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Atritos no Centrão atrapalham reformas?

Existem outras motivações além da sucessão na Câmara para a saída de DEM e MDB do Centrão. Uma delas é a necessidade eleitoral de buscar uma maior independência em relação ao governo de Bolsonaro

Brasília
Imagem: Shutterstock

Ao longo da última semana, uma das perguntas que mais recebi de investidores nacionais e internacionais referia-se à saída do MDB e do DEM do bloco partidário liderado pelo deputado Arthur Lira (PP-AL). Afinal, com o racha no Centrão, as reformas econômicas estão em perigo? Aumentam os riscos para a manutenção do teto de gastos?

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O bloco comandado por Lira é amplo, composto de vários partidos. São eles: PL, PP, PSD, MDB, DEM, Solidariedade, PTB, PROS e Avante. Gerou muita preocupação no mercado que o rompimento pudesse significar uma sinalização contra as reformas do ministro Paulo Guedes. Não é bem assim.

Ainda que fizessem parte do bloco liderado por Lira, MDB e DEM se movimentavam de forma independente pelo Congresso Nacional. E o deputado pouco influenciava os votos de parlamentares dos dois partidos.

A formação do bloco é uma estratégia comum no Parlamento, tendo em vista o controle de comissões da Casa. Ademais, não há qualquer indicação do DEM ou do MDB de oposição à agenda de reformas em discussão na Câmara, embora haja resistência em questões pontuais, como a criação de um imposto sobre comércio eletrônico.

Ambos os partidos apoiaram, majoritariamente, a Reforma da Previdência, a MP da Liberdade Econômica, o Novo Marco do Saneamento e a Lei Geral de Telecomunicações (PLC nº 79), que são pautas reformistas.

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No entanto, a sucessão à presidência da Câmara já está em curso e essa disputa, sim, afeta o ritmo de votação no Legislativo. É um dos motivos pelos quais não tenho sido tão otimista quanto à aprovação este ano da Reforma Tributária. Arthur Lira, pré-candidato à sucessão, iniciou um movimento de aproximação com o governo. Em troca de votos do bloco a projetos de interesse do governo, queria o apoio do presidente Jair Bolsonaro na sucessão de Rodrigo Maia (DEM-RJ). Como líder de um bloco com 221 deputados – reduzido para 158 após a saída do DEM e MDB –, a aliança foi bem recebida pelo Planalto.

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O governo, no entanto, parece ter tomado a decisão correta de se distanciar da disputa. Claro, há preferência e apoio por Lira, mas sem fechar as portas para outros candidatos. A lição da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que explicitamente trabalhou contra a eleição do então deputado Eduardo Cunha (MDB), está viva na memória do governo.

Existem outras motivações além da sucessão na Câmara para a saída de DEM e MDB do Centrão. Uma delas é a necessidade eleitoral de buscar uma maior independência em relação ao governo de Bolsonaro. Nacionalmente conhecidos, e tendo como principal objetivo aumentar sua capilaridade política de Norte a Sul do país, MDB e DEM querem disputar as eleições municipais com maior independência.

Líderes de ambos os partidos afirmam nos bastidores que o tamanho e as diferenças regionais internas em ambas as siglas não permitem uma ligação, ainda que informal, ao governo. “Estamos no momento mais polarizado da política nacional. O partido precisa criar um ambiente de conforto para os que apoiam o presidente e também para os que criticam. Sair do bloco de Arthur Lira era necessário para solidificar essa percepção”, disse um importante membro do MDB.

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Esse núcleo de centro moderado em torno de Rodrigo Maia não deve constituir um bloco partidário formal, mas as legendas devem atuar alinhadas. Além do DEM e do MDB, o grupo agrega o PSDB, o Cidadania, o Podemos e o PV, somando 116 deputados. Tais partidos devem manter apoio às reformas econômicas, fiscais e regulatórias, porém com uma linha mais crítica. Também criarão um bloco de resistência às pautas conservadoras.

Nos bastidores, comenta-se a possibilidade de criação de um novo bloco, mais alinhado ao Palácio do Planalto, composto por PSL, PSC, PTB e PROS. Essas siglas possuem um perfil mais conservador e devem apoiar não só a agenda econômica, como também a de costumes. A despeito da ala divergente do PSL, a grande maioria das pautas governistas deverá contar com o aval desse grupo, que soma 84 deputados.

Se confirmada essa união, o antigo blocão será reconfigurado e cairá para 135 deputados, distribuídos entre PP, PL, PSD, Solidariedade e Avante. Embora não integrem formalmente o bloco, Republicanos e Patriota atuam em consonância com o Centrão, o que eleva o número para 174 deputados. Esse conjunto deve se manter alinhado ao Planalto, porém com um nível de dissidência na faixa de 30%. Por se tratar de um grupo muito diverso e pragmático, em determinadas votações o nível de divergência poderá ser mais acentuado.

Obviamente, todas as composições deverão contar com dissidências. Além disso, qualquer uma poderá receber o reforço dos oito deputados do Partido Novo, a depender da pauta em discussão.

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Na prática, a agenda de reformas econômicas do governo continua tendo boas chances de avançar. A saída do DEM e do MDB impacta mais a sucessão na Câmara e as estratégias eleitorais das siglas do que o andamento da agenda.

A falta de uma base política formal, coesa e organizada é o que impede o avanço consistente de inúmeras pautas. No entanto, ainda vejo o Congresso com viés reformista, embora não na intensidade e na velocidade que o mercado deseja.

A política de dentro para fora anda polarizada e binária. Tal comportamento não se reflete dentro do Parlamento. Em Brasília, no dia a dia, de fora para dentro, nada é binário. Tudo é negociado.

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