A pirâmide do Rei do Gado
Para quem investiu nos bois de papel, que não eram tão gordos assim, o desfecho foi trágico: cerca de 30 mil investidores perderam 3,9 bilhões de reais, uma média de 130 mil reais per capita

De vez em quando, recebo sugestões de tema dos leitores de minhas newsletters, seja da Warm Up Pro, seja desta Os Mercadores da Noite, ou mesmo da participação que tenho no Trading Journal – todas elas pela Inversa.
Na última terça-feira, entrou no site a seguinte mensagem:
“Será que o Ivan Sant’Anna tem alguma lembrança pitoresca / ensinamento sobre Fazendas Reunidas Boi Gordo?” Fábio
E não é que tenho.
O ano era 1996. Eu lançara, pela Editora Record, meu primeiro livro: Rapina, ficção ambientada no mercado financeiro do Brasil. Foi um grande sucesso. Ficou na lista dos best-sellers durante cinco meses.
Com Rapina em destaque nas prateleiras das livrarias, além de diversas matérias em jornais, compareci a vários programas de televisão, entre os quais o do Jô Soares (à época no SBT – Jô Soares Onze e Meia) e Bom dia, Brasil, jornal do Boris Casoy. Fora as incontáveis aparições em emissoras de TV a cabo.
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Fazendas Reunidas Boi Gordo
Mesmo assim, foi surpresa quando a agência de publicidade que detinha a conta das Fazendas Reunidas Boi Gordo me convidou para fazer publicidade do fundo de investimento que, como o nome dizia, lucrava com a compra, engorda e abate de gado.
Tratava-se de uma boa grana, mais do que eu ganhara até aquele momento em direitos autorais de Rapina.
Respondi que ia estudar a proposta e saí em busca de informações com amigos do mercado financeiro.
Um deles, foi direto ao ponto.
“Assim que o fluxo entrada/saída de dinheiro se tornar negativo, Ivan, os caras vão quebrar. O negócio deles é uma pirâmide.”
Consciente de que poderia influenciar pessoas a fazer um péssimo investimento, telefonei para a agência e recusei a proposta.
Não fez diferença para eles, pois acharam propagandista muito melhor.
Em junho daquele ano, a TV Globo lançara a novela O Rei do Gado, com Antônio Fagundes e Patrícia Pillar nos papéis principais, sendo que Fagundes era o tal rei, proprietário de gigantesco rebanho.
Pois bem. Estava eu um dia assistindo TV quando vi um comercial das Fazendas Reunidas protagonizado por ninguém menos do que ele.
Como muitos telespectadores confundem personagem com ator, era como se o próprio Rei do Gado, pecuarista milionário que, na ficção, entendia tudo sobre o assunto, estivesse recomendando a aplicação.
Bois nem tão gordos
Para quem investiu nos bois de papel, que não eram tão gordos assim, o desfecho foi trágico: cerca de 30 mil investidores perderam 3,9 bilhões de reais, uma média de 130 mil reais per capita.
Minha recomendação chega a ser de uma obviedade ululante. Primária, até. Não se deixem levar por comerciais mostrando a atriz da novela sendo recebida, com tapete vermelho, pelo gerente do banco e afirmando, em bom som, que entrega toda a gestão de seu patrimônio financeiro a ele.
Só há três caminhos para se ganhar dinheiro no mercado financeiro. Estudando-o a fundo, aplicando com um gestor de confiança ou assinando publicações descomprometidas.
Ou vocês acham que aqueles cabelos deslumbrantes da Gisele Bündchen são milagre da loção Pantene (com todo respeito ao produto e à modelo)?
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