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Se você quer bolsa, compra bolsa – e não um fundo multimercado!
Aspas para as diretrizes de alocação de um grande banco brasileiro visando o mês de novembro:
“Diante desse cenário, é o momento de priorizar investimentos em Bolsa. Além da confiança na economia, nossos analistas projetam um bom desempenho no mercado de ações local. Uma maneira de acessar esse mercado, de forma mais conservadora e adequada a seu perfil de risco, é por meio de fundos multimercado.”
Não inventei nada. Está ipsis litteris. Preservo o nome do banco apenas porque, bom, você sabe, são 7h23 da manhã e várias outras brigas virão ao longo do dia. Vamos tentar evitar essa tão de frente. Canalizo a energia para o que realmente interessa. A mensagem importa mais do que o mensageiro.
Se você vê uma fraude e não grita “fraude!”, você mesmo passa a ser uma fraude, compactua com aquilo. Vejo um parágrafo como esse acima e tenho desgosto físico – é verdade mesmo. Tenho ânsia de vômito com determinadas posturas. É melhor ser desinformado do que ter uma informação errada; “no map is better than a wrong map”.
Se você quer comer um Serenata de Amor, não vai comprar a caixa de especialidades da Garoto. Por conta de um chocolate, que, vamos combinar, nem é lá grande coisa, você comete o crime de comer aquele outro de banana ou de coco (as oxítonas terminadas em “o” são acentuadas e, portanto, talvez, para transmitir o sabor da coisa com mais precisão, eu devesse recorrer ao circunflexo, mas vamos evitar referências escatológicas logo cedo).
O ponto possivelmente ainda não está tão claro. Deixe aproximar-me, pelas beiradas, do tema das finanças, comendo quietinho, do meu jeitinho, só pra contrariar.
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Lembrei de quando fui a uma conferência de dois dias nos EUA com um objetivo único: ouvir o Stanley Druckenmiller. Eu adoro o Druckenmiller. Tinha outros caras até legais previstos para falar no evento. O problema é que me entedio fácil, principalmente quando começa conversa superficial, clichê, cuspição de regra (de novo, evitando escatológico, sob a contrapartida de perder precisão) e/ou discurso protocolar. Eu queria ver o Druckenmiller – e ponto. Ainda gosto daquelas pessoas de carne e osso. “Será que alguém aqui ainda pode falar o que pensa?”
Mas fiquei lá dois dias esperando o sujeito, com dois Engovs no bolso, ouvindo aqueles caras e enchendo a cara de vinho nos intervalos. Pensei até em desistir. Não aguentava mais. Só que faltavam só três palestras (intermináveis!), então decidi ficar. No final, o lazarento do Druckenmiller não foi, deu o cano geral.
Disseram que brigou com sei lá quem e resolveu abortar o plano. Se é verdade ou não, sinceramente não sei – dada a personalidade, ao menos é uma narrativa crível. A conferência era cara pra caramba e todo mundo saiu xingando o sujeito. Pra mim, vou confessar aqui só pra você: só fortaleceu o mito. Nada mais brochante do que um bilionário institucionalizado, domado e prestador de conta, escravo de uma suposta reputação herdada ou construída por méritos de um passado distante.
A admiração pelo Druckenmiller não se abalou, mas, obviamente, foi frustrante pra mim. Viajei pra fora, gastei uma baita grana, perdi três dias. Tudo porque queria pegar uma única palestra em meio a várias.
Ligando os pontos, Druckenmiller faz Serenata de Amor dentro de um banco grande, é isso?
Bom, até que seria divertido, mas não exatamente.
A mensagem aqui é a seguinte: se você quer comer um Serenata de Amor, você vai na droga da padaria e compra um Serenata de Amor. Se quer ouvir o Druckenmiller, vai numa palestra do Druckenmiller. E, por mais incrível que possa parecer, se quer priorizar investimentos em Bolsa, vai comprar… Bolsa! E não um fundo multimercado.
É quase uma aplicação prática da Navalha de Occam, um princípio epistemológico que defende a explicação de qualquer fenômeno a partir da menor quantidade possível de premissas, ligado ao escopo da Lei da Parcimônia, uma espécie de heurística em prol do reducionismo e da simplicidade, que, no final, é a maior das sofisticações.
A navalha corta na própria carne, como na peça de Plínio Marcos. A Empiricus sempre esteve à margem do grande sistema financeiro. No paralelo, seríamos, metaforicamente, como os marginais Neusa Sueli (a prostituta), Vado (o gigolô) e Veludo (o homossexual) na composição teatral censurada (parece oportuno!) pela ditadura, expondo nossas próprias vidas e mazelas de maneira sincera, contra um discurso de borracha politicamente correto que, no final do dia, só atrapalha o investidor. Lá estão os lobos em pele de cordeiro, as raposas no galinheiro.
Agora vai outro segredo, menos filosófico e mais pragmático. Com raras exceções (SPX e JGP, por exemplo), fundo multimercado no Brasil não entende nada de equities. O cara, mesmo quando bom no geral (e isso já é uma conquista e tanto!), manja de juro e câmbio. Primeiro porque ele, de fato, não tem muito histórico nisso. Depois, porque é vaidoso demais para dar muito espaço para quem toca o book de equities – não aceita rivalidade, muito menos um alfa gerado por alguém que não seja ele mesmo. E, terceiro, se há um grande cara de equities, ele acaba saindo e fundando a própria gestora de ações, porque FIA paga muito mais performance do que multimercado – por mera aplicação da aleatoriedade, é mais fácil gerar performance por meio de ativos de maior variância.
Fique claro: nada contra os multimercados em si. Gosto deles também e ainda há bons (poucos!) por aí. Mas, por favor, você não precisa deles só porque a diversidade está na moda. Se Bolsa é legal, vai lá e compra Bolsa.
Então, prescrições derivadas daqui, agora já na pegada um tiquinho mais beligerante:
Mercados abrem a quinta-feira em clima de expectativa pela reunião de hoje do Fed, à tarde. Também ponderam decisão de reajuste do STF, com importante impacto fiscal em cadeia, e, do lado positivo, aprovação de urgência no Senado da cessão onerosa. Existe ainda uma série de especulações em torno da permanência ou não de Ilan Goldfajn à frente do Banco Central – embora o Ilan seja incrivelmente competente, a verdade é que há substitutos à altura e esse não me parece ser um fator de real preocupação. Beny Parnes ou Mario Mesquita seriam igualmente incríveis.
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