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Carta de Brasília
Lucas de Aragão
Lucas de Aragão é diretor de Comunicação e sócio da Arko Advice, formado em Ciência Política pela UniDF e mestre em Campanhas Eleitorais e Governo pela Fordham University (Nova York). Diversos de seus artigos foram publicados em revistas e periódicos de ciência política no Brasil e no mundo.
2020-06-29T11:25:14-03:00
Carta de Brasília

Queiroz é a bala de prata contra Bolsonaro?

O caso Queiroz aumenta a temperatura política, alimenta o noticiário negativo e gera maior dependência ainda do governo ao Congresso Nacional

29 de junho de 2020
11:25
Jair Bolsonaro
Imagem: Isac Nóbrega/PR

A semana em Brasília começa tensa com a notícia não confirmada de que o ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, negocia uma delação premiada. Ainda há pouquíssimas informações sobre essa possível delação, divulgada por uma fonte, na sexta-feira (26), para a CNN Brasil. No mesmo dia, contudo, o jornal Valor Econômico, em sua versão on-line, desmentiu a informação, seguindo outra fonte que participa da investigação.

Verdade ou não, a notícia assustou os mercados e movimentou os bastidores de Brasília. Em um momento em que o presidente Jair Bolsonaro busca paz institucional, o assunto abalou o que parecia ser o início de um período menos turbulento na cena política.

Muitos clientes me perguntaram no fim de semana se uma eventual delação de Queiroz pode ser a bala de prata contra o governo. Difícil fazer previsões sem saber se a delação de fato existe e qual seu conteúdo.

O caso Queiroz aumenta a temperatura política, alimenta o noticiário negativo e gera maior dependência ainda do governo ao Congresso Nacional, mas não acredito que seja uma bala de prata contra o governo. Mas será um grande risco se Queiroz provar que houve ajuda por parte do presidente para que a Polícia Federal protegesse Flávio, o que confirmaria a versão do ex-ministro Sergio Moro.

Dito isso, o caso traz muito mais riscos para Flávio do que para o governo. Comprovações aumentarão a pressão a favor de um processo no Conselho de Ética do Senado Federal. Nesse caso, o presidente Jair Bolsonaro terá que se distanciar do filho e proteger o governo.

Acredito que teremos muitos ruídos sobre uma eventual delação, mas é preciso entender que os próximos passos são incertos e as dúvidas são enormes.

Primeiro, há mesmo uma delação? Segundo, ela será aceita?

Já tivemos inúmeras tratativas de delações premidas que não prosperaram, por inúmeros motivos. Foi assim com o ex-deputado Eduardo Cunha, por exemplo, em uma possível delação que nunca aconteceu e tinha tudo para ser explosiva. Para uma delação ser aceita, provas contundentes e inéditas precisam ser apresentadas e comprovadas, apontando linhas novas de investigação que envolvam nomes graúdos.

Terceiro, a delação envolverá o presidente? Se envolver apenas o senador Flávio Bolsonaro, teremos muito ruído e grande exposição negativa do governo na imprensa, mas não uma bala de prata. Longe disso.

Uma bala de prata necessita de uma tempestade perfeita para as três perguntas acima. A delação precisa ser confirmada, precisa ser aceita e precisa comprovar, por A + B, o envolvimento do presidente na história.

Ainda que não seja uma bala de prata, trata-se de mais um tema desconfortável para o presidente, que precisa, cada vez mais, de seus dois principais escudos: o apoio do Centrão e a popularidade estabilizada em torno de 30% de “ótimo/bom”.

Quanto mais essas duas variáveis perderem força, menos explosiva a bala de prata precisa ser para desestabilizar o governo. E quanto mais forte esses dois escudos estiverem, mais explosiva a bala de prata precisará ser para causar danos.

E como estão esses escudos? Apesar do noticiário amplamente negativo, a popularidade do presidente não foi afetada, conforme verificado nas pesquisas mais recentes.

O Datafolha (23 e 24/06) mostrou que a avaliação “ótimo/bom” do governo oscilou de 33% para 32% de maio para junho. A “regular” passou de 22% para 23%; e a “ruim/péssimo”, de 43% para 44%. Já no campo político, o Centrão tem respondido bem aos novos desafios e, mais importante ao Presidente, tem evitado críticas públicas aos últimos episódios negativos.

Apesar dos fios desencapados do governo, seja Queiroz, TSE ou STF, o sucesso ou fracasso do Presidente Jair Bolsonaro dependerá, no limite, dos escudos políticos e sociais. O lado social tem mostrado resiliência. A polarização tem aumentado, mas o apoio de um terço da população tem se mantido estável. Apopularidade dá confiança e tranquilidade ao escudo político no Congresso Nacional, que também clama por mais participação dentro do Poder Executivo. Enquanto os escudos funcionarem, o governo, com inteligência política, pode avançar. No entanto, os fios desencapados podem aumentar o preço do apoio e desgastar as proteções que hoje o governo tem. 

Queiroz pode não ser a bala de prata, mas os desafios são imensos e a medida que as dificuldades legais, políticas e econômicas aumentam, Bolsonaro precisará trabalhar em um ambiente de paz institucional.

Hoje, mais do que nunca, o governo precisa do seus 30% estáveis e da sua base aliada no Congresso organizada e coesa.

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