Trump vira metralhadora política contra o Brasil
Decisão do presidente de taxar aço do Brasil e da Argentina carece de fundamentação técnica. Ministérios dizem governo trabalhará para defender interesse comercial brasileiro e assegurar a fluidez do comércio com os EUA

Um giro pelo noticiário local e internacional sobre a decisão do presidente americano Donald Trump de taxar o aço e alumínio vendido aos EUA pelo Brasil e Argentina mostra uma avaliação quase consensual: A decisão está na seara política e longe de qualquer razão econômica.
A maioria das notícias e análises relaciona a ação de Trump à falta de progresso nas negociações com a China. Os chineses querem redução de tarifas e isso estaria travando as negociações da fase 1 do pretendido acordo. O efeito calendário também é levado em consideração, já que em 15 de dezembro nova alíquota de 15% sobre produtos chineses entra em vigor.
Junto disso, o presidente tenta falar com parte do seu eleitorado, os fazendeiros, que estão bastante endividados. Além de estar perdendo parte de sua popularidade em meio às audiências de um processo de impeachment.
Trumpeta falando à plateia https://t.co/WytZSDhbK5
— Jason Vieira ? (@JasonVieira) December 2, 2019
No lado dos dados, comparar Brasil e Argentina não faz sentido. O real perde pouco mais de 8% ante do dólar no acumulado do ano, enquanto o peso argentino desabou quase 40%. E as razões para essas movimentações são bastante distintas. Sem falar que o BC tem atuado, nas últimas semanas, para conter o ritmo de desvalorização.
Além disso, os dados oficiais sobre as exportações brasileiras de semimanufaturados de ferro e aço mostra redução de 16% no acumulado de janeiro a outubro deste ano com igual período do ano passado. Em relação a participação do total exportado, esses produtos caíram de 11,34% para 9,31%.
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Munição
Por aqui, o presidente Jair Bolsonaro sabe bem o que a decisão de Trump significa: munição para a oposição, ainda mais se colocada em perspectiva a aproximação e admiração declarada ao governo americano.
Bolsonaro também disse em entrevista à “Rádio Itatiaia”, que "tem quase certeza" de que Trump, vai atendê-lo e voltar a atrás na decisão sobre as tarifas.
Com bem resumiu o cientista político e sócio da Arko Advice, Lucas de Aragão, em seu “Twitter”: “A lição de tudo isso é: money talks. Amizades e inimizades geram oportunidades e riscos, mas na realidade cada um defende o seu, luta pelo seu lado, olha para a sua balança e sofre - e reage - às pressões que sofre.”
A lição de tudo isso é: money talks. Amizades e inimizades geram oportunidades e riscos, mas na realidade cada um defende o seu, luta pelo seu lado, olha para a sua balança e sofre - e reage - às pressões que sofre.
— Lucas de Aragão (@LucasdeAragao) December 2, 2019
Perplexidade
Em nota, o Instituto Aço Brasil disse receber "com perplexidade" a decisão de Trump. "O Instituto Aço Brasil reforça que o câmbio no país é livre, não havendo por parte do governo qualquer iniciativa no sentido de desvalorizar artificialmente o real e a decisão de taxar o aço brasileiro como forma de 'compensar' o agricultor americano é uma retaliação ao Brasil, que não condiz com as relações de parceria entre os dois países. Por último, tal decisão acaba por prejudicar a própria indústria produtora de aço americana, que necessita dos semiacabados exportados pelo Brasil para poder operar as suas usinas."
Resposta oficial
Por volta das 15 horas, os Ministérios da Economia, Agricultura e Relações Exteriores divulgaram nota conjunta afirmando que o governo já está em contato com interlocutores em Washington sobre o tema. "O governo trabalhará para defender o interesse comercial brasileiro e assegurar a fluidez do comércio com os EUA, com vistas a ampliar o intercâmbio comercial e aprofundar o relacionamento bilateral, em benefício de ambos os países."
Em tempo. A decisão de Trump sobre taxar Brasil e Argentina ainda não foi formalizada pelo Departamento de Comércio.
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