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Josette Goulart
Bastidores do debate do SBT

Haddad leva faixa preta em Aikido, mas não encontra adversário

Sem o Bolsonaro, o debate perdeu o apelo. Haddad foi o mais atacado e Cabo Daciolo garantiu risos. Glória a Deus!

27 de setembro de 2018
10:20 - atualizado às 15:37
Presidenciável Fernando Haddad (PT) e consultora de comunicação Olga Curado - Imagem: Marcelo Chello/Seu Dinheiro

O candidato do PT, Fernando Haddad, tem circulado por todo e qualquer lugar que vá com uma espécie de sombra. Uma mulher de cabelos grisalhos, que não desgruda os olhos do candidato, não desgruda o ouvido das perguntas dos jornalistas, não deixa escapar nada. Quase não pisca. Trata-se de Olga Curado, uma jornalista das antigas, que foi diretora de jornalismo da Rede Globo e hoje se dedica a ajudar as pessoas a se posicionar e se comunicar. Seja um executivo, um porta-voz da empresa ou um candidato a presidente. E foi ao lado de Olga que Haddad chegou para o debate dos presidenciáveis SBT na quarta-feira (26). Só que o seu principal adversário – o líder das pesquisas, Jair Bolsonaro – está internado e não foi.

Olga é faixa preta em Aikido. Não sou especialistas em artes marciais, mas acredito que a única luta japonesa em que o objetivo não é ganhar ou perder. Mas suas técnicas permitem que você derrube o adversário, com movimentos suaves, usando a força dele contra ele mesmo. É uma coisa meio Pai Mei, mestre em Kung fu do filme Kill Bill, que ensinou sua pupila a matar o adversário pelo método dos cinco pontos.

Mas por que viemos parar no Aikido? É que Olga usa as técnicas desta arte marcial para treinar seus clientes. Eles literalmente participam de uma aula em seu estúdio, em São Paulo, em que o objetivo é mostrar que você precisa de equilíbrio para atacar o adversário usando a energia do próprio inimigo. Algo mais ou menos como fez Haddad na entrevista do Jornal Nacional, em que deixou os entrevistadores William Bonner e Renata Vasconcelos muitas vezes sem ação diante de seu poder de continuar respondendo perguntas mesmo quando eles queriam interromper.

Na saída do debate, chamei Olga para uma conversa. Ela não costuma dar entrevistas, mas me deu uma colher de chá porque já fui sua cliente na época em que trabalhei no mundo corporativo. Perguntei se Haddad tinha feito o treinamento do Aikido. Ela não respondeu e saiu correndo. Para mim, ficou certo que ele fez.

Como foi o debate?

Sem o líder das pesquisas presente, o debate perdeu um pouco o apelo. Jair Bolsonaro ainda está no hospital depois que sofreu um ataque à faca há algumas semanas. O mercado financeiro, que está de olho vivo nas pesquisas, vai ter que esperar o debate da Globo para assistir um embate entre Haddad e Bolsonaro. Será que ele se recupera ou só vamos assistir a briga no segundo turno?

Na falta de Bolsonaro, Haddad era o candidato mais bem colocado nas pesquisas presente no debate. Talvez por isso foi também o mais atacado, especialmente por Ciro e Marina, que tentam roubar votos do PT especialmente no Nordeste. Seu desempenho foi até razoável. Se enrolou um pouco na questão do impeachment da Dilma e seus acordos com Renan Calheiros, que apoiou o impeachment, mas nada que o comprometesse muito seriamente. Lula já não estava tão presente nas falas do vice que virou candidato, apesar de estar transferindo fortemente seus votos para Haddad.

Esta está sendo uma disputa tão sui generis que será difícil ter um debate com a presença de todos os principais candidatos. Os primeiros, na Band, Rede TV, Lula ainda era candidato e por estar preso não pode participar. Mas o Twitter não se abalou com a ausência de Bolsonaro. A hashtag #debateSBT esteve entre os trending topics. Um dos responsáveis foi sem dúvida o Cabo Daciolo.

EU ESTIVE LÁ: Confira fotos dos bastidores do debate entre presidenciáveis no SBT

Gló-ri-a a Deush

Nação brasileira, Glória a Deus. Na verdade, a pronúncia é um pouco mais pausada: Gló-ri-a a Deush, puxando o “s” no final para dar o sotaque carioca. Se você está um pouco desligado da vida política pode não saber que um dos candidatos à presidência, certamente o mais divertido deles, usa este bordão empunhando uma Bíblia em cada debate que participa.

Cabo Daciolo é o nome de guerra dele. De batismo, é Benevuto Daciolo Fonseca dos Santos. O cabo passou os últimos 21 dias orando em um monte, perto da cidade do Rio de Janeiro, pela recuperação de Bolsonaro. Não, você não leu errado, em um monte, como o monte das Oliveiras. Ontem ele desceu do monte só para poder participar do debate do SBT, em parceria com Folha e UOL.

Pegou seu Corolla, algum ano desatualizado, e veio do Rio a São Paulo. De carro, porque ele não gasta dinheiro. Até agora sua campanha gastou míseros 738 reais. De novo, você não leu errado. É isso mesmo, 738 reais. E ele não decepcionou o telespectador.

Cabo Daciolo antes de debate no SBT - Imagem: Marcelo Chello/Seu Dinheiro

Daciolo é assim desde o primeiro debate entre presenciáveis, realizado pela Band ainda em meados de agosto. Surpreende. Anima. Acorda quem já está ficando entediado. Arranca risadas nos bastidores. Naquele debate, no primeiro, acusou Ciro Gomes de estar por trás da Ursal, a união das repúblicas socialistas da América Latina. O que seria uma releitura da União Soviética. Algo inventado, mas que há quem diga que exista de verdade. Ciro respondeu que a democracia era assim, uma delícia. Cabo Daciolo não deixou por menos, devolveu a fala no debate de ontem ao confrontar novamente Ciro Gomes. “A democracia é uma delícia. Ficou doente e correu para o Sírio Libanês. Por que não foi para hospital público?”.

Ciro Gomes que sempre se diverte com as falas do Cabo, com um sorrisinho de canto no rosto, ficou sério e foi firme na reposta: “estou entre os 20% dos privilegiados do País que têm condições de pagar por um plano de saúde, mas quando me tornar presidente vou mudar isto”. Há uma razão de ser para de repente Ciro Gomes ficar sério e atento. Num debate, o presidenciável não pode errar. No minuto seguinte seu erro estará escancarado em um meme, circulando pelos grupos de família de WhatsApp, e vira tema de matérias.

Debate dá voto?

Ricardo Amaral, jornalista que trabalha para o PT há algumas dezenas de anos e que participou das ultimas três campanhas presidenciais, conversando comigo ontem nos bastidores do SBT, reforçou que candidato não pode errar. Mas minimizou a importância dos debates para se ganhar votos. Talvez um bom exemplo seja Marina Silva.

Marina vem perdendo pontos, pesquisa após pesquisa, mesmo entre o eleitorado feminino apesar de no debate da Rede TV ter tido um dos melhores momentos ao enfrentar Bolsonaro sobre a necessidade de igualar salário de homens e mulheres. O desempenho foi aplaudido em redes sociais, mas não trouxe votos.

Marina tenta manter o humor, mas na tela da televisão quando as imagens dos dois candidatos são colocadas lado a lado, ela aparece sempre com cara de brava, ressaltada pelas rugas profundas da idade entre os olhos. O treinamento que faz para os debates é um grande bate papo, segundo contam alguns de seus assessores.

Vitória por W.O. ao contrário

Há quem diga que estar no hospital é uma vantagem para Bolsonaro. Ele não é confrontado por seus adversários e tampouco precisa se explicar pelo fato de não estar presente – já que está hospitalizado.

Bolsonaro passa a imagem de que pouco se preocupa com estratégias tradicionais de campanha, se vangloria de não ter assessores, de se auto preparar para entrevistas e debates. Em boa parte, é verdade que sua campanha não tem a organização ou o dinheiro de adversários como Geraldo Alckmin ou Henrique Meirelles.

Mas está longe de ser uma campanha tão despreocupada. Ontem, seu marqueteiro digital, Marcos Carvalho, estava no debate. Perguntei se Bolsonaro iria ver o programa pela TV, ao que ele respondeu que “claro que não”. Menosprezou o evento. No entanto, estava lá.

A estratégia declarada de Bolsonaro é ganhar no primeiro turno. Assim, seus adversários neste momento são quase todos. Haddad porque é o rival que mais cresce nas pesquisas e também com quem antagoniza o ódio reinante nesta disputa. Mas Alckmin, Alvaro Dias e João Amoedo, são os caras de quem quer tirar voto.

Pra não dizer que não falei de Alckmin

Geraldo Alckmin chega para debate do SBT - Imagem: Marcelo Chello/Seu Dinheiro

Alckmin ontem foi chamado de “Sergio Cabral que não foi preso” por Guilherme Boulos, do PSOL. Boulos é daqueles candidatos que seus adversários temem quando vai fazer pergunta. Está sempre preparado com perguntas fortes, embasadas e polêmicas. Ontem atacou mais o Alckmin, mas em outros debates seu alvo preferido era Henrique Meirelles.

Meirelles foi presidente do conselho de administração da J&F, do Joesley Batista. Tem um patrimônio de R$ 377 milhões e é chamado de banqueiro nos debates. Ontem ele disse que nunca foi banqueiro, era bancário. Declaração ótima para que eu pudesse perguntar a ele no fim do debate como um ex-bancário tinha conseguido saltar de um patrimônio de R$ 45 milhões em 2002, quando Meirelles deixou o BankBoston, para os quase R$ 400 milhões declarado agora. Foi a inflação, explicou ele.

Ele só omitiu que em 2015 e 2016 registrou dividendos de sua empresa de consultoria, que faturava também para os donos da JBS, de mais de R$ 200 milhões. Só na campanha Meirelles já gastou R$ 45 milhões de seu patrimônio pessoal. Nem os 2% na pesquisa o abalam de seu objetivo de ser presidente. Ele tampouco se abala com as investidas de Boulos nos debates, já que muitas vezes somente finge responder as perguntas. Estava de boa, até porque ontem Boulos estava mais para atacar o Alckmin. “Cadê o dinheiro da merenda?”, quis saber.

Alckmin está sempre impassível com um sorrisinho no rosto. Nos debates no Brasil, os candidatos não se olham diretamente. Ficam olhando para a câmera. o que facilita manter o sorrisinho. O sorrisinho de Alckmin não desaparece nem quando é comparado a Sergio Cabral, o ex-governador do Rio que está preso por corrupção. Chegou ao debate e não falou com a imprensa – os jornalistas ficam pendurados nas grades para tentar pescar alguma declaração mais polêmica nos intervalos. Quando terminou o programa, saiu tão depressa que quase não foi notado.

Falar pra que? Alckmin vive um inferno astral em sua campanha. Não decolou até agora nas pesquisas e não param de surgir notícias sobre um possível acordo entre os candidatos de centro para tentar combater a polarização Haddad x Bolsonaro. Por uma destas ironias, seu marqueteiro é o Lula. Lula Guimarães. No debate da Rede TV, há cerca de um mês, Lula me contou que acreditava ser um desperdício gastar dinheiro com marketing no Facebook. As apostas do PSDB na época eram no grande acordo que tinha feito para ganhar tempo no horário eleitoral. Até agora, a propaganda na TV não surtiu efeito. E o fogo amigo dentro do partido não está ajudando.

Dos políticos que Bolsonaro quer tirar votos estão ainda Alvaro Dias e João Amoedo. Alvaro Dias parece o coringa, do filme do Batman, dizem as más línguas nos bastidores. Já Amoedo é o grande ausente. A legislação eleitoral obriga que as emissoras de TV convidem candidatos dos partidos que tenham pelo menos cinco congressistas. O Novo, de Amoedo, é novo demais. Não tem o número de congressistas suficiente.

A Rede Globo, que fará o debate considerado o mais importante da disputa eleitoral pela sua grande audiência e por se dar no último dia de campanha (três dias antes da eleição), definiu que Amoedo poderá participar se tiver 6% das intenções de voto na pesquisa Datafolha, que sairá no fim da semana. Ele tinha 3% na última pesquisa.

Mas não só Amoedo ficará de fora. Cabo Daciolo também pode não ser convidado. O Tribunal Superior Eleitoral considera que o Patriotas, o partido de Daciolo, só tem 4 congressistas. O quinto foi anexado depois do prazo. Perguntei ao Daciolo sobre o desconvite. “É mentira”, disse ele. “Nós temos que avisar para a Globo que ela só precisa ter medo e temor de Deus. Não precisa ter medo e temor de Daciolo não”. Na sequência, no entanto, emenda: “Fala para dona rede Globo que quero estar lá para falar umas verdades de quem é a Rede Globo”.

Se o cabo não for, o debate poderá ficar menos animado? Não sei não. Tudo vai depender Bolsonaro irá participar? Terá recebido alta? Essa é uma das eleições mais surreais que o Brasil já teve. É só olhar as notícias. O primeiro candidato do PT, Lula, está preso. Bolsonaro levou uma facada. Ciro foi parar no hospital por conta de um problema na próstata. Candidatos dando entrevistas em montes sagrados. Uma coisa é certa, em 20 anos de carreira, e eu não poderia ter escolhido melhor a minha estreia no jornalismo político. Notícia é o que não vai faltar até o fim desta corrida.

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