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Como viver num mundo que não entendemos? Eu vou explicar melhor a minha perplexidade além do normal nesta manhã
Segunda-feira pela manhã. Trago más notícias. Hei, por favor, não culpe o mensageiro. É melhor já saber logo a verdade ou ela vai acabar nos encontrando na pior hora, quando estivermos mais despreparados.
Não se assuste, mas tenha cuidado, pois teremos de conviver com o mais insuportável dos monstros: a incerteza. Queria eu ter mais convicção sobre as coisas, estar no controle. Mas a verdade é que não tenho. A razão é uma grande emoção. É o desejo de controle, já nos resumiu Nietzsche.
Gostamos tanto das coisas sem volatilidade justamente porque elas transmitem a falsa sensação da certeza, de que podemos admitir que amanhã o sol nascerá rigorosamente da mesma maneira com que nasceu nos últimos anos.
O problema é que, diferentemente das ciências naturais, os fenômenos sociais gozam de outras propriedades, entre elas a imprevisibilidade, a aleatoriedade, a complexidade e a falta de padrão. Nós economistas, os invejosos da Física, bem que gostaríamos de ter as coisas bem caracterizadas e definidas, com as pessoas e as coisas interagindo bonitinho feito movimento de rotação e translação. Infelizmente, não é assim. Havemos de jogar um jogo sem juiz, cujas regras são formadas pela gente mesmo — nem sequer sabemos o que é fazer gol nessa história. Então, vamos percorrendo uma travessia cheia de dúvidas, percalços e conquistas, cujo sentido só existe se nós mesmos quisermos lhe dar algum sentido, até que subitamente checamos nossa caixa do correio (ou o DDA do app do Itaú) e encontramos um boleto para pagar, o que interrompe o café filosófico para nos devolver à imperiosa necessidade de ganhar dinheiro.
Como viver num mundo que não entendemos? Eu vou explicar melhor a minha perplexidade além do normal nesta manhã.
Para esta semana, havia grande expectativa por redução de juros e, quem sabe, por novas medidas heterodoxas de política monetária em nível global — lembre-se de que, na semana passada, o BCE reduziu sua taxa básica e anunciou a compra de títulos no valor de 20 bilhões de euros por mês. Esperam-se (ou esperavam-se, sei lá a esta altura) novo corte de juro pelo Fed e novas medidas do Banco Popular da China. Em paralelo, o Banco da Inglaterra e o Banco do Japão também se reúnem sob apelos de flexibilização monetária adicional. E, claro, temos atualização da Selic por aqui.
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Ocorre que, subitamente (e o diabo é que as coisas sempre mudam subitamente, quando ninguém espera), como aconteceu no fim da semana passada, indicadores de inflação e atividade nos EUA começam a surpreender para cima. Poderia o Fed agir com vigor com reduções adicionais de juro num ambiente assim, com a inflação caminhando para a meta informal de 2 por cento ao ano?
E, então, vem o fim de semana e eis que ocorre um ataque às instalações petrolíferas da Saudi Aramco na Arábia Saudita, levando a um corte momentâneo de 50 por cento da produção do país. Contratos futuros de petróleo chegaram a subir quase 20 por cento, em sua maior alta da história, mas agora se valorizam cerca de 9 por cento. Ainda há muitas dúvidas sobre o tamanho do estrago, sobre o tempo necessário para se restabelecer a produção e sobre a origem dos atentados. De todo modo, efeitos parecem importantes e implicações transcendem o setor de petróleo.
Vamos continuar flexibilizando a política monetária nos EUA mesmo mediante a escalada do óleo bruto? E como fica a questão geopolítica com o Irã? Na dúvida, já corremos em direção aos portos seguros clássicos — ouro e preço dos Treasuries se valorizam nesta manhã.
Se, de um lado, o petróleo para cima traz prognóstico de um pouco mais de inflação e dificulta cortes de juro adicionais, por outro, a atividade econômica na China traz novos alertas de desaceleração, sugerindo necessidade de ação por parte dos BCs — produção industrial e vendas ao varejo no país vieram bem abaixo do esperado, o que alimenta as cobranças sobre novas medidas pelo banco central chinês.
Resumo da história: se já havia dúvidas (sempre há!) sobre a economia e a geopolítica mundial, num ambiente de desaceleração da atividade e desglobalização, agora os questionamentos ganham contornos ainda mais marcantes. Não adianta tentar livrar a incerteza e o desconhecido do processo. Eles necessariamente fazem parte da caminhada. A questão aqui é como continuar o percurso, mesmo diante da inexorável imprevisibilidade do mundo.
Ontem, fui assistir à peça “Sísifo”, com Gregorio Duvivier, no Sesc Santana. Fica como dica cultural, mas é muito mais do que isso. Fica como dica financeira também. Até poderia ser porque teatro no Sesc costuma ser uma barganha clássica, do tipo Benjamin Graham, mas pela necessidade de cada um de nós encontrar uma forma de ser e estar no mundo, a despeito das intempéries, das dificuldades e do desconhecido que se colocam à nossa frente. O nome da peça, claro, é uma alusão ao mito em que Sísifo, pelas rebeldias cometidas enquanto vivo, recebe como punição rolar uma grande pedra de mármore por toda a eternidade até o cume de uma montanha; todas as vezes em que atinge o pico, a pedra rola para baixo novamente, e o processo se reinicia, indefinidamente.
Não há solução, não há saída, não há sentido, não há fim. A única coisa que nos cabe é encontrar um jeito um pouco mais divertido de rolar a tal pedra morro acima. “A realidade é dura, mas ainda é o único lugar onde posso encontrar um bife”, já sintetizou Woody Allen.
Precisamos achar um bom bife por aí, um banho quente, um saboroso café (como o da Dona Graça aqui na Empiricus), um abraço apertado do João Pedro. Cada um escolhe o seu jeito de ser e estar no mundo.
Poderia passar horas falando disso, mas isto aqui já está um pouco grande demais. Talvez pudesse resumir assim: usamos todo o instrumental buffettiano clássico para descobrir coisas razoavelmente baratas, sem muitas pretensões de identificar com precisão o valor intrínseco das coisas — afinal, os fluxos de caixa futuros sempre serão impactados pelo… futuro! Por questões que não sabemos e serão determinantes no meio do caminho. Apenas compramos barato, tentando ter a garantir de que as surpresas estarão no lado positivo. Promovemos assim um encontro platônico entre Nassim Taleb e Warren Buffett.
Compramos Petrobras (inclusive opções de Petrobras foram indicadas no último Bootcamp) e PetroRio por questões idiossincráticas, enquanto morríamos de medo de uma eventual fraqueza dos preços do petróleo num cenário de potencial recessão global. Então, vem um ataque desses na Arábia Saudita e o petróleo voa 10 por cento. Surpresa boa para os comprados em Petrobras, em pleno vencimento de opções. Atirou no que viu, acertou no que não viu. Você não precisa estar certo no argumento. Você precisa ganhar dinheiro. X não é f(x). Cqd.
Mercados iniciam a semana em clima predominantemente negativo, afetados pela maior aversão ao risco catalisada pelo aumento da incerteza em nível global. Investidores correm para a segurança com atentado na Arábia Saudita e desaceleração na China.
Na agenda doméstica, IGP-10 apontou deflação de 0,29 por cento, contra prognóstico de queda de 0,46. IPC-Fipe subiu 0,05 por cento em prévia mensal, abaixo do 0,11 por cento estimado. Relatório Focus trouxe revisão para baixo nas estimativas de inflação e taxa Selic. Balança comercial semanal completa lista de referências internas. Nos EUA, sai Empire State Index, com atividade manufatureira na região de Nova York.
Ibovespa Futuro cai 0,28 por cento, dólar e juros futuros sobem levemente.
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