda para as criptos?
Os três especialistas concordaram que, por mais que a economia de El Salvador seja pequena, trata-se de um grande passo para o mundo das criptomoedas.
Moura, da AMX, afirma que a iniciativa pode ser positiva tanto para o governo quanto para a população. Entretanto, a regulamentação e taxação do bitcoin devem ser um desafio para o pequeno país centro-americano.
El Salvador deve se tornar uma vitrine não apenas para o mundo das criptomoedas como para outros países com moedas fracas e que devem ficar de olho nos resultados, de acordo com Rocelo Lopes, da Blue Token.
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