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Como acredito que depois teremos novas versões do coronavírus, é bom que o caro assinante saiba como tudo começou, para que não seja surpreendido da próxima vez
Suponho que, no mais tardar, em 2021, o surto pandêmico do covid-19 terá terminado. Como acredito que depois teremos novas versões do coronavírus, é bom que o caro assinante saiba como tudo começou, para que não seja surpreendido da próxima vez.
Para isso, estou me valendo da transcrição de uma matéria que está sendo veiculada pela Qi News, uma revista digital portuguesa, e que me foi enviada por uma amiga que trabalha numa multinacional farmacêutica europeia.
Eis o texto:
“Por que o Covid-19 apareceu na China?
Foi na passagem do ano de 2019 que as autoridades de saúde na China admitiram que havia um problema. Um número crescente de pessoas apresentava sintomas semelhantes, sobretudo tosse seca e febre, antes de contrair pneumonia.
Várias dessas pessoas começaram a morrer.
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Os médicos chamaram essa doença de Covid-19 (CORONAVÍRUS DISEASE 2019), indicando que era um vírus que causava a enfermidade.
Quando tentaram procurar a sua origem, encontraram uma fonte provável: um mercado de comida em Wuhan.
Dos primeiros 41 doentes infetados com o vírus, 27 tinham estado nesse mercado.
Não eram provas conclusivas, mas as autoridades chinesas fecharam o mercado imediatamente. Já tinham visto isto acontecer num lugar semelhante.
Em 2002, um coronavírus apareceu em outro mercado do mesmo tipo no Sul da China. Este vírus acabou por chegar a 29 países e por causar a morte de aproximadamente 800 pessoas.
Agora, 18 anos depois, este novo coronavírus já está em pelo menos 184 países e já causou a morte de mais de 10 mil pessoas (dados defasados).
Então o que é que esses mercados têm a ver com os surtos de coronavírus e por que que isso acontece na China?
Muitos dos vírus que nos causam doenças têm origem em animais. Alguns dos vírus da gripe vêm de aves ou porcos. O HIV, dos chipanzés. O Ébola, provavelmente de morcegos.
No caso do Covid-19, parece ter sido originado no contato de um morcego com um pangolim, antes de ter infectado um ser humano.
Os vírus são especialistas em passar de umas espécies para as outras, mas é relativamente raro uma cadeia de transmissão que atravesse três espécies ao mesmo tempo e que uma dessas espécies seja um ser humano.
É raro porque todos esses hospedeiros teriam de estar no mesmo local, num intervalo de tempo relativamente curto, e é aí que entra o mercado de Wuhan. É um mercado vivo.
Nesses mercados, os animais estão vivos e são mortos e vendidos aos clientes na hora. As gaiolas ficam empilhadas umas em cima das outras e os animais que estão em baixo são ensopados com os fluidos que escorrem dos animais que estão em cima: fezes, urina, sangue, pus, etc. E é exatamente assim que um vírus salta de um animal para outro.
Se esse outro animal entra em contato ou é consumido por um ser humano, o vírus pode então, potencialmente, infectar esse ser humano. E se esse vírus passa então para outro ser humano, está iniciado um surto viral.
Em todo o mundo há mercados vivos, mas os localizados na China são particularmente famosos. Isso se deve à grande quantidade de animais oferecidos, incluindo muitas espécies selvagens. Há animais de todo o mundo e cada um pode transportar vírus característicos de sua espécie para os consumidores.
A razão pela qual esses animais estão todos no mesmo mercado é devido a uma decisão tomada pelo governo chinês há várias décadas.
Nos anos 1970, a China estava prestes a entrar em colapso. A fome tinha matado mais de 36 milhões de pessoas e o regime comunista, que controlava a produção de comida, perdera a capacidade de alimentar a população de mais de 900 milhões de chineses.
Em 1978, à beira do caos, o regime abdicou desse controle e legalizou a privatização da agricultura.
Enquanto as grandes empresas começaram a dominar a produção de espécies de consumo popular como o porco e o frango, alguns pequenos produtores passaram a capturar e fazer criação de espécies de animais selvagens como forma de sustento.
No início eram pequenas iniciativas, como produção de carne de tartaruga, por exemplo, ou de cobra.
Foi assim que a criação de animais selvagens começou na China. E como se tornou uma forma de sustento para a população, o governo chinês apoiou e encorajou essa atividade.
Mais tarde, em 1988, Pequim tomou uma decisão que alterou completamente a realidade do comércio de animais selvagens no país. Promulgou a lei da Proteção de Animais Selvagens, que os definiu como sendo Recursos Naturais de Propriedade do Estado e regulamentou as atividades que utilizavam esses recursos.
A mesma lei encorajou a domesticação e criação de espécies de animais selvagens. E assim nasceu uma indústria.
As pequenas produções locais se tornaram grandes empreendimentos industriais. Quanto maior o número de animais concentrados no mesmo local, maior a probabilidade do surgimento e disseminação de doenças como vírus e infecções bacterianas. Também aumentou a diversidade de espécies criadas pelos produtores, o que, por sua vez, significou o aumento das espécies de vírus.
Todos esses animais começaram a ir vivos para os mercados, para venda e consumo da população.
Essa indústria, agora legal, de comércio de animais selvagens começou a ter expressão na China e serviu de encobrimento para uma indústria, esta ilegal, de comércio de espécies ameaçadas de extinção, como o pangolim.
No início dos anos 2000, esses mercados estavam cheios de animais selvagens. Então aconteceu o inevitável. Em 2003, a origem do surto de SARS, o coronavírus relacionado com a Síndrome Respiratória Aguda Grave foi localizado num mercado vivo no Sul da China.
Nessa ocasião, cientistas encontraram vestígios do vírus em civetas, que eram comercializadas nos mercados.
As autoridades chinesas fecharam os estabelecimentos e proibiram imediatamente a criação de animais selvagens. Mas, apenas alguns meses depois do surto, essas mesmas autoridades declararam que era legal a criação de 54 espécies de animais selvagens, incluindo as próprias civetas.
Em 2004, a indústria de animais selvagens na China estava estimada em 14,5 bilhões de dólares e detinha um lobby influente na administração central em Pequim.
É por causa dessa influência que o governo chinês tem deixado que o comércio de animais selvagens cresça ao longo dos anos.
Em 2018, a indústria de criação de animais silvestres e selvagens começou a ocupar os nichos de comércio de alimentos com propriedades ligadas ao aprimoramento da forma física, performance sexual, estética e, é claro, saúde.
Nenhum desses conceitos tem validade científica.
Independentemente disso, esses produtos se tornaram populares numa nova classe rica e populosa emergente na China. E foi justamente essa nova minoria influente que o governo chinês pretendeu favorecer com as leis do comércio de animais selvagens, pondo em risco a grande maioria da população do país.
Pouco depois do surto do COVID-19, a administração central, em Pequim, mandou fechar milhares de mercados de animais vivos e baniu temporariamente o comércio de espécies selvagens.
Várias organizações espalhadas pelo mundo estão apelando para que essa proibição se torne permanente.
Em resposta, há relatos de que a China esteja disposta a rever a Lei de Proteção de Animais Selvagens, que em 1988 encorajava os pequenos produtores a fazer criação dessas espécies. Mas a menos que essas ações levem a uma proibição permanente da criação e comércio de espécies animais selvagens, surtos e epidemias como esta vão certamente continuar a acontecer.”
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