Calcule muito bem os riscos — não deixe o amor te levar para o buraco!
Em 2017 e 2018, os saques no FGTS e PIS/Pasep injetaram cerca de 60 bilhões de reais na economia. Os brasileiros utilizaram os recursos para pagar dívidas e para adquirir bens de consumo

Era amor. Se o sentimento fosse outro, a loucura seria menor. Até hoje, juro para você, acredito que era amor. A vida ia bem. Emprego novo, dinheirinho na bolsa (aquela a tiracolo, não a da rua XV de Novembro), filhos saudáveis, “apê” em Pinheiros, bairro paulistano reduto de publicitários descolados e gente bonita. Era assim naquela época. A passagem dos anos 1970 para os 1980 tinha tudo para dar certo. Os ares de um novo tempo na política sopravam. Se, em casa, as águas estavam tranquilas, na economia nem se fala. O crédito batia na porta, o gerente era “o cara”.
Agosto corria no calendário, aniversário chegando...
Não era o meu, não! Eu sou de novembro. O meu marido era o aniversariante. Um rapaz cheio de virtudes e alguns defeitos. Um deles era não dirigir, acredite. Mas o trabalho, longe de casa, me deu uma grande ideia! Escolhi a moto e o capacete. Financiada em “500 prestações”, valeu dias de alegria contagiante... eu só não sabia (ainda) que o meu marido amava mais o cigarro do que a velocidade. Desesperado por um Marlboro, estacionou em frente a um boteco e, do caixa, viu a moto ser levada na Kombi que passava.
Lá em casa foram dias de silêncio e cara amarrada. Mas fomos em frente. Sem mimimi. Ele a pé. Eu com o carnê do financiamento. A moto não tinha seguro...
Impossível não recordar o meu entusiasmo com o crédito fácil ao saber que o governo Bolsonaro poderá liberar dinheiro do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e do PIS/Pasep para estimular o consumo.
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Logo pensei: lá vem mais do mesmo! Será que vai dar certo?
Acredito que você, assim como eu, se lembra que há apenas três anos, em 2016, o governo Temer decidiu liberar contas inativas do FGTS e do PIS/Pasep com o mesmo objetivo: promover o consumo na tentativa de dar um “Olé!” na recessão. Hoje o Brasil não está em recessão, mas sem a reforma da Previdência a economia continuará avançando em ritmo lento. E, nessa batida, um dia para.
Desculpa esfarrapada
Em 2017 e 2018, os saques no FGTS e PIS/Pasep injetaram cerca de 60 bilhões de reais na economia. Os brasileiros utilizaram os recursos para pagar dívidas e para adquirir bens de consumo. Você foi beneficiado por essas medidas? Espero que sim. Eu fui! Mas não sei se fiz a coisa certa. Se fiz, foi pela metade.
Saquei o dinheiro da minha conta inativa do FGTS e quitei uma dívida que nem estava atrasada. Até aí, tudo certo. Me livrei de um abacaxi porque consegui um bom desconto do banco credor pela antecipação do pagamento. Mas sei que comi bola ao aplicar a outra parte do dinheiro na caderneta de poupança. Tenho até vergonha de contar, agora que trabalho na Empiricus...
Para os meus colegas tenho uma desculpa na manga... sei que é esfarrapada. Posso dizer que estou aqui há menos de três meses e, até então, não estava atenta às alternativas de investimento que poderiam fazer render um pouco mais o meu dinheiro, mesmo não sendo um montão.
Para evitar um “carão”, não perguntei nada para ninguém. Entrei no site da Empiricus e decidi seguir o caminho das pedras. É isso que eu quero dividir com você, que pode ficar numa situação parecida à minha, principalmente se receber um dinheiro inesperado.
Antes de trabalhar aqui eu já sabia, há um tempão, que a Empiricus não iria investir o meu dinheiro porque ela é uma publicadora de conteúdos financeiros. Não é banco. Então passei a consultar o “Kit Básico do Assinante”, que vejo como um beabá das aplicações financeiras.
Se de um lado, uma eventual liberação de contas do FGTS e PIS/Pasep pode dar uma força no orçamento doméstico, de outro, não é certo que ajudará a colocar a economia em marcha por muito tempo. Cabe ao governo tentar. Até porque o dinheiro depositado nesses fundos é do trabalhador. O governo é o gestor desse dinheiro.
Em 2017 a transferência de recursos tirou a economia do chão. Naquele ano, o consumo das famílias avançou após vários trimestres seguidos em terreno negativo. O Produto Interno Bruto (PIB) avançou 1,1 por cento — um resultado alentador após as quedas de 3,3 por cento em 2016 e 3,5 por cento em 2015.
É cedo para dar 2019 como perdido
Em 2018, esses saques excepcionais no FGTS e no PIS/Pasep tiveram seus efeitos contidos. No ano passado, a economia brasileira avançou outro 1,1 por cento. E, mostram as projeções mais recentes de economistas do mercado, neste 2019 a expansão pode ser até menor, de apenas 1 por cento.
Apesar de o “Joesley Day” — em maio de 2017 — ter comprometido expectativas mais favoráveis para a economia, o salário mínimo foi reajustado por um índice de inflação elevado, superior à meta de inflação. Em 2016, a inflação subiu mais de 6 por cento e beneficiou o mínimo de 2017. Em 2018 não foi bem assim.
No ano passado, o reajuste do salário mínimo pegou a inflação em mínimas históricas, inferior a 3 por cento. Para complicar, a greve dos caminhoneiros — em maio de 2018 — promoveu um choque de preços que acabou combinado a um dólar mais forte, o que resultou em uma mudança de patamar da inflação.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que em 12 meses até maio de 2018 era de 2,86 por cento, alcançou 4,39 por cento em junho, seguiu acima de 4 por cento até dezembro e enfraqueceu. Em abril deste ano, porém, a inflação já colou em 5 por cento.
Estamos novamente em maio... A disputa comercial entre EUA e China, os atritos entre o governo e o Congresso e também contra o Judiciário e a demora na votação da reforma da Previdência sugerem que a bruxa está solta. Mas (ufa!) vencemos a primeira quinzena do mês e nada de espantoso (e irreversível) aconteceu para que 2019 seja dado como vencido.
Pode vir a acontecer, mas ainda é cedo.
Na semana passada, durante seminário no BNDES, o ministro Paulo Guedes (Economia) explicou com vários exemplos a razão de estar no governo. “Precisamos encarar a verdade (...) ou fazemos um exame de consciência ou também estaremos errados ...”, disse ele referindo-se a políticas adotadas pelos governos anteriores. “Não importa o que digam do Brasil. O Brasil é tolerante, o Brasil é diverso. Tenho convicção de que o Brasil é uma sociedade aberta (...). Quando tudo parece dar errado, os brasileiros dão um jeito.”
O ministro está certo.
Mercados
O mercado sofreu grande estresse nos últimos dias em função do agravamento das relações comerciais entre EUA e China. Ontem, os ânimos serenaram com Donald Trump mostrando confiança em um acordo satisfatório dentro de algumas semanas. Nesta manhã, Bolsas positivas em quase toda a Ásia e na Europa.
Por aqui, a cena política promete. O senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) volta ao foco. O Ministério Público do Rio identificou no gabinete de Flávio (quando deputado na Assembleia Legislativa fluminense) indícios de uma organização criminosa. Ontem, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), apoiou o governo ao declarar que a reforma da Previdência deverá ser aprovada no primeiro semestre ou no início do segundo. E saiu bem na fita. Direto de Nova York. A declaração ajudou a arrefecer o dólar, que chegou a superar 4 reais. O Ibovespa desacelerou as perdas. Nesta manhã, o Ibovespa Futuro abre em alta, o dólar em estabilidade e os juros também.
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