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Vinícius Pinheiro
Vinícius Pinheiro
Formado em jornalismo, com MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela FIA. Trabalhou por 18 anos nas principais redações do país, como Agência Estado/Broadcast, Gazeta Mercantil e Valor Econômico. É coautor do ensaio “Plínio Marcos, a crônica dos que não têm voz" (Boitempo) e escreveu os romances “O Roteirista” (Rocco) e “Abandonado” (Geração).
Eleições 2018

Os 5 porquês: as razões da preferência do mercado por Bolsonaro

Como não voto em Bolsonaro e sou cético quanto à conversão dele à doutrina liberal, procurei entender as razões da adesão ao candidato. Afinal, não se trata apenas de uma preferência. Os investidores estão botando dinheiro nisso

5 de outubro de 2018
15:48 - atualizado às 16:33
Bolsonaro tem Paulo Guedes, o "Posto Ipiranga", como grande fiador da candidatura - Imagem: Gabriela Korossy/Câmara dos Deputados

Se eu aprendi algo nestes longos anos de cobertura do mercado financeiro foi que os preços (quase) nunca mentem. E não pode haver sinal mais claro da preferência dos investidores por Jair Bolsonaro do que o movimento de queda do dólar e de alta da bolsa nas últimas semanas.

Em outras palavras, quando um investidor compra ações e vende dólares depois de uma pesquisa eleitoral favorável ao candidato do PSL, não se trata apenas de uma preferência. Ele está botando dinheiro nisso.

Como não sou eleitor de Bolsonaro e sou cético quanto à conversão dele à doutrina liberal, procurei entender as razões da adesão do tal mercado ao candidato. Nas últimas semanas estive com gestores de fundos que movimentam alguns bilhões e também com profissionais de bancos em busca da(s) resposta(s).

Do ponto de vista puramente ideológico, há quem condene as opiniões do candidato sobre temas como direitos humanos e minorias, e também quem considere exageradas as críticas às posições do capitão. Mas nada disso entra na conta.

Tudo o que o mercado quer saber é como a economia vai se comportar imediatamente depois das eleições. E hoje a avaliação é que ela se sairá melhor com Bolsonaro do que com o petista Fernando Haddad. E isso significa bolsa para cima e dólar em queda, pelo menos enquanto essa lua de mel durar. Os motivos variam conforme o interlocutor, por isso procurei resumi-los em cinco grandes temas:

1. Paulo Guedes

O Posto Ipiranga de Bolsonaro é o grande fiador do candidato do PSL. O anúncio antecipado de Guedes como uma espécie de “superministro” foi um gol de placa da campanha. O economista é reconhecido como um “liberal de verdade”, até mais que do que figuras respeitadas no mercado como Persio Arida, o ministro da Fazenda em um improvável governo Alckmin.

Na prática, isso significa que os investidores veem uma grande chance de que Guedes consiga, pelo menos no início, com os ventos da economia soprando a favor, imprimir uma agenda de redução do Estado. Ou seja, com menos carga tributária e melhora no ambiente de negócios para as empresas, o que tende a beneficiar as ações na bolsa.

2. Medo do PT

O mercado enxerga dois PTs distintos. O do primeiro governo Lula, que conseguiu combinar a agenda social com uma gestão fiscal responsável, e o da tenebrosa Nova Matriz Econômica, que levou a economia para o buraco na gestão de Dilma Rousseff. Os gestores com quem conversei veem Haddad como moderado e, de longe, um dos melhores quadros do partido hoje. Mas as promessas do petista de revogar medidas como o teto de gastos e a reforma trabalhista ajudaram a colocar os investidores no colo de Bolsonaro.

3. Manutenção da política econômica

A adesão a Bolsonaro não significa que o mercado tenha comprado cegamente a conversão do candidato a uma agenda liberal. Como deputado, ele sempre se posicionou contra reformas na economia. Mas os investidores que eu ouvi acreditam que a simples manutenção do curso atual da política econômica, com as medidas de ajuste propostas por Paulo Guedes, já seria melhor do que uma possível aventura com Haddad.

4. Privatizações

Reparou que as ações das empresas estatais são as que mais sobem conforme aumentam as chances de vitória de Bolsonaro? A resposta para esse movimento atende por uma palavra que soa como música para o mercado financeiro: privatizações. Paulo Guedes tem alardeado uma conta (equivocada) de que a venda das empresas estatais renderia R$ 1 trilhão para os cofres do governo. Mesmo que Bolsonaro não embarque no discurso de seu assessor econômico, os investidores acreditam que a eleição do candidato do PSL evita a possibilidade do uso político das empresas que provavelmente ocorreria em uma gestão petista.

5. Efeito manada

Os gestores de fundos com quem eu conversei geralmente respondem com um sorriso no canto do rosto quando pergunto se acreditam em uma gestão liberal de Bolsonaro. Sim, é claro que eles desconfiam. Mas como a maior parte dos investidores comprou esse Bolsonaro liberal na economia, simplesmente não dá para ficar de fora desse movimento.

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