Com os ventos favoráveis da Previdência, o Ibovespa voou alto e bateu novos recordes
O Ibovespa seguiu em alta e alcançou níveis inéditos, amparado pelo otimismo em relação à reforma da Previdência. O dólar à vista também teve um dia de alívio e recuou para R$ 4,07

Os ventos do mercado financeiro andavam pouco convidativos para um voo de asa delta. Não é que as correntes de ar fossem totalmente contrárias — o cenário era de imprevisibilidade, com mudanças súbitas na direção dos sopros. Nesse panorama, o Ibovespa não arriscava voos mais altos.
A previsão do tempo, no entanto, mudou nas últimas semanas. As rajadas violentas e multidirecionais deram lugar a uma brisa constante, sempre num sentido favorável à decolagem. E, nesta terça-feira (22), não foi diferente: o vento estava tão adequado que o índice brasileiro arriscou uma altura inédita.
O Ibovespa já havia atingido um novo recorde na sessão passada, terminando pela primeira vez acima dos 106 mil pontos. Hoje, ele foi além: fechou em alta de 1,28%, aos 107.381,11 pontos, renovando a máxima — no melhor momento do dia, tocou os 107.420,73 pontos (+1,32%).
Essa mudança nos ares se deve a uma série de desenvolvimentos positivos na atmosfera dos mercados. O tornado da guerra comercial entre EUA e China perdeu boa parte de sua intensidade, com as partes mostrando-se mais propensas ao diálogo.
E, por aqui, o avanço das pautas econômicas do governo, somado à perspectiva de juros cada vez mais baixos — os indicadores econômicos do Brasil ainda mostram uma certa fraqueza no nível de atividade local — também contribuiu para diminuir o vendaval e criar um ambiente mais controlado para o voo.
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E o front doméstico foi o responsável por soprar a brisa que levou o Ibovespa às alturas — mais especificamente, a reforma da Previdência. Desde o início do dia, os agentes financeiros mostraram-se animados quanto à possibilidade de votação do texto pelo plenário do Senado, em segundo turno, ocorrer ainda hoje, concluindo a tramitação no Congresso.
Os olhos dos agentes financeiros estiveram voltados para Brasília: durante a manhã, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado deu sinal verde para o texto aprovado no primeiro turno no Senado, abrindo caminho para que a matéria seja votada em segundo turno ainda hoje.
E a expectativa do mercado é a de que as novas regras da aposentadoria sejam aprovadas no plenário da Casa ainda nesta terça-feira — o que permitiria a promulgação pelo Congresso em sequência. Com esse cenário otimista em mente, o Ibovespa manteve-se no campo positivo durante quase todo o pregão.
A finalização do trâmite da Previdência é aguardada pelos mercados por dois motivos: por um lado, há o fechamento desse capítulo e a formalização do montante a ser economizado com as novas regras; por outro, abre-se caminho para que outras pautas defendidas pelo governo — como as reformas administrativa e tributária — sejam discutidas.
"De certa forma, o mercado já espera, já dá como precificada a aprovação. Agora, temos que ver se a votação ainda terá algum destaque ou se termina hoje", diz Vitor Beyruti, economista da Guide Investimentos, lembrando que a PEC paralela que trata da inclusão de Estados e municípios também precisa ser aprovada no futuro.
Alívio e tensão no exterior
Lá fora, as discussões comerciais entre Estados Unidos e China seguiram no centro das atenções — autoridades dos dois países têm adotado um discurso mais conciliador, sinalizando que as negociações estão avançando.
"Lá fora, o mercado mostra uma dinâmica mais favorável desde ontem, com EUA e China mostrando um entendimento melhor", afirma Beyruti. "Além disso, os balanços corporativos nos Estados Unidos têm surpreendido e vindo acima do esperado".
No meio da tarde, contudo, o noticiário vindo da Europa trouxe algum desconforto aos mercados. O parlamento do Reino Unido deu sinal verde para o projeto de lei do Brexit seguir tramitando na casa, mas rejeitou o pedido do primeiro-ministro, Boris Johnson, para que o processo seja acelerado — a meta era concluir toda a discussão até o dia 31.
Com isso, cabe à União Europeia decidir se irá conceder uma extensão de prazo ao Reino Unido — situação que trouxe insegurança aos mercados internacionais. Como resultado, o Dow Jones encerrou com leve baixa de 0,14% e o S&P 500 caiu 0,32% — apenas o Nasdaq teve perdas mais intensas, de 0,72%.
O Ibovespa, no entanto, pouco foi afetado pelos eventos da Europa.
Alívio no câmbio
O dólar à vista passou por uma forte despressurização nesta terça-feira, também pautado pela expectativa em relação à aprovação da reforma da Previdência: a moeda americana caiu 1,34%, a R$ 4,0755, menor nível de fechamento desde o dia 4 —na mínima, bateu os R$ 4,0624 (-1,65%).
O desempenho do mercado de câmbio brasileiro chamou a atenção: divisas como o peso mexicano, o rublo russo e o rand sul-africano também se fortaleceram em relação ao dólar, mas o real foi a moeda emergente de melhor desempenho — evidenciando a importância do cenário doméstico para as negociações nesta terça.
Já as curvas de juros terminaram em alta, tanto na ponta curta quanto na longa. Mais cedo, o IBGE divulgou uma alta de 0,09% na inflação medida pelo IPCA-15 em outubro ante setembro, dado que ficou ligeiramente acima do esperado pelo mercado.
Nesse cenário, os DIs devolveram parte das baixas acumuladas desde a semana passada: as curvas para janeiro de 2021 subiram de 4,43% para 4,54%, as com vencimento em janeiro de 2023 avançaram de 5,42% para 5,52%, e as para janeiro de 2025 foram de 6,11% para 6,20%.
Beyruti, no entanto, pondera que o resultado do IPCA-15 não muda o cenário-base de cortes mais agressivos na Selic até o fim de ano, uma vez que a alta de 0,09% não representa maiores pressões inflacionárias. Trata-se, apenas, de um movimento de correção pontual.
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