“Bolsa brasileira está conseguindo viabilizar a chegada de novas empresas e democratizar o mercado de capitais”, diz CEO da B3
Gilson Finkelsztain é o entrevistado do RadioCash, programa semanal da Empiricus

No acumulado de 2021 até meados de agosto, 44 companhias já realizaram seus IPOs na bolsa brasileira. O mercado de capitais está em um dos melhores anos da sua história, com a possibilidade de superar o recorde atingido em 2007 de 64 companhias estreantes. A despeito disso, a empresa que domina as negociações de ações e títulos no Brasil, a B3, vê os seus papéis derraparem.
No RadioCash, podcast da Empiricus e da Vitreo, desta semana, Gilson Finkelsztain, CEO da companhia, falou sobre o momento atual e os desafios do mercado de renda variável brasileiro.
“A bolsa brasileira está conseguindo viabilizar a chegada de novas empresas e democratizar o acesso a funding via mercados de capitais, que é o que sempre tentamos fazer”, comentou Finkelsztain no programa apresentado por Felipe Miranda, estrategista-chefe e CIO da Empiricus, e Jojo Wachsmann, CIO da Vitreo.
Segundo ele, houve uma mudança de paradigma. “Até 2018 nós tínhamos um problema de demanda, não havia dinheiro fluindo para as ações. Hoje, o brasileiro está disposto a diversificar seu portfólio”, destacou.
Para tentar controlar a inflação, o Comitê de Política Monetária (Copom) veio elevando a taxa básica de juros nos últimos meses. No último ajuste, a Selic subiu para 5,25% ao ano. E o Banco Central sinaliza novas altas.
O CEO da B3 avalia, no entanto, que a demanda por boas ações continuará existindo mesmo com a tendência altista dos juros. Isso, para Finkelsztain, é fruto de um trabalho de educação financeira exercido pela própria B3 e por outras empresas - como a Empiricus - no país. “Hoje vemos que o investidor mediano está diversificando, investindo em até cinco papéis, em diferentes produtos, como fundos imobiliários, ações e renda fixa”.
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Com isso, ganham os investidores e as empresas. “Pequenas e médias empresas antes faziam suas rodadas pré-IPO e não havia nenhum apetite por elas, bem como para companhias de tecnologia ou do varejo. Hoje, temos fundos ancorando essas ofertas. A dinâmica mudou muito”, disse.
As janelas de IPOs estão ficando, segundo Finkelsztain, “cada vez mais abertas” e as empresas têm se preparado muito antes de ir à B3, o que é positivo. Já aquelas que aceleram muito as suas chegadas à bolsa, acabam ficando pelo caminho. “Acho que daqui para frente tudo será mais fluido. Não teremos mais voos de galinha nos mercados de capitais”, comenta.
Por enquanto, o cenário para a renda variável ainda está tranquilo mas, segundo o CEO, é necessário monitorar o risco de descontrole das contas públicas, algo que tem assustado o mercado por conta das discussões em torno do pagamento dos precatórios e do anúncio do aumento do pagamento do bolsa família pelo governo.
B3 sofre com saída de executivos e de acionistas
Além da perspectiva de alta de juros, as ações B3 sofreram também com notícias de saída de executivos da diretoria e do conselho de administração, assim como de investidores importantes da antiga composição acionária.
Entre as mudanças, Cícero Augusto Vieira Neto está para deixar a Vice-Presidência de Operações, Clearing e Depositária; a gestora Brasil Capital diminuiu sua posição na companhia e José Berenguer, executivo do Banco XP, saiu do conselho de administração.
As duas primeiras causas de receio dos agentes de mercado, para Finkelsztain, são desmotivadas. Cícero teria saído por motivos pessoais, com novos projetos em vista (acadêmicos, por exemplo) e a saída da Brasil Capital não sinaliza um pessimismo, uma vez que a maioria dos principais acionistas da companhia continua com suas posições.
“A gente tem entre nossos 15 maiores investidores uma constância muito grande. Temos pouca alteração e quando temos elas variam entre 0,5% e 2%. Em 2020, alguns dos top 10 aumentaram participação, vislumbrando boa performance”, contou.
A saída de José Berenguer, porém, pode realmente, segundo o CEO da B3, sinalizar um possível conflito de interesses no longo prazo. Porém, não seria nada alarmante ou relacionado a uma nova bolsa no Brasil, como foi especulado, mas sim, relativo ao mercado de criptomoedas. “Tanto a XP, para onde ele foi, quanto a B3 estão avaliando participação nesse mercado”, disse.
A possível concorrência, seja no mercado de ações ou de criptomoedas, porém, não assusta. “A gente trabalha como se já tivéssemos concorrência, e já temos em vários serviços como registro de balcão, duplicatas, área de CRA. Quanto aos derivativos e ações, empresas brasileiras já podem abrir capital fora do Brasil”, ressaltou.
Acionistas cobram opções de crescimento
“Quanto ao desempenho da ação neste ano, vejo um questionamento por parte dos acionistas sobre as opções de crescimento da B3. Será que a B3 está sendo tímida em seus novos negócios? Estamos discutindo muito isso”, comentou Finkelsztain.
O mercado estaria, segundo ele, priorizando perspectiva de crescimento ao invés de solidez. “Nosso core business é sólido, com bons resultados. Porém, o mercado tem priorizado índices como market share, usuários, receita, mesmo que a companhia não dê lucro”, explica.
A iniciativa de entrar no mercado de criptomoedas, já mencionada, vai nesse caminho. A B3 já atuou junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para liberar a listagem de ETFs e fundos com posições nesses ativos no Brasil e atua também para que a negociação de derivativos seja permitida.
“Entendemos que a companhia tem que preservar o seu espírito de ser uma empresa focada em serviços para outras empresas e não em serviços para clientes”, contou. “Estudamos como a B3 pode se posicionar para prestar serviços para essas corretoras de criptomoedas”, explicou.
Além disso, a B3, segundo Finkelsztain, pretende oferecer a possibilidade de listagens duplas - com ações sendo disponibilizadas simultaneamente, tanto no Brasil quanto no exterior - e deve continuar a buscar o crescimento do número de investidores no Brasil, onde ainda há mercado endereçável. “A métrica que gostamos de olhar, que ainda é o investimento mais lembrado e usado pelo brasileiro para fazer sua reserva de valor, é a caderneta de poupança. As poupanças com mais de R$ 5 mil são referência e temos cerca de 20 milhões delas”, explica. Entretanto, atualmente, a B3 tem cerca de 3,8 milhões de investidores, o que demonstra o espaço que ainda pode ser conquistado.
Você pode escutar todos esses comentários - e muitos outros - na íntegra do Radio Cash, disponível no Spotify de maneira gratuita.
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