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Estadão Conteúdo

Ministro da economia

Em entrevista ao FT, Guedes promete fazer grandes reformas, manter gastos sociais e acabar com privilégios

Guedes foi descrito pelo veículo britânico como o segundo homem mais poderoso do governo brasileiro, ao reunir cinco ministérios

Estadão Conteúdo
11 de fevereiro de 2019
14:17 - atualizado às 14:12
Ministro da economia, Paulo Guedes - Imagem: Sérgio Castro/Estadão Conteúdo

O ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes, prometeu encerrar anos de fracassadas intervenções do Estado, por meio de grandes reformas de livre mercado, no governo do presidente Jair Bolsonaro.

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Ele concedeu uma "ampla entrevista" ao jornal de economia britânico Financial Times, em seu escritório em Brasília, para falar sobre o que pretende fazer para impulsionar a maior economia da América Latina. Mereceu, inclusive, chamada no alta da capa do periódico.

O diário descreve Guedes como um ex-administrador de fundos que foi escolhido pelo presidente de direita para reacender a economia brasileira após a pior recessão de sua história. Ao periódico, disse que a reforma da Previdência economizaria R$ 1 trilhão em 10 anos e que deverá ser aprovada "dentro de cinco meses".

As mudanças nas regras de aposentadoria brasileira, sempre descritas como "generosas" pelo veículo britânico, seriam seguidas rapidamente, de acordo com o ministro, por uma reforma tributária e por um programa radical de privatização em que não haverá vacas sagradas.

"Estamos indo em direção a uma economia voltada para o mercado", disse o economista e professor de Matemática formado na Universidade de Chicago.

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"É parte de um processo econômico de melhoria. Qualquer um que não possa ver isso está interpretando mal o Brasil".

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A vitória eleitoral de Bolsonaro, um ex-capitão do Exército que admira o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e elogiou a ditadura militar do Brasil, foi amplamente vista como parte da mudança global para o nacionalismo de direita e uma ameaça à democracia brasileira. Guedes insistiu que isso era uma má avaliação.

"É o contrário. Essa foi a minha mensagem em Davos", disse ele. "O Brasil é uma democracia vibrante. A eleição de Bolsonaro mostrou isso", continuou.

Os desafios enfrentados pelo ministro incluem, segundo o FT, grande déficit fiscal, aumento da dívida pública, desemprego quase recorde que deixou cerca de 12 milhões de pessoas sem trabalho, baixa produtividade e uma recuperação econômica anêmica. No entanto, também pontuou o jornal, as contas externas estão amplamente equilibradas e as reservas externas estão em US$ 377 bilhões.

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O Financial Times recordou que a recessão e os escândalos de corrupção criaram o pano de fundo para uma eleição em que quase 60 milhões de brasileiros votaram em Bolsonaro, que promoveu os valores da família cristã, da anticorrupção e uma plataforma de lei e ordem de extrema-direita que repercutiu amplamente com um recorde de 64 mil homicídios em 2017.

O recrutamento de Guedes como conselheiro econômico, continua o texto, marcou um ponto de inflexão na campanha, uma vez que trouxe investidores, grupos empresariais e empreendedores anteriormente céticos.

"As pessoas me perguntaram: como um liberal pode se juntar aos conservadores? Eles só trarão desordem. Mas a desordem já está aqui: mais pessoas estão morrendo a cada ano do que os soldados americanos no Vietnã", argumentou ele. "O presidente trará 'ordem', os liberais 'o progresso'", disse ele, referindo-se ao lema da bandeira do Brasil, "Ordem e Progresso".

Par estranho

Guedes e Bolsonaro formam um par estranho, de acordo com o FT. O primeiro foi descrito como um day-trader ocasional, que fundou o que mais tarde se tornou o maior banco de investimentos do País, o BTG Pactual. Bolsonaro era um deputado "de bancada" com um histórico de votar contra políticas econômicas liberais e em favor do nacionalismo corporativista que Guedes planeja encerrar.

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No entanto, Guedes disse que eles compartilhavam uma visão comum de renovar o País e libertar seus jovens do "fardo socialista" do Partido dos Trabalhadores (PT), que governou o Brasil a maior parte deste século. Embora tenha tirado milhões da pobreza, o maior escândalo de corrupção do País e a pior recessão provocaram a ira dos eleitores contra o PT. "A ordem econômica socialista está em desordem", disse Guedes. "Vamos manter os gastos sociais, mas acabar com corrupção, privilégios e benefícios", afirmou. "As pensões são uma máquina de transferências de renda regressivas e perversas."

Guedes também disse que o pacote total de mudanças nas aposentadorias traria uma economia de R$ 700 milhões a R$ 1,3 trilhão e seria submetido ao Congresso "assim que o presidente se levantar da cama". Bolsonaro está no hospital após a cirurgia para a remoção de uma bolsa de colostomia usada após ser esfaqueado durante a campanha, no ano passado.

Cabeças 'fracas'

Na versão online da entrevista feita com o ministro da Economia brasileiro, Paulo Guedes, o Financial Times relata que ele toca um dedo em sua têmpora. "As pessoas da esquerda têm cabeças 'fracas' e bom coração", diz ele. "As pessoas da direita têm cabeças fortes e..." Ele procura a frase correta. "Corações não tão bons."

O site do jornal salienta que este é um momento de candura para o "superministro da economia" do Brasil, já que o presidente para quem ele trabalha é um ex-capitão do exército de direita visto internacionalmente como um "protofascista" com predileção pela ditadura militar.

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Também é um indicativo, de acordo com a reportagem, da amplitude dos pontos de vista de Guedes e sua crença de que Bolsonaro não é o bicho-papão extremista como frequentemente é visto no exterior. "Estamos criando uma sociedade popperiana aberta", diz, citando uma das várias vezes em que se lembra do filósofo austríaco Karl Popper - que defendeu a democracia liberal dinâmica. "Se Bolsonaro é duro em suas maneiras, é apenas uma aparência. Ele será duro com os bandidos", acrescentou.

Popper também é um herói de George Soros, o filantropo liberal odiado por alguns dos etno-nacionalistas no séquito de Bolsonaro. "A ideologia é o verdadeiro inimigo", diz ele. "Eu sou apenas um cientista fazendo o meu trabalho."

Guedes foi descrito pelo veículo britânico em sua versão online como, sem dúvida, o segundo homem mais poderoso do governo brasileiro, ao reunir cinco ministérios - Finanças, Comércio, Trabalho, Indústria e Desenvolvimento - em seu portfólio. Ele é certamente o mais ativo.

Enquanto Bolsonaro se recupera de uma cirurgia, o novo governo tem sido perseguido por disputas: mais recentemente, o ministro conservador Ernesto Araújo buscou uma linha mais dura contra a Venezuela ante uma abordagem militar mais cautelosa apoiada pelo vice-presidente, general Hamilton Mourão. Em contrapartida, a equipe de economia de Guedes acertou com propostas de reformas ambiciosas. "O Brasil é a oitava maior economia do mundo, mas o 130º em grau de abertura, perto do Sudão. Ele também está classificado em 128º em termos de facilidade de fazer negócios. Quero dizer...Jesus Cristo! ", diz, saltando de sua cadeira.

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O FT salienta que Guedes, bronzeado, intenso em sua conversa e com os gestos expressivos típicos dos habitantes do Rio de Janeiro, diz que quer cortar esses rankings pela metade em apenas quatro anos, reduzindo gastos, revisando o código tributário "bizantino" do Brasil, cortando a burocracia e privatizando ativos do Estado.

Nascido em uma família de classe média baixa, Guedes se instruiu por meio de bolsas de estudo e ganhou um doutorado em economia na Universidade de Chicago. Mais tarde, ele trabalhou no Chile durante a ditadura de Pinochet, deixando Santiago com sua esposa somente depois que ele encontrou a polícia secreta fazendo buscas em seu apartamento.

"Eu vi o Chile mais pobre que Cuba e a Venezuela hoje, e os garotos de Chicago consertaram isso. O Chile é agora como a Suíça ", diz ele, descartando os custos sociais, como a taxa de desemprego de 21% em 1983. "Isso é besteira ", diz ele. "O desemprego já estava lá. Foi apenas escondido dentro de uma economia destruída". É uma visão contenciosa, conforme o veículo britânico.

Quando voltou ao Brasil, tornou-se administrador de fundos, operador ocasional e colunista prolífico de jornais. Ele diz que conheceu Bolsonaro "exatamente um ano e um mês atrás" e, depois de evitar várias ofertas de emprego do governo, usa o jargão do trader para justificar sua escolha agora. "Passei toda a minha vida gerando [desempenho superior do mercado] alfa e vendo os sucessivos governos destruírem o beta", diz ele. "Agora quero melhorar o beta do Brasil."

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Depois de 20 anos de ditadura e 30 anos de social-democracia, o balanço do Brasil para a direita é saudável, diz ele. "Quando os liberais vêm, são boas notícias, não más notícias." Ainda assim, dúvidas permanecem, segundo o jornal britânico: e quanto à política social, dada a desigualdade do Brasil? E a sua mágica de livre mercado é compatível com o liberalismo político, dada a força aparentemente autoritária de Bolsonaro?

Glasnost e Perestroika

"Certamente, Rússia e Brasil tiveram glasnost antes da perestroika", diz ele, referindo-se às políticas de abertura e liberalização política e econômica. "Você precisa ter os dois. Então você tem crescimento e uma classe média que traz estabilidade". O caminho alternativo adotado pelo Brasil leva a um Estado rentista caracterizado pela corrupção.

"Nós éramos uma democracia de uma só perna", diz ele. "O sistema está corrompido. Quero dizer, por que Lula, o político mais popular do Brasil, só conseguiu 13 anos por acusações de corrupção?" Ele aponta para uma televisão, onde um programa de notícias acaba de divulgar o último julgamento contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado a mais de 12 anos de prisão.

Críticos dizem que a punição foi o resultado de um Judiciário politicamente manipulado que queria proibir o líder de esquerda da corrida eleitoral, abrindo assim o caminho para a vitória de Bolsonaro. Em vez disso, Guedes sugere que foi o sistema patronal do Brasil que o enlaçou. A receita para corrigir isso é "uma economia voltada para o mercado, em vez da fracassada economia que corrompeu a ordem política".

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Poucos brasileiros discordariam desse diagnóstico, conforme o FT, dada a forma como o País ainda sofre as consequências de sua mais profunda recessão e do maior escândalo de corrupção. Sua visão econômica é mais Ronald Reagan do que Donald Trump, e ele parece realista sobre suas restrições políticas, diz o FT. "O presidente [sempre pode dizer] não, eu tenho os votos."

Como um economista teórico que aponta para as estrelas, ele parece contente em alcançar a lua e admite que será uma viagem turbulenta. "Sim, a economia vai crescer mais rápido. Mas não podemos ser ingênuos. Há muito dano para consertar."

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