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Potência que dá espaço a processamento, baterias de sódio e IA agêntica foram destaques do automobilismo na prestigiada feira de tecnologia em Las Vegas; o que esperar dos veículos que pensam e agem sozinhos?

A Consumer Electronics Show, ou CES 2026, realizada em Las Vegas entre 6 e 9 de janeiro, não foi apenas mais uma feira de tecnologia. Ela foi o marco zero de uma nova ordem econômica para a indústria automobilística mundial.
Se nos últimos cinco anos o mantra das montadoras e investidores era a eletrificação a qualquer custo, o evento deste ano revelou que o mercado pisou no freio do hardware. No lugar, ele acelera no software e na inteligência artificial aplicada.
O foco agora não é apenas o que move o carro, mas como o carro pensa e interage com o ecossistema urbano. E mais uma constatação: o automóvel deixou de ser um bem de consumo durável convencional para se tornar um terminal de serviços recorrentes e de IA física.

A grande mudança de paradigma que dominou os pavilhões do Las Vegas Convention Center foi o conceito de Software Defined Vehicle (SDV), ou Veículo Definido por Software. Na prática, isso significa que a arquitetura do automóvel foi redesenhada para que o software controle quase todas as funções, do motor ao entretenimento.

Para as montadoras, essa transição da graxa para o código é a chave para a sobrevivência financeira. Ao centralizar as funções em chips de processamento potentes – como os da NVIDIA, Qualcomm e NXP – as marcas conseguem manter o carro atualizado e jovem por muito mais tempo. Isso ocorre através de downloads via nuvem. A ideia é criar novas linhas de receita baseadas em assinaturas, exatamente como o modelo de negócios das gigantes de tecnologia do Vale do Silício.

Um dos projetos mais emblemáticos dessa nova era é o Afeela 1, sedã elétrico da Sony Honda Mobility. Com entregas previstas para o final de 2026 e preço estimado em US$ 89.900, o modelo subverte a lógica automotiva ao se apresentar como um hub de entretenimento móvel.
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É o primeiro veículo a integrar o PlayStation Remote Play, permitindo que passageiros desfrutem de títulos do PS5 em uma tela panorâmica de 40 polegadas que domina o painel. O projeto ilustra a monetização do tempo de deslocamento. Assim, em um cenário onde o carro assume a direção, a Sony se posiciona para capturar a atenção – e o capital – do usuário.

Acompanhando esse movimento, montadoras tradicionais como BMW e Mercedes-Benz demonstraram que a inteligência artificial agora é agêntica. Diferentemente da IA generativa, que apenas cria conteúdos, a agêntica é capaz de planejar e agir. No automóvel, ela evolui de um simples comando de voz para um copiloto proativo, capaz de gerenciar rotinas, resolver imprevistos e agendar manutenções de forma autônoma.

Na BMW, a estrela foi o novo iX3, da linha Neue Klasse, que estreia o assistente Amazon Alexa+. Graças aos modelos de linguagem de larga escala (LLM), o veículo sustenta diálogos contextuais. É possível, por exemplo, consultar o nível da bateria e, no mesmo fôlego, solicitar a reserva em um restaurante específico no trajeto.

Já a Mercedes-Benz consolidou seu sistema MB.OS como uma plataforma agnóstica, integrando o Google Gemini e o Microsoft Copilot. Ao permitir que gigantes do software gerenciem a produtividade e o lazer a bordo, portanto, a marca resolve o problema histórico da obsolescência tecnológica dos painéis originais.

Essa simbiose com o Vale do Silício redefine o balanço financeiro das companhias. O carro transforma-se em um terminal de serviços e microtransações. Assim, o lucro flui por meio de pagamentos automáticos de pedágios e assinaturas mensais. Estas, por sua vez, podem liberar desde cavalaria extra para o motor até recursos avançados de direção autônoma. No mercado de seminovos, essa atualização constante via software garante um valor de revenda superior.
A espinha dorsal dessa revolução atende pelo nome de Nvidia. Sob a liderança de Jensen Huang, a empresa apresentou a plataforma Alpamayo, que permite ao carro “pensar” diante de situações imprevistas, como um pedestre fora da faixa.

A Mercedes-Benz será a primeira a levar essa tecnologia às ruas no novo CLA, no início de 2026. Para a Mercedes, a adoção da plataforma reduziu o tempo de implementação de novos modelos de IA de meses para apenas cinco semanas. Dessa forma, permitiu respostas ágeis às tendências de mercado sem os custos bilionários de um desenvolvimento de software proprietário do zero.

Se em anos anteriores o carro autônomo parecia uma promessa distante, a CES 2026 provou que o modelo de negócios dos robotáxis amadureceu. Atualmente, ele está pronto para a escala comercial.
A Waymo (da Alphabet/Google) apresentou o Ojai, um robotáxi baseado na minivan elétrica da marca chinesa Zeekr (do grupo Geely). Com um sistema de sensores de sexta geração que reduziu o número de câmeras e radares necessários sem perder a precisão, a Waymo planeja expandir suas operações para mais de 24 cidades até o final de 2026.

Contudo, o projeto que mais atraiu flashes foi a colaboração de luxo entre Lucid, Nuro e Uber. O trio revelou um robotáxi baseado no SUV Lucid Gravity, projetado para oferecer uma experiência de primeira classe sem motorista.
Com capacidade para seis passageiros e independência por 724 km, o veículo utiliza a plataforma Nvidia Drive AGX Thor para alcançar o nível 4 de autonomia. Com ela, o carro faz tudo sozinho em áreas mapeadas. A Uber, que investiu US$ 300 milhões no projeto, vê aqui a solução para eliminar o custo do condutor humano em rotas urbanas premium. Assim, ela aumenta significativamente suas margens de lucro.
O grupo Hyundai Motor elevou o debate para um novo nível com sua estratégia de IA física. No palco da CES, o robô humanoide Atlas, da Boston Dynamics (subsidiária da Hyundai), fez demonstrações ao vivo de sua agilidade 100% elétrica.

Mas o interesse da Hyundai não é apenas vender robôs; é transformar suas fábricas. O plano é integrar o Atlas na rede de manufatura global da marca, começando pela nova fábrica na Geórgia, EUA, ainda este ano. O objetivo é que robôs assumam tarefas exaustivas e perigosas, permitindo que as fábricas definidas por software funcionem com uma eficiência energética e produtiva nunca antes vista. É a robótica saindo dos laboratórios de pesquisa para se tornar um ativo financeiro direto na contabilidade industrial.

Para o Brasil, as notícias mais relevantes vieram do Oriente. A GWM, que já tem uma presença forte no mercado nacional, lançou seu White Paper Global de Tecnologia, com a nova arquitetura eletrônica 4.0. O destaque foi a bateria de estado semissólido de 140 Ah.

Para um país com dimensões territoriais gigantescas como o Brasil, essa tecnologia é revolucionária. Ela promete autonomias de até 1.000 km e uma recarga ultrarrápida, eliminando a ansiedade de alcance que ainda impede muitos brasileiros de comprar um elétrico. Além disso, a GWM confirmou que sua tecnologia híbrida Hi4 continuará sendo o pilar para mercados emergentes, garantindo que o Brasil receba atualizações constantes em modelos de maior volume, como o Haval H6.

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A Geely Auto, outra gigante chinesa, apresentou o Full-Domain AI 2.0, uma arquitetura que unifica toda a inteligência do carro em um único sistema operacional centralizado. A estratégia da Geely é usar a IA para criar carros mais baratos e seguros, atacando as montadoras europeias em seu próprio terreno.
No Brasil, onde a Geely opera junto com a Renault e produzirá um híbrido no Paraná, essas inovações chegarão rapidamente. Isso porque que o hardware chinês está cada vez mais otimizado para produção em larga escala com custos reduzidos.
Ainda no campo da infraestrutura e componentes, a Clarios (proprietária da marca Heliar no Brasil) anunciou avanços decisivos nas baterias de íons de sódio. Em parceria com a sueca Altris, a Clarios pretende iniciar a produção em série dessas baterias antes de 2030.
Por que isso importa para o bolso? As baterias de sódio são muito mais baratas que as de lítio. Elas utilizam materiais abundantes, o que pode reduzir drasticamente o preço final dos veículos de entrada, afinal.
No Brasil, onde a Clarios equipa dois em cada três veículos produzidos, essa tecnologia é a grande aposta para “democratizar” a eletrificação em massa.
Até 2025, o custo das baterias de lítio (LFP) girava em torno de US$ 80 a US$ 100 por kWh. Na CES 2026, as projeções indicaram que as células de sódio podem atingir US$ 40 por kWh em escala industrial.
Diferentemente do lítio, cujos preços são voláteis e dominados por poucos players globais, o sódio é abundante e barato. Para a indústria brasileira, isso reduz a dependência de importações e protege as montadoras de flutuações cambiais.
As baterias de sódio apresentadas pela Clarios e pela CATL demonstraram estabilidade térmica superior. No Brasil, isso significa, por exemplo, sistemas de arrefecimento menos complexos e caros, o que pode reduzir ainda mais o custo final do veículo elétrico a fim de torná-lo mais acessível.
Com a produção em série prevista para o final da década, a substituição de baterias – atualmente o maior medo do consumidor brasileiro – deixará de ser um impeditivo financeiro.
O sódio permite uma economia circular mais eficiente, facilitando, portanto, a reciclagem em solo nacional. Para o setor de logística e frotas, o retorno sobre o investimento (ROI) será alcançado em quase metade do tempo previsto para os modelos de lítio.
Nos bastidores da feira, a alemã Schaeffler apresentou um componente pequeno, mas vital: um atuador de engrenagem planetária desenvolvido exclusivamente para robôs humanoides.
Com a meta de consolidar a liderança nesse mercado que avança rápido, a Schaeffler provou que a expertise automotiva em transmissão e torque é o que vai permitir que robôs como o Atlas, por exemplo, se movam com a fluidez de um atleta.
Já a francesa Valeo surpreendeu com o Scala 3 Evo. Trata-se de um sensor LiDAR tão compacto que pode ser instalado atrás do para-brisa, sem comprometer o design do carro, mas capaz de detectar objetos pequenos a 300 metros de distância – uma peça-chave para a segurança dos novos sistemas autônomos da Mercedes e da BMW.
Para os entusiastas da mobilidade aérea, a CES 2026 trouxe os eVTOLs (veículos elétricos de pouso e decolagem vertical) ultraleves. Eles não exigem licença de piloto nos EUA por se enquadrarem em categorias de lazer.
O Rictor X4, por exemplo, é um pod dobrável que custa US$ 39.900 (preço de um SUV médio) e pode voar a 80 km/h por 20 minutos. Embora ainda longe da realidade cotidiana das cidades brasileiras, o avanço regulatório e a participação de empresas como a Embraer (via Eve) nas discussões de Las Vegas mostram que o céu das metrópoles está sendo loteado pelos mesmos algoritmos que agora regem as ruas.
A CES 2026 mostrou uma lição de realismo econômico: a eletrificação é o destino e a inteligência é o caminho para o lucro. O setor automotivo parou de tentar vender cavalos de potência e começou a vender capacidade de processamento.
Para o investidor e para o consumidor, portanto, o recado de Las Vegas é que o valor de um automóvel agora é medido pela sua capacidade de evoluir com o tempo, de proteger seus ocupantes de forma autônoma e de se integrar perfeitamente à vida digital. O futuro chegou, e ele não fala apenas de voltagem, mas de algoritmos, dados e inteligência artificial física.
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