Com juros baixos e oferta de crédito, setor imobiliário fecha 2020 em alta
Com as medidas de compensação de perda de renda durante a pandemia e a chamada poupança por precaução, a captação líquida da caderneta de poupança inundou a principal fonte de recursos para financiamento para a classe média

O ano que mudou padrões de consumo, fez o desemprego bater recorde e colocou a maior parte dos setores da economia em suspenso terminou melhor do que o esperado para o mercado imobiliário. Após um segundo trimestre de fortes incertezas, cancelamento de lançamentos e expectativa de queda nas vendas, o segmento chegou ao final de 2020 com números surpreendentes. De janeiro a novembro, as operações de financiamento contratadas com recursos da caderneta de poupança somaram R$ 106,5 bilhões. O valor mostra um aumento de 52% em relação ao mesmo período do ano anterior e é o melhor resultado desde 2014.
Na cidade de São Paulo, as vendas de imóveis novos no acumulado em 12 meses até outubro chegaram a 51,2 mil unidades, um crescimento de 13,1% em relação ao mesmo período de 2019. A expectativa inicial do Secovi-SP, o sindicato da habitação, era fechar o ano inteiro com uma venda de pelo menos 50 mil unidades, o que repetiria o resultado de 2019.
Os juros em um patamar historicamente baixo - o que se reflete em taxas de financiamento mais atrativas e estimula mais brasileiros a se voltarem para os imóveis como opção de investimento - e os recordes de captação na poupança durante a pandemia (irrigando a maior fonte de recursos para os bancos financiarem a casa própria) foram fatores que ajudaram a segurar o fôlego do setor no segundo semestre, apesar da crise.
Foi uma surpresa positiva, dado o cenário difícil do ano passado, avalia a presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), Cristiane Portella. "Os juros estão em um patamar que nunca estiveram, em torno de 6,9% para o financiamento. Em 2017, a média era de 11,4%, em um contrato de 35 anos. A prestação chegou a se reduzir em 30% e muito mais gente ficou elegível para comprar um imóvel. Novas formas de indexação do financiamento, como as taxas prefixadas, trouxeram um leque maior para o consumidor", afirma Cristiane.
Segundo ela, quem não foi diretamente impactado pela pandemia manteve os planos, parou de gastar em outras coisas e passou a valorizar o estar em casa, seja para trabalhar ou lazer. "Em 2020, a gente viu uma valorização do espaço e do ambiente em que se mora", diz.
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Fonte de recursos
Com as medidas de compensação de perda de renda durante a pandemia e a chamada poupança por precaução, a captação líquida da caderneta de poupança inundou a principal fonte de recursos para financiamento para a classe média, pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE). De janeiro a novembro, a captação da poupança somou R$ 109,4 bilhões - volume recorde desde o Plano Real e que, desde a pandemia, só ficou negativo em novembro, quando saíram mais recursos do que entraram.
A perspectiva para 2021, no entanto, é que a captação caia, conforme a economia ainda demore a engrenar e os brasileiros gastem os recursos poupados durante o pior da crise.
Mas, ainda que o Banco Central entre em um novo ciclo de alta dos juros neste ano, não são esperados aumentos prejudiciais para o setor, diz o presidente do Secovi-SP, Basílio Jafet. "Há um ano, os juros estavam em cerca de 4,5% ao ano, caíram para 2%, mas a queda do juro do financiamento foi menor. A expectativa é que o crédito imobiliário se mantenha em 2021."
Desemprego
Os dados do Secovi-SP ajudam a entender o movimento do consumidor durante os meses de pandemia: em janeiro e fevereiro do ano passado, ainda antes da primeira morte causada por covid-19 registrada no País, as vendas estavam em alta. Logo depois, elas passam a cair, até atingir um fosso entre abril e maio.
Com o relaxamento das medidas de isolamento social, a venda de residências voltou a subir no fim do primeiro semestre, atingindo as 51,2 mil unidades vendidas em 12 meses até outubro e levando a entidade a projetar como resultado final de 2020 pelo menos as 50 mil unidades vendidas no ano anterior.
No caso dos lançamentos, as incertezas quanto ao impacto do novo coronavírus no desempenho do setor fizeram as empresas interromperem os lançamentos, e a estimativa é que os dados indiquem queda de 30% ante 2019.
"Não dava para lançar no meio da quarentena. O nosso primeiro semestre se restringiu a janeiro e fevereiro, os outros meses foram perdidos. Os licenciamentos também diminuíram de velocidade, já que muitos servidores das Prefeituras não estavam trabalhando. Com isso, fechamos o ano sem repetir o desempenho de lançamentos: 45 mil em 2020 ante 65 mil em 2019", diz Basílio Jafet, presidente do Secovi-SP.
Segundo ele, um ponto que ainda preocupa as empresas do setor é o desemprego crescente e que deve continuar subindo no começo deste ano, à medida que os brasileiros que estavam recebendo o auxílio emergencial voltem a procurar uma ocupação, com o fim do benefício.
Dados mais recentes da Pnad Contínua, do IBGE, apontam que a taxa de desocupação no Brasil era de 14,3% no trimestre encerrado em outubro. "O desemprego é uma questão que as empresas do setor sempre acompanham de perto, e é crucial que ele seja reduzido para termos um crescimento sustentável do setor. É um fator altamente desestimulante. O mercado imobiliário como um todo caiu de 2014 a 2017 muito porque o desemprego subiu", diz Jafet.
Quem também espera um ano de continuidade de recuperação para o setor é a Associação Brasileira das Incorporadoras (Abrainc). Segundo o presidente da entidade, Luiz França, a expectativa é que, com o início da vacinação no Brasil, haja também o impulso que falta para que os consumidores superem por completo o medo da covid-19.
"Quando olharmos para trás, 2020 vai ser aquele ano em que os dois primeiros meses apontavam que o ano seria excelente e o mercado financiado de média e alta renda entrava em uma fase muito positiva. Até que veio a pandemia, caímos e nos recuperamos. O fato de já vislumbrarmos a vacina é o principal indicativo de que uma retomada sustentável do mercado é possível", afirma França. As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".
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