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Estadão Conteúdo

Impacto profundo

Crise fecha 50 mil empresas do setor de turismo em todo o país

Estudo revela a extinção de 16,7% dos estabelecimentos do setor entre março e agosto

Estadão Conteúdo
3 de outubro de 2020
14:45
Crise no Brasil - Imagem: Shutterstock

O restaurante Albertina, na zona Oeste de São Paulo, retrata o atual cenário do setor turístico no País. Atropelado pelos efeitos da pandemia, o estabelecimento anunciou em julho passado o encerramento de suas atividades, depois de mais de cem dias de portas fechadas. "Ninguém quer fechar, porque significa demitir pessoas e desistir de um investimento econômico, pessoal e profissional. É uma decisão pesada, mas às vezes é necessário, precisa ser feito", contou o chef Bruno Alves, que agora se dedica a jantares para grupos fechados.

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Um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), obtido com exclusividade pelo Estadão/Broadcast, mostra que a situação de Alves está longe de ser isolada. Segundo a entidade, com a fuga dos habituais visitantes 50 mil estabelecimentos turísticos tiveram de fechar as portas de março a agosto. São bares, restaurantes, hotéis, pousadas, agências de viagens e serviços de transportes, cultura e lazer.

O número representa a extinção de 16,7% dos estabelecimentos turísticos do País, especialmente bares e restaurantes (com o fechamento de 39,5 mil pontos), hotéis, pousadas e similares (5,4 mil) e transporte rodoviário (1,7 mil).

"Tem gente fazendo obra em hotel porque não adianta abrir agora, melhor esperar a pandemia passar, abrir tem custos associados. O setor aéreo preocupa muito também, porque a crise pode levar a uma concentração ainda maior do mercado, com reflexos nos preços das passagens aéreas", disse o economista Fabio Bentes, responsável pelo estudo da CNC, que teve dados compilados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Todas as unidades da Federação perderam empresas turísticas, com destaque para São Paulo (redução de 15,2 mil estabelecimentos), Minas Gerais (5,4 mil), Rio de Janeiro (4,5 mil) e Paraná (3,8 mil).

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Ainda de acordo com o estudo, em seis meses de pandemia foram fechados 481,3 mil empregos formais no setor ligado ao turismo. "O impacto dessa mortandade de empregos no mercado de trabalho é gigantesco. O setor tinha 3,4 milhões de trabalhadores formais antes da pandemia. Houve uma destruição de quase 14% dos empregos no setor", avaliou Bentes.

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O restaurante Albertina tinha sete funcionários e três sócios. O Caverna, bar da zona Sul do Rio, teve o mesmo destino, com a dispensa dos 10 empregados contratados com carteira assinada e mais quatro temporários de fim de semana. "Só delivery não segura o faturamento. Com a reabertura dos primeiros estabelecimentos, voltaram a cobrar o aluguel cheio, a conta de luz também, os custos subiram muito e o delivery perdeu a atratividade", contou Pedro Aliperti, sócio Caverna, que leiloou objetos de decoração do bar para saldar as dívidas. "Não saio zerado, mas pelo menos não estou devendo nada a ninguém."

Ociosidade

O setor turístico explorou apenas 26% do seu potencial de geração de receitas nos meses de crise, deixando de faturar R$ 207,85 bilhões entre a segunda quinzena de março e o fim de setembro, calculou a CNC. O pior momento ocorreu em março e abril, quando o volume de serviços turísticos prestados no País despencou 68,1%, conforme apurado pela Pesquisa Mensal de Serviços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em julho, o setor ainda operava 56,6% aquém do patamar pré-pandemia. "Há dentro do setor turístico perdas muito importantes na parte de locação de automóveis, alojamento e alimentação, agências de viagens, serviços de buffet, criação artística", enumerou Rodrigo Logo, gerente da pesquisa do IBGE.

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Segundo Manoel Linhares, presidente nacional da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH Nacional), as medidas do governo voltadas para sustentação do emprego e concessão de crédito ajudaram a evitar perdas maiores no setor, mas a ocupação na rede de hotelaria permanece baixa. "A ocupação média está em 20% da capacidade total. O hoteleiro precisa de 50% de ocupação para pagar os custos, então ele teve que diminuir gastos, dispensar funcionário", justificou Linhares.

"Vendas internacionais estão fracas. No doméstico, beiramos 70% de um ano atrás", contou Leonel Andrade, presidente CVC Corp, dona da operadora de viagens CVC, ao comentar o prejuízo líquido de R$ 1,151 bilhão no primeiro trimestre de 2020.

A companhia acredita que deva ganhar mercado, uma vez que o tamanho da companhia em relação à concorrência dá mais condições de resistir ao momento difícil. "Provavelmente, vamos ganhar marketshare com a crise, mas não é algo para celebrar."

A ABIH prevê uma retomada lenta e gradual do setor e aposta numa campanha para convencer o brasileiro a voltar a viajar pelo País. "A recuperação virá pelo turismo regional, de pouca distância, mais rodoviário. A hotelaria está preparada para receber com segurança, os profissionais estão treinados em todos os protocolos para proteger a saúde do turista", disse Linhares.

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Perda generalizada

Com o setor de hotelaria afetado pela pandemia do coronavírus, Alfredo Miguel viu o seu negócio ser atingido também. Dono do Grupo Bonjardim, que presta serviços de restaurante para redes de hotéis, ele reduziu de 300 para 80 a sua equipe de funcionários, mas não precisou fechar nenhuma das 15 unidades. "Estamos sendo bastante prejudicados também. Mas vamos levar enquanto der." Segundo ele, não foi possível pegar o crédito oferecido pelo governo porque o faturamento estava acima do permitido para a liberação.

O Bonjardim tem um contrato vigente com um hotel em Salto (SP), mas as atividades foram suspensas e a retomada ainda é uma incerteza. Por isso, os 15 funcionários dessa unidade tiveram de ser dispensados no começo de abril. Miguel vislumbra uma melhora do setor com a chegada de uma vacina. "Se a vacina vier em dezembro, a coisa sara. Mas se vier só em março, aí (a melhora) é só para junho do ano que vem", disse.

O presidente do SinHoRes Osasco - Alphaville e Região, Edson Pinto, tem a mesma opinião. "A questão da vacina é fundamental para a retomada da confiança, mas temos em São Paulo os melhores protocolos higiênico-sanitários do Brasil e a melhor performance na sua execução prática."

A falta de clientes também é um grande problema para Martin Jensen, diretor-presidente da Queensburry, agência de turismo de luxo. A equipe, que antes era de 116 funcionários, caiu para 24, e a empresa entrou em recuperação judicial. "Depois de março, não tive nenhuma venda completa do pacote internacional. E houve mais de mil cancelamentos de viagens. Março foi um dilúvio, um tsunami, um pesadelo."

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