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2020-05-07T18:20:31-03:00
Victor Aguiar
Victor Aguiar
Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa e UBS Escola de Negócios. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência CMA, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico.
Mais um recorde

R$ 5,84: com os juros cada vez mais baixos, o dólar subiu forte e chegou a níveis inéditos

O dólar à vista rompeu o nível de R$ 5,80 pela primeira vez, com os investidores ajustando-se à perspectiva de continuidade no ciclo de cortes na Selic

7 de maio de 2020
18:20
Dólar subindo
Imagem: Shutterstock

O Copom surpreendeu duplamente o mercado na noite de quarta-feira (7): cortou a Selic de maneira mais agressiva que o esperado e sinalizou que o ciclo de baixas na taxa básica de juros ainda não acabou. Dito isso, pode-se afirmar tudo sobre a nova disparada do dólar à vista, menos que ela foi surpreendente.

A moeda americana já vinha de uma sequência de quatro fortes altas, o que não inibiu uma quinta valorização consecutiva nesta quinta-feira (7). Pelo contrário: o salto de hoje foi ainda mais intenso que o visto nas últimas sessões.

No momento de maior pressão, a divisa chegou a ser negociada a R$ 5,8768 (+3,06%). Ao fim do dia, os ganhos foram ligeiramente menores: "apenas" 2,43% de alta, a R$ 5,8409 — um novo recorde de fechamento em termos nominais para o dólar à vista.

  • Eu gravei um vídeo para explicar um pouco da dinâmica por trás da escalada do dólar nesta quinta-feira. Veja abaixo:

Com a nova rodada de ganhos desta quinta-feira, a moeda americana já acumula valorização de 7,40% apenas nesta semana — desde o início de 2020, os ganhos já chegam a 45,59%.

O comportamento do mercado doméstico de câmbio chama ainda mais a atenção porque, no exterior, a sessão de hoje foi marcada pelo enfraquecimento do dólar em relação às divisas de países emergentes. Moedas como o peso mexicano, o rublo russo e o peso chileno se valorizaram hoje — o real foi o ativo que destoou do grupo.

Mas, novamente: não há grandes surpresas. Afinal, considerando as perspectivas de juros cada vez mais baixos no país, é quase natural que o dólar à vista tenha se valorizado com intensidade — e, para completar o quadro de pressão cambial, ainda temos um ambiente político doméstico bastante conturbado.

Juro para baixo, dólar para cima

Boa parte dessa nova onda de estresse no câmbio se deve às surpresas do mercado com a decisão de juros do Banco Central (BC). A autoridade monetária cortou a Selic em 0,75 ponto, ao nível de 3% ao ano — a maioria dos investidores apostava numa redução mais branda, de 0,50 ponto.

Mas essa não foi a única novidade: no comunicado, o Copom deixou claro que poderá promover mais um corte de até 0,75 ponto na próxima reunião, o que levaria a taxa básica de juros a 2,25% ao ano — e, considerando a baixa inflação e a contração no PIB por causa do coronavírus, esse passou a ser o cenário-base de muitos analistas.

Essa disposição indicada pelo Banco Central, dando a entender que não vê problemas numa Selic cada vez mais baixa mostrando-se despreocupado com eventuais pressões da alta do dólar sobre a inflação, contribui para dar ainda mais força a escalada da moeda americana ante o real.

Em linhas gerais, cortes na Selic acabam reduzindo o chamado diferencial de juros entre o Brasil e os Estados Unidos — a subtração entre os juros dos dois países. Com a baixa de ontem, esse gap ficou ainda menor.

Isso mexe com o câmbio porque, quanto menor o diferencial, menor é o apelo do Brasil para os investidores que buscam apenas a rentabilidade fácil dos juros. Claro, trata-se de um capital especulativo e que pouco contribui para o desenvolvimento econômico.

Ainda assim, a ausência desse tipo de agente financeiro diminui a entrada de dólares no país, pressionando o câmbio.

Risco político

Além disso, o clima no Brasil ainda é de cautela e apreensão. Por aqui, os investidores seguem atentos ao cenário político: ontem, a Câmara aprovou o pacote de auxílio financeiro emergencial a Estados e municípios, não cedendo às contrapartidas solicitadas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

Assim, as movimentações do governo e do Congresso continuaram sendo monitoradas de perto, considerando a forte deterioração nas relações entre as partes — e a percepção de que uma bomba pode explodir a qualquer momento contribuiu para estressar os investidores.

Isso ajuda a explicar o tom instável assumido pelo Ibovespa nesta quinta-feira: o índice oscilou entre os 78.061,44 pontos (-1,27%) e os 80.061,19 pontos (+1,26%), fechando o dia em baixa de 1,20%, aos 78.118,57 pontos — somente nesta semana, acumula perda de 2,97%.

Exterior tranquilo

O desempenho do Ibovespa só não foi pior porque, lá fora, o dia foi positivo nas bolsas: na Europa, as principais praças avançaram mais de 1% nesta quinta-feira, tom semelhante ao visto nos EUA, com o Dow Jones (+0,89%), o S&P 500 (+1,15%) e o Nasdaq (+1,41%) também subindo.

Esse bom humor externo se deve, em grande parte, aos dados mais fortes da balança comercial chinesa: as exportações subiram 3,5% em abril, enquanto as importações recuaram 14,2% — ambos os resultados superaram as expectativas dos analistas.

Os números vindos da China aumentam a esperança de que a retomada econômica na Europa e nos EUA após a fase mais crítica do surto de coronavírus poderá ocorrer de maneira mais intensa que o inicialmente planejado — vale lembrar que, no país asiático, o pico dos casos ocorreu em janeiro e fevereiro.

O otimismo em relação às perspectivas de retomada da atividade se sobrepõe aos dados mais preocupantes vistos nos Estados Unidos, onde os dados de desemprego continuam crescendo. E mesmo os recentes atritos entre os governos americano e chinês não trazem maiores preocupações aos investidores.

E os juros?

Após o corte mais agressivo da Selic e as indicações de que o ciclo de ajustes negativos tende a continuar, o mercado de juros futuros fechou em queda na ponta curta, ajustando-se às sinalizações emitidas ontem:

  • Janeiro/2021: de 2,74% para 2,54%;
  • Janeiro/2022: de 3,53% para 3,34%;
  • Janeiro/2023: de 4,66% para 4,57%.

Balanços e dólar

No front corporativo, os investidores reagiram de maneira contida ao balanço do Banco do Brasil no primeiro trimestre deste ano: a instituição fez provisões de R$ 2 bilhões para se preparar para o impacto do coronavírus e, como resultado, fechou o período com queda de 20% no lucro, para R$ 3,39 bilhões — os papéis ON (BBAS3) tiveram baixa de 2,70%.

Ainda no lado dos resultados trimestrais, Ambev ON (ABEV3) caiu 2,45%, Totvs ON (TOTS3) teve baixa de 7,52% e NotreDame Intermédica ON (GNDI3) avançou 4,11% — veja aqui o resumo dos balanços das três empresas.

Em termos de desempenho no Ibovespa, destaque para as exportadoras Suzano ON (SUZB3) e Klabin units (KLBN11), com ganhos de 7,50% e 10,93%, nesta ordem — empresas que vendem ao exterior se beneficiam com o nível mais elevado do dólar.

Veja abaixo as cinco ações de melhor desempenho do Ibovespa nesta quinta-feira:

CÓDIGONOMEPREÇO (R$)VARIAÇÃO
KLBN11Klabin units20,61+10,93%
SUZB3Suzano ON45,01+7,50%
MRFG3Marfrig ON13,62+7,33%
BEEF3Minerva ON13,82+7,30%
GGBR4Gerdau PN12,45+6,96%

Confira também as maiores quedas do índice:

CÓDIGONOMEPREÇO (R$)VARIAÇÃO
RENT3Localiza ON29,77-8,40%
TOTS3Totvs ON18,21-7,52%
AZUL4Azul PN13,66-7,52%
IGTA3Iguatemi ON27,66-7,46%
CCRO3CCR ON11,42-7,08%
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