O que tirou votos de Flávio Bolsonaro e colocou Lula na Presidência, segundo especialista
Especialista em opinião pública aponta como o medo de uma mudança para pior e o comportamento de aliados da direita influenciaram a percepção dos eleitores indecisos

A rejeição ao estilo de integrantes da direita, o receio de um retorno a aspectos do governo Jair Bolsonaro e as discussões políticas dentro de casa ajudam a explicar o resultado da eleição presidencial de 2026.
Essa é a avaliação de Eduardo Sincofsky, especialista em opinião pública e fundador da Nox, que identificou sinais de resistência ao senador Flávio Bolsonaro (PL) em pesquisas qualitativas realizadas durante a campanha.
Em participação na live do Market Makers sobre a apuração do segundo turno, neste domingo (25), Sincofsky afirmou que as conversas com eleitores indecisos revelavam preocupações que nem sempre apareciam com a mesma rapidez nas pesquisas quantitativas.
Com 99,90% das urnas apuradas, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tinha 51,77% dos votos válidos, contra 48,23% de Flávio. Segundo o especialista, parte dos eleitores que definiu o voto na reta final demonstrava desconforto com declarações do candidato do PL e dúvidas sobre o que uma eventual mudança de governo poderia representar.
“Eu venho pesquisando os indecisos. O país está dividido em três terços: um terço que vota sempre no PT, um terço que vota sempre contra o PT e um terço que flutua”, afirmou Sincofsky.
A análise se baseia em pesquisas qualitativas realizadas desde janeiro de 2025, com grupos de 30 a 40 pessoas por rodada. O especialista ressalvou que a amostra é pequena, mas disse que as entrevistas ajudaram a identificar mudanças de percepção entre eleitores que ainda avaliavam as candidaturas.
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1. Flávio enfrentou resistência entre os indecisos
Na avaliação de Sincofsky, Flávio Bolsonaro precisou construir uma identidade política própria para além do antipetismo. No início da campanha, o senador dependia principalmente da rejeição ao PT. Mais adiante, tentou se diferenciar do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, com atributos como a juventude e um perfil que parte do eleitorado poderia considerar mais moderado.
Ainda assim, declarações feitas durante a campanha provocaram dúvidas entre eleitores que poderiam definir a disputa. Sincofsky destacou o desconforto de parte dos entrevistados com questões relacionadas à Constituição e ao divórcio, temas que vieram à tona durante os debates eleitorais.
“Esse coletivo dos eleitores da última hora ficou bastante incomodado com a questão da Constituição e com a questão do divórcio que ele trouxe no debate”, afirmou.
O especialista disse que percebeu sinais de mudança nas conversas antes da divulgação do resultado, embora não pudesse afirmar que os levantamentos tradicionais necessariamente deixariam de captar esses movimentos.
“Me parecia que estava se formando alguma coisa que as pesquisas não estavam conseguindo captar. Posso estar enganado, lógico”, declarou.
2. O medo de uma mudança para pior favoreceu Lula
Outro fator apontado por Sincofsky foi a dificuldade de Flávio convencer parte do eleitorado de que sua vitória representaria uma melhora em relação à situação atual.
Segundo o especialista, as conversas com os entrevistados mostravam que a escolha não se limitava à aprovação ou à rejeição de um candidato.
Os eleitores também ponderavam os riscos associados a uma eventual troca de governo, inclusive a possibilidade de retomar características da gestão de Jair Bolsonaro.
Nesse cenário, Lula conseguiu reforçar uma mensagem centrada na defesa dos grupos de menor renda e na continuidade de sua plataforma política. Para Sincofsky, essa narrativa ajudou a convencer parte dos eleitores de que a mudança poderia trazer consequências negativas.
“O PT conseguiu sair por cima e achou uma narrativa muito importante: a questão de defender os menos favorecidos e continuar com sua plataforma tradicional. Conseguiu convencer parte das pessoas de que a mudança poderia ser para pior com Flávio”, afirmou.
3. A disputa também aconteceu dentro de casa
As conversas entre familiares e casais com preferências políticas diferentes apareceram com frequência nas pesquisas qualitativas, segundo Sincofsky.
O especialista relatou que homens e mulheres tentavam convencer seus parceiros a votar em determinado candidato. Nessas discussões, temas como educação, identificação social e expectativas econômicas ganhavam espaço.
Um dos exemplos citados foi o de uma entrevistada cujo marido estudava na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela demonstrava preocupação com a possibilidade de um governo Flávio Bolsonaro reduzir recursos destinados à educação.
Para Sincofsky, esse tipo de diálogo pode ajudar a explicar como dúvidas sobre as propostas e os possíveis efeitos de uma mudança de governo se espalharam para além dos ambientes de militância política.
“Me parecia que algumas discussões estavam sendo cozinhadas dentro dos lares e que, de algum modo, iam abalando a credibilidade do Flávio”, disse.
4. O tom de Nikolas Ferreira e de outros nomes da direita gerou incômodo
O estilo de comunicação de integrantes da direita também apareceu na análise do especialista. Sincofsky citou vídeos e declarações provocativas associados ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e a outros nomes do campo conservador.
Segundo ele, parte dos eleitores demonstrava desconforto com o tom adotado, mesmo quando concordava com determinadas pautas defendidas por esses políticos.
“Esse deboche do Nikolas representava um Brasil que as pessoas não querem”, afirmou.
Na avaliação do especialista, apoiar um candidato conservador para o Legislativo não significa necessariamente escolher um nome do mesmo campo para a Presidência. A decisão depende também da identificação com o perfil do candidato e da maneira como ele se apresenta ao eleitor.
“O eleitor pode votar no Nikolas e não acreditar que o Bolsonaro ou Flávio sejam a escolha para presidente. Ou pode entender que aquilo já passou do ponto”, explicou.
5. O voto não segue uma única orientação política
A análise de Sincofsky também aponta para os limites de interpretar o eleitorado a partir de divisões rígidas entre direita e esquerda.
Um eleitor pode apoiar candidatos conservadores em determinadas disputas e escolher outra alternativa para a Presidência. Da mesma forma, a rejeição a um candidato não significa, necessariamente, adesão integral ao adversário.
Por isso, o especialista defende que as pesquisas considerem não apenas a intenção de voto, mas também as conversas que ocorrem fora das redes sociais e dos grupos politicamente engajados.
“Meu trabalho não é só saber o que as pessoas pensam, mas entender que conversas estão acontecendo e onde elas acontecem”, afirmou.
Sincofsky também citou as manifestações e mobilizações do campo progressista como possíveis elementos de percepção de engajamento durante a campanha.
Os relatos ajudam a compreender os fatores que, segundo o especialista, influenciaram parte dos eleitores. Como as pesquisas qualitativas ouviram grupos pequenos, porém, elas não permitem determinar isoladamente quanto cada fator pesou no resultado final da eleição.
*Com informações do Money Times
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