US$ 5 milhões pelo ralo e um velho esbanjador arrependido
Cada vez tenho mais convicção de que os cidadãos brasileiros não poderão contar com o governo. A tendência das aposentadorias é convergir para o salário mínimo e o valor deste encolher. Eu mesmo cometi o erro de pensar apenas no presente.

Nos últimos artigos que escrevi, tenho batido na tecla da necessidade de poupança. E hoje mesmo vou falar um pouco mais sobre o assunto, sem esgotá-lo, tal sua importância. Cada vez tenho mais convicção de que os cidadãos brasileiros não poderão contar com o governo. A tendência das aposentadorias é convergir para o salário mínimo e o valor deste encolher.
Cito como exemplo minha própria pessoa e a propensão que sempre tive em gastar dinheiro em coisas supérfluas toda vez que meu orçamento ficou folgado. Só após abril de 1995, quando larguei a linha de frente do mercado para viver das letras, é que me tornei mais pão-duro, ou menos esbanjador. Mesmo assim, tive várias recaídas.
Se, desde os 17 anos de idade, quando comecei a trabalhar, tivesse pagado um dízimo à minha velhice, e aplicado em um ativo mais do que seguro (letras do Tesouro – Treasury Bills – dos Estados Unidos, por exemplo), teria hoje facilmente uns cinco milhões de dólares guardados, e essa conta continuaria aumentando a cada mês.
Mas comecemos pelo começo:
Quando, aos 18 anos, eu operava câmbio em Belo Horizonte, o dinheiro chovia em minha conta corrente de pós-adolescente. Pois bem, entre 1958 e 1965, eis para onde ia a grana:
Embora morasse em BH, todos os domingos ia e voltava ao Rio, para ver o Fluminense jogar, ora em minha Berlineta Interlagos, ora em meu Renault 1093, ambos carros de corrida.
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Se o torneio era o Rio-São Paulo, e o jogo na capital paulista, eu pegava um avião. Decolava do aeroporto da Pampulha, geralmente num turboélice Viscount da Vasp, descia em Congonhas, assistia à partida e regressava no primeiro voo disponível.
Me encantei com um monomotor Cessna 180, prefixo PP-ATD (Alfa Tango Delta), que entrou para a minha frota.
Nesse período em BH, fiz uma viagem a Montevidéu, Buenos Aires e Bariloche, além de ter assistido à Copa do Mundo de 1962, no Chile. Isso numa época em que passagens aéreas internacionais eram caras pra burro (o governo subvencionava os voos domésticos).
Felizmente nunca me interessei por roupas de grife, relógios Rolex, canetas Mont Blanc e outras frescuras (em meu juízo, é claro). Mas se a grana desse para comprar uma Ferrari, pode o caro amigo leitor apostar que eu teria tido uma.
Pois bem, entre 1965 e 1967, recém-casado pela primeira vez, morei nos Estados Unidos, onde estudei na New York University. Lá tive um padrão de vida um pouco melhor do que meus colegas da NYU; trabalhava nos fins de semana buscando e entregando carros na Costa Leste para a Hertz e para a Avis, além de dispor da grana da venda do Cessna.
Mais salário, mais gastos
De volta ao Brasil, já tendo nascido meu primeiro filho, tive um orçamento sem maiores folgas. Isso até ver meu salário decuplicado da noite para o dia, passando de 10 para 100 salários mínimos.
Jamais conseguiria gastar tanto dinheiro. Aprendi em menos de três meses.
Agora eu assistia a todos os jogos do Fluminense. Podia ser uma partida numa quarta-feira à noite, no estádio da Fonte Nova, na Bahia, ou um amistoso em Huelva, na Espanha, num domingo à tarde, saindo do Galeão na sexta-feira (primeira classe da Varig) e regressando em seguida para o Brasil. Sem contar extravagâncias como ir a Sarajevo, na atual Bósnia (antiga Iugoslávia), apenas para ver uma única partida.
No apartamento que comprei em Ipanema, com vista para o mar, certa ocasião aluguei um Fusca (meus dois outros carros e minha moto estavam na oficina) e o esqueci na garagem durante três meses.
Quando fui interpelado pelo síndico (só tinha vaga para dois automóveis) é que me lembrei do Fusquinha e fui devolvê-lo. Foi um sufoco para convencer o dono da locadora a pagar somente a metade, já que rodara nesse tempo menos de quinze quilômetros.
Se estivesse em um aeroporto com a família, e o avião atrasava muito, mais do que depressa eu alugava um jatinho da Líder.
Praticava esporte. Mais precisamente autobol, que é futebol de automóveis. Tinha de comprar um carro por semana (geralmente táxis velhos Gordini e Volks 1300 4 portas).
Certa ocasião, o Castro (dono da oficina que consertava e pintava os carros com as cores dos times) me disse que meu adversário, o América (eu jogava pelo Fluminense), estava devendo um dinheirão (digamos, uns 25 mil reais em valores de hoje) e não podia liberar os carros para o jogo.
Não pensei duas vezes. Quitei a dívida do oponente e a partida pôde ser realizada.
Um dos caras mais ricos do mercado, amigo meu até hoje, que jogava autobol pelo Botafogo, me deu uma bronca.
“Você gasta dinheiro demais, Ivan. Um dia, vai se arrepender.”
Vindo de quem vinha, o conselho era para assustar. Mas não assustou.
Foi nessa ocasião que comecei a acompanhar corridas de Formula 1 ao redor do mundo, sempre me hospedando numa das melhores suítes do melhor hotel (justamente num fim de semana onde os preços subiam vertiginosamente, por causa da competição).
Quando me mudei de armas e bagagens para os mercados futuros de Chicago e Nova York, havia meses no qual as contas fechavam no vermelho (eu especulava adoidado para mim mesmo). Em outros, ganhava uma nota preta, como, por exemplo, quando acertei o bull market da soja em Chicago (1988).
Mesmo nessas ocasiões mais radiantes, eu não economizava um dólar sequer. Reaplicava tudo em calls, puts, futuros, shorts, spreads e seja lá o que fosse que o cardápio do mercado oferecesse.
Só em 1995, quando me tornei escritor, com todas as limitações financeiras da profissão, tomei vergonha na cara. Não só diminuí os gastos pessoais como passei a economizar.
Em 2008, ao vender, por 200 mil dólares, os direitos de filmagem de Os mercadores da noite, economizei três quartos desse dinheiro, sendo o restante gasto no casamento de minha filha, despesa essa da qual não me arrependo nem um pouco.
Recaída do Ivan gastador
Agora, os direitos autorais estão dando uma folga e estou tendo uma recaída.
Não só passei o Carnaval num resort de luxo, como fiz questão da melhor suíte, que dispunha de uma banheira de hidromassagem, na qual não entrei com medo de não ter forças nem jeito de conseguir sair lá de dentro.
No próximo dia 17, irei passar um fim de semana no interior de São Paulo. Meu voo decola às 09:15 da manhã de uma sexta-feira do Santos Dumont.
Poderia sair daqui de casa numa boa. Mas preferi dormir no melhor hotel do aeroporto. Não num quarto qualquer (diária: 299 reais), mas na Suíte Superior Executiva (com terraço e vista para o mar: R$828,45).
Como ninguém é de ferro, minha mulher e eu jantaremos nesse terraço, acompanhados de um bom vinho (ela) e de um excelente Gentleman Jack ou Double Black (eu). Afinal de contas, nessa noite estarei completando 79 anos.
Como disse o Pedro Cerize durante uma palestra num evento de aniversário da Inversa, “shortear” o Ivan é mau negócio. “Ele não morre”, completou. Não percebi se o tom da voz era de regozijo ou de lamento.
Pois bem, enquanto não morro, acho melhor baixar o facho e voltar a poupar com consistência, tal como iniciei em 1995.
Espero que o caro amigo leitor siga minhas dicas quando o aconselho a investir o que sobra, e sempre fazer com que sobre algum, e jamais saia gastando dinheiro por aí.
Seja o Ivan “unha de fome” e abjure o Ivan perdulário.
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