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Filho de assessor econômico de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, entre outros, relata grandes encontros ao longo da carreira e aconselha: escute as outras pessoas, aprenda com aqueles que acertam e, mais ainda, com os que erram
Como estou no segundo tempo da prorrogação da vida (79 anos de idade), quase indo para os pênaltis, tenho muitas histórias para contar. Hoje gostaria de falar sobre as pessoas que me influenciaram profissionalmente.
A primeira delas foi meu pai, Sebastião de Sant’Anna e Silva, que faleceu em 1995 aos 80 anos de idade. Sei que é meio clichê falar bem do pai, principalmente quando já se foi, mas o Dr. Sant’Anna, que é como quase todos o chamavam, inclusive minha mãe, integrou uma das primeiras levas de economistas brasileiros, geração intermediária entre o professor Eugênio Gudin e o embaixador, ministro, senador e deputado Roberto de Oliveira Campos, por sinal dois grandes amigos do velho.
Não tinha apenas um vasto conhecimento – o Dr. Sant’Anna se formara em Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, e se especializara em Economia na London School of Economics (1952/1954) −, mas também compartilhava o que aprendia no trabalho com os filhos na mesa do almoço e do jantar. Para mim era rotina, ainda com onze ou doze anos, ouvir o pai discorrer sobre inflação, deflação, Economia de Guerra (sua especialidade), socialismo, capitalismo, etc.
Tendo assessorado Getúlio Vargas, Eurico Dutra, Café Filho, Juscelino Kubitschek e Castelo Branco, sempre na área de orçamento, Dr. Sant’Anna nos transformava em insiders do poder. “Ontem o doutor Getúlio me pediu para estudar um aumento para os militares. A caserna não está satisfeita com os soldos atuais”, eu ficava sabendo desse tipo de coisa antes mesmo da imprensa.
Aos dezoito anos, quando comecei a trabalhar no mercado financeiro, na H. H. Picchioni, em Belo Horizonte, tive dois mentores: Hugo Picchioni e Augusto de Assis Magalhães. Hugo era craque em câmbio. Foi uma das primeiras pessoas no Brasil a operar dólar futuro, num mercado informal, em negócios fechados apenas de boca, sem nenhum contrato entre as partes. Com ele, aprendi o conceito de alavancagem e de venda a descoberto.
Augusto podia ser descrito como a prudência em pessoa. Negociava títulos de renda fixa, à época letras de câmbio, e apólices do Estado de Minas Gerais. Ainda posso ouvi-lo dizer:
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“Esse papel está com taxa boa, Ivan. Podemos nos expor um pouco mais. Fechei um bom lote. É meio desconhecido, porque a financeira está apenas começando. Mas é gente muito séria, ligada a (Cia. Siderúrgica) Belgo Mineira. Não vejo risco e dá pra gente ganhar um bom spread.”
Hugo e Augusto morreram muito cedo, entre 40 e 50 anos, se não me falha a memória. Nessa época eu já estava morando de volta no Rio, após fazer um curso de Mercado de Capitais na New York University. Anos mais tarde, quando escrevi meu primeiro livro, Os mercadores da noite, pus nele uma dedicatória para ambos.
Entre os professores e conferencistas da NYU, três deles exerceram forte influência em meu trabalho nos anos que viriam pela frente.
“Israel pode ganhar 100 guerras de seus vizinhos, mas não poderá se dar ao luxo de perder uma sequer”, ele disse para a plateia de estudantes.
Como, na NYU, tínhamos de fazer pesquisas de campo, entrevistando empresários e banqueiros, foi em Nova York que conheci Edmond Safra. O ano era 1966 e ele previu a grande alta do ouro, então cotado a US$ 35,40 por força do acordo de Bretton Woods (julho de 1944), que definiu a paridade entre as diversas moedas.
Quando, cinco anos após minha entrevista com Safra, Richard Nixon abandonou o gold standard, a onça do metal iniciou um bull market que a levou para US$ 850 em 1980. Se houve uma conversa que me rendeu conhecimentos e dinheiro, foi essa com Edmond Safra.
De volta ao Brasil, e atuando como operador de pregão na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, conheci Marcello Leite Barbosa, o pai do mercado de capitais brasileiro.
Embora não tenha trabalhado na Marcello Leite (que era como nós chamávamos a corretora), eu ia lá quase todas as tardes. Como dizia Benedito Valadares, velha raposa da política mineira, ficava rouco de tanto ouvir os grandes espadas da época.
No pregão, minha grande referência foi o Luiz Carlos Barroso Simão, recentemente falecido, que disse em meu primeiro dia.
“Veja bem, Sant’Anna, tá vendo esse pessoal aqui? Tem mais de 200 operadores e nenhum deles é bobo. Nenhum!

A partir do segundo semestre de 1971, o mercado se deslocou das ações para o open market. Nessa época, conheci três das maiores feras que já atuaram em uma trading desk no Brasil. Estou me referindo a Jorge Paulo Lemann, Antônio José de Almeida Carneiro (o Bode) e Alfredo Grumser Filho. Lemann, como todo mundo sabe, é hoje uma das maiores fortunas do Brasil (na verdade, ele mora na Suíça), juntamente com seus sócios Marcel Telles e Beto Sicupira.
Quando Jorge Paulo telefonava para mim (eu era sócio da Fator), ele sempre falava: “Vamos transar?”, numa conotação completamente diferente da que se usa hoje.
Se o Bode, cuja matemática era intuitiva, ligava para alguma outra corretora, e se identificava, não raro o cara da outra ponta da linha desligava o telefone. Ou ficava repetindo alô, alô, alô, como se a ligação tivesse caído. Pudera. Caso fizesse algum negócio, qualquer tipo de negócio, por melhor que lhe parecesse no início, era enrabada na certa. Convivo com Antônio José até hoje, e cada papo é um novo aprendizado. Não raro, tiro de nossas conversas temas para as newsletters que escrevo.
O próprio apelido de Alfredo Grumser o define: Malba Tahan. Era ótimo no open e, anos mais tarde, tornou-se o rei do mercado de opções de Vale do Rio Doce. Os strikes nos quais estava comprado davam exercício. Aqueles em que ficara short, viravam pó. Bode e Alfredo jogavam autobol (futebol de automóveis) comigo.
A partir de 1983, deixei de operar nos mercados brasileiros e passei a fazer negócios apenas nas bolsas de futuro de Chicago e Nova York. Lá fora, meus primeiros mentores foram dois Alvaros: Alvaro Ancede e Alvaro Catão, brokers e traders da Shearson Lehman.
Ancede conhecia, como conhece até hoje, quase todos os mercados futuros: Lumber (que a gente chamava de “tauba”), barriga de porco (pork belly), feijão vermelho (negociado em Tóquio), fora os tradicionais S&P500, Treasury Bonds, currencies (moedas), softs (cacau, café, açúcar, algodão e suco de laranja), ouro, prata, platina, paládio, etc., etc.
Catão era grafista. Operava seguindo os métodos de Elliot Waves, candlestick e outros. Isso lhe permitia ter opinião sobre tudo. Bastava observar suas ferramentas e delas extraía uma conclusão.
Fazia toda hora alguma constatação do tipo: “Se o açúcar dezembro romper a resistência a 838 (oito centavos e trinta e oito centésimos de centavo) pode ir a nove, dez, ou até mais.”
Quando, em abril de 1996, troquei o mercado pela literatura, pedi a minha irmã, Sonia Sant’Anna, escritora, tradutora e revisora, para dar uma olhada nos originais.
“Você escreve muito mal, Ivan. Mas tem talento. Vou lhe ensinar as técnicas.” E assim fez. Tanto que outra das dedicatórias de Os mercadores da noite é dirigida a ela.
Em 2003, fui convidado pela Rede Globo de Televisão para ser um dos roteiristas da série Carga Pesada. Na emissora, tive como mestre Leopoldo Serran.
Entre dezenas de obras, inclusive “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e “Gabriela, Cravo e Canela”, Serran escreveu dois roteiros de filmes indicados para o Oscar: “O que é isso, companheiro?” e “O Quatrilho”.
Leopoldo era daquelas pessoas que ensinam sem perceber que estão ensinando. Se a gente estava em um impasse, sem saber como montar o desfecho de determinada cena, ele dizia:
“Veja aqui, Ivan, como Clouzot (Henri-Georges Clouzot) montou uma cena de caminhão despencando da ribanceira em Le Salaire de la Peur (O salário do medo).”
Serran ia até uma prateleira, pegava uma fita de VHS e rodava o filme (de 1953), em preto-e-branco, até o trecho que queria mostrar.
Se o caro amigo leitor gosta de minhas crônicas, saiba que elas são produto de quase 70 anos de aprendizado ininterrupto e das críticas que recebo de leitores, inclusive, e principalmente, dos que mostram meus erros e defeitos.

Roberto Campos costumava dizer ao meu pai que a velhice só chega quando a pessoa perde o gosto por estudar, por aprender, por saber quais são as novidades nos diversos campos do conhecimento. Se isso é verdade, eu, mesmo chegando aos 80, sou relativamente jovem. E, quem sabe, morrerei jovem.
O conselho que dou àqueles que querem investir melhor seu dinheiro, ou fazer do mercado de capitais uma profissão, é simples e direto:
Escutem as outras pessoas, aprendam com aqueles que acertam e, mais ainda, com os que erram.
“Speak your truth quietly and clearly, and listen to others, even the dull and ignorant: they too have their story.” (Fale sua verdade, mansa e claramente, e ouça a dos outros, mesmo os obtusos e ignorantes; eles também têm a sua história).
Isso data de 1692 e está gravado na antiga igreja de São Paulo, em Baltimore, EUA. O autor é desconhecido. m/
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