Presidente do BNDES pede dois meses para explicar caixa-preta
Gustavo Montezano também esclareceu que BNDES vai acelerar venda de participações em empresas neste ano, mas que não tem um número para dar. Carteira soma R$ 110 bilhões

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, disse não ter opinião formada sobre a famigerada caixa-preta do banco e pediu dois meses de prazo para ter informações suficientes e explicar o tema.
Depois de tomar posse no Palácio do Planalto, Montezano veio ao Ministério da Economia, onde concedeu entrevista para explicar as cinco metas prioritárias da instituição. Ele também esclareceu que a venda de participações acionárias em bolsa de valores, que somam cerca de R$ 110 bilhões, serão aceleradas e que não necessariamente todo esse montante será ofertado ao longo do segundo semestre, como transpareceu durante sua fala no Planalto.
Montezano desenhou as linhas gerais de uma nova orientação para o BNDES, que deixa de ser uma instituição de crédito e passa a ser um prestador de serviços ao setor público, focando o resultado social e não apenas o lucro financeiro.
“O banco quer se posicionar menos como bancos de empréstimos e investimento e mais como banco de serviços, como assessor financeiro. Nosso cliente é o Estado, os ministros Tarcísio, Onyx e Salim Mattar”, explicou.
Para cumprir essa nova função de auxiliar o Estado na formatação de planos de concessões e privatizações, o BNDES não precisa mais de um balanço grande. Por isso, o presidente está comprometido em devolver os empréstimos que tomou junto ao Tesouro. São cerca de R$ 270 bilhões em empréstimos, sendo que R$ 126 bilhões serão devolvidos ainda neste ano (R$ 40 bilhões já foram entregues e faltam outros R$ 86 bilhões).
Caixa-preta
A meta número 1 elencada por Montezano é explicar a tal caixa-preta. Segundo o presidente, há uma dúvida sobre o que há ou não dentro do BNDES e diversas histórias com versões desencontradas.
Geralmente, o termo caixa-preta, muito explorado em campanhas políticas, se refere às operações de crédito feitas para grandes construtoras envolvidas na Lava-Jato e países como Venezuela, Cuba e Angola.
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Uma série de informações, como empresas, países, valores e taxas dessas operações estão abertas desde junho de 2015. Em janeiro deste ano foi feita uma nova formatação desses dados, ficando mais fácil a localização das informações.
Agora, fica a expectativa de que tipo de informação Montezano pode somar às já existentes e se isso será suficiente para desmistificar a caixa-preta, termo que já está no imaginário da população e da política brasileira.
Perguntado se tem convicção sobre a existência dessa caixa-preta e se vai conseguir atender aos anseios do presidente Jair Bolsonaro sobre o tema, Montezano disse que se eximia de tomar posição neste momento. Mas que qualquer que seja a conclusão, será transparente em trazer os resultados à sociedade, sem se preocupar se isso vai agradar ou não grupos e políticos.
Para Montezano, o assunto atrapalha o desenvolvimento da nova estratégia do banco, pois como toda instituição financeira, o BNDES também vive de credibilidade e precisa ter imagem ilibada.
“Preciso tirar de cima do banco essa nuvem cinza que atrapalha a estratégia de criação de um banco de serviços, de que o banco está aqui para ajudar o país”, disse.
Venda de ações
Motezano explicou que boa parte da carteira de ações do banco, gerida pelo BNDESPar, é meramente especulativa, ou seja, se o preço da ação sobe, o banco tem “mero ganho financeiro, sem entregar valor para a sociedade”.
“Olhando sob a ótica de banco público, deixar recursos especulativo em bolsa não é o melhor uso do dinheiro”, afirmou.
Sobre o prazo para as vendas, Montezano esclareceu que o banco não tem uma meta ou um número de quanto dos cerca de R$ 110 bilhões serão vendidos ainda em 2019. A carteira completa pode ser acessada aqui.
“A ideia é acelerar esse desinvestimento. Não estamos colocando um prazo para fazer esse desinvestimento. O que se quer é acelerar esse processo.”, disse.
Questionado especificamente sobre a venda de ações da mineradora Vale, participação que monta cerca de R$ 17 bilhões, Montezano disse que não conseguiria afirmar se esse é um momento bom ou ruim para fazer a venda.
De forma geral, Montezano disse que o momento é bem positivo para o mercado de ações brasileiro. “Neste momento, temos um mercado com profundidade e capacidade de absorver operações acima da média histórica”, avaliou.
Segundo o presidente, a ideia dos desinvestimentos é dar melhor uso para o dinheiro público, buscando melhor retorno para a sociedade que especulando em bolsa de valores.
O presidente também disse que não há definição sobre extinção ou não do BNDESPar e que novos investimentos podem ser feitos, desde que o retorno social seja superior ao ganho financeiro.
[captacao]
Banco de serviços
Dentro desse novo papel de ser um prestador de serviços, Montezano explicou que os desembolsos dos bancos em operações de crédito serão menores, na linha dos R$ 70 bilhões, contra os cerca de R$ 150 bilhões a R$ 200 bilhões vistos até 2015/2016.
Montezano também disse a presença do BNDES no financiamento à infraestrutura e saneamento é sim importante e que o banco vai continuar atuando quando o mercado privado não conseguir prover os recursos.
No lado das privatizações, ele acredita que o segmento privado tem atuação suficiente para prover eventual financiamento às operações de aquisição. Disse ainda, que o processo de venda das estatais não está atrasado, mas que segue um ritmo normal de planejamento.
Ainda de acordo com o presidente, o corpo de funcionários do banco está tendo uma boa reação a esse novo direcionamento. Montezano disse que já conversou com cerca de 150 funcionários e que todos são patriotas, com vontade de ajudar o Brasil.
Montezano disse que fez a mesma pergunta a todos os chefes de departamento: Qual o propósito do banco? E que a resposta de todos foi a mesma: o propósito do banco é desenvolver o Brasil.
“O jargão, menos bancos e mais desenvolvimento veio deles”, explicou.
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