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Eduardo Campos
Eduardo Campos
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.
Criptoativos

Bitcoin é aposta em um futuro distópico

Para Kenneth Rogoff, o Bitcoin e outras criptomoedas são como bilhetes de loteria que serão “premiados” em um futuro distópico onde serão utilizados por Estados desonestos e falidos ou talvez em países onde seus cidadãos já perderam todo o aspecto de privacidade

11 de dezembro de 2018
5:14 - atualizado às 16:03
Bitcoin-icone-quebrado
Imagem: shutterstock

O renomado economista de Harvard Kenneth Rogoff escreveu artigo para o site “Project Syndicate” onde faz uma avaliação pouco animadora para os entusiastas das criptomoedas, como o bitcoin, falando em uma aposta em um futuro distópico.

Distopia aqui é o contrário de utopia, algo como um lugar ou Estado imaginário onde se vive sob condições de extrema opressão, desespero ou privação (pegando emprestada a definição da Wikipédia).

Rogoff ganhou notoriedade com o livro “This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly” feito em conjunto com a colega Carmen Reinhart, no qual analisam diversos episódios de calotes financeiros, corridas bancárias e surtos inflacionários para mostrar como nós aprendemos quase nada com esses eventos. O título do livro virou um sinônimo de alerta bem-humorado, pois toda a vez que algum analista ou economista pronunciar que “desta vez é diferente” pode ter certeza de que não é.

No seu texto, Rogoff afirma que a forma correta de encarar as criptomoedas é como um bilhete de loteria que será “premiado” em um futuro distópico onde serão utilizadas por Estados desonestos e falidos ou talvez em países onde seus cidadãos já perderam todo o aspecto de privacidade. Não é mera coincidência que a Venezuela é o primeiro Estado a emitir uma criptomoeda, o Petro. No entanto, por ser um bilhete de loteria, as criptomoedas não devem valer zero.

Segundo Rogoff, o maior obstáculo para qualquer criptomoeda é encontrar uma forma de comprar uma ampla gama de bens e serviços “além de drogas ilícitas e matadores de aluguel”. Se os governos proibirem seu uso legal em lojas e bancos seu valor deve entrar, finalmente, em colapso.

Falando em colapso, Rogoff começa seu artigo lembrando que o preço do bitcoin, hoje valendo menos de US$ 4 mil, caiu mais de 80% no ano, mas que em dezembro de 2012, valia US$ 13. E que isso não é motivo para pânico.

Segundo Rogoff, os evangelistas das criptomoedas insistem em dizer que o bitcoin é “ouro digital” em parte porque sua oferta é limitada a 21 milhões de moedas. “Mas isso é loucura”, diz o economista, lembrando que ao contrário do ouro, o bitcoin não tem diversas alternativas de uso.

Mesmo que os “bitcoiners”, os mineradores da moeda, encontrem uma forma de reduzir o elevado consumo de energia necessário para obter a moeda e verificar transações, a natureza de um sistema descentralizado de registro torna o bitcoin muito menos eficiente que um sistema que tem uma contraparte central, como um Banco Central.

“Tire o quase anonimato e ninguém vai querer usá-lo ou mantê-lo e governos de economias avançadas não vão tolerar isso”, escreve Rogoff.

Mas os evangelistas da moeda ignoram tais preocupações, dizendo que o bitcoin pode ser incrivelmente valioso desde que as pessoas o vejam como “ouro digital”. Afinal, argumentam os entusiastas, o dinheiro é mera convenção social.

“Mas economistas, inclusive eu, que trabalharam com esse tipo de problema por cinco décadas descobriram que as bolhas nos preços que cercam ativos intrinsecamente inúteis eventualmente vão estourar”, alerta.

Rogoff lembra que as moedas emitidas por governos são mais do que convenções sociais, pois os governos pagam empregados e cobram impostos com essas moedas.

Para o economista, ainda é cedo para dizer como o futuro das moedas digitais será. Por ora, a principal questão é se e quando a regulação global vai acabar com sistemas privados de transação que são caros para serem monitorados e rastreados.

Para Rogoff, qualquer país avançado “tolo” o suficiente para tentar abraçar as criptomoedas, como o Japão fez no ano passado, corre o risco de se tornar um destino global para lavagem de dinheiro. O autor lembra que o Japão já se distanciou das criptomoedas o que pode explicar, em parte, o movimento de queda deste ano.

“No fim, as economias avançadas certamente irão coordenar a regulamentação das criptomoedas, da mesma forma como fizeram com outras medidas para impedir evasão fiscal e lavagem de dinheiro”, escreve.

No entanto, pondera Rogoff, esse cenário pode deixar muitos agentes descontentes e ele lembra que países como Cuba, Irã, Líbia, Coreia do Norte, Somália, Síria e Rússia, estão sob sanções financeiras dos Estados Unidos e que seus governos não necessariamente se preocupam com externalidades globais se encorajarem criptomoedas que possam ter algum valor desde que possam ser utilizadas em algum lugar.

Encerrando, Rogoff afirma que o preço dessas moedas não é necessariamente zero. Como um bilhete de loteria, a maior probabilidade é de que não tenham valor algum, mas também há uma probabilidade extremamente pequena de que tenham grande valor algum dia, mas por razões que são difíceis de prever.

*veja a íntegra do artigo aqui

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