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De peptídeos que imitam a biologia a ingredientes de biofermentação, a indústria de cosméticos avança em tecnologia – mas o que há de fato comprovado por trás dos rótulos que prometem "reprogramar a pele"?

Os clássicos da rotina de skincare, como niacinamida, ácido hialurônico e vitamina C, começam a dividir espaço com uma nova geração de ativos cosméticos. Impulsionado por inovações tecnológicas, o mercado de beleza vive um momento de apostas ousadas em ingredientes high-tech que prometem transformar a forma de cuidar da pele.
Termos como peptídeos biomiméticos, exossomos, probióticos e PDRN migraram dos laboratórios para as embalagens, acompanhados de preços elevados e de um discurso que flerta com a reprogramação celular e até a Inteligência Artificial.
Diante desse cenário, surge a dúvida: o que é ciência e o que é marketing no universo do skincare tecnológico?

A tecnologia, de fato, chegou para modificar o setor de forma definitiva. “É natural que, em uma era extremamente tecnológica como a que vivemos, a tecnologia chegue ao skincare”, afirma Soon Hee, CEO e CRDO da Amakos da Amazônia. Ela aponta que o avanço será percebido em múltiplas frentes, desde o diagnóstico e avaliação da pele até um maior conhecimento sobre seu funcionamento e epigenética. Para a executiva, o futuro é inegavelmente tecnológico, visível tanto em equipamentos como máscaras de LED e aparelhos de limpeza sônica, quanto no desenvolvimento de novos ativos.
Um dos pilares dessa evolução é a biotecnologia. Ingredientes obtidos por esse meio, como afirma Nathalia Harnam, diretora de comunicação científica do Grupo L’Oréal, “vem revolucionando o mercado dermocosmético”. A grande vantagem, segundo ela, é a “ótima biodisponibilidade e grau de pureza refletindo alta eficácia e segurança”. Como exemplo, Harnam cita o Madecassoside, um extrato purificado da Centella Asiática com ação anti-inflamatória e reparadora, e o Aqua Posae filiformis, um pós-biótico que reequilibra o microbioma da pele.
A dermatologista Daniela Suzuki Locatelli, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, concorda que há ciência em evolução, mas pondera. “Atualmente, temos diversos estudos com peptídeos biomiméticos, ativos que conseguem estimular processos específicos da pele, como síntese de colágeno e melhora da barreira cutânea”, explica. No entanto, ela adverte que outros ativos estão em estágios menos avançados de comprovação.
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“Exossomos e PDRN estão em fase promissora, mas a maior parte das evidências ainda vem de estudos experimentais, e não de ensaios clínicos robustos”. Para ela, é preciso separar o que já tem base sólida do que ainda é promessa. “Acredito que há evolução e novos ativos promissores, mas também bastante marketing misturado”.
A expansão tecnológica movimenta cifras bilionárias globalmente. O mercado mundial de skincare já ultrapassa US$ 115 bilhões anuais, impulsionado pelo crescimento acelerado de produtos que prometem eficácia científica e personalização.
O Brasil ocupa uma posição central nesse cenário. Consolidado como um dos maiores mercados de beleza do mundo, o país movimenta cerca de US$ 30 bilhões por ano no segmento – com um consumidor cada vez mais atento e exigente. De acordo com dados do setor, 91,9% dos brasileiros priorizam eficácia comprovada na hora de escolher um produto de skincare, acima de slogans de “beleza limpa”.
Essa mudança de comportamento, aliás, tem consequências diretas para a indústria. Gigantes globais investem bilhões em pesquisa e desenvolvimento em busca de novas moléculas patenteáveis. Em 2023, por exemplo, a L’Oréal destinou cerca de US$ 1,4 bilhão apenas em P&D – um aumento de mais de 16% em relação ao ano anterior.
Paralelamente, marcas nativas digitais desafiam o mercado ao oferecer fórmulas com altas concentrações de ativos consagrados a preços mais acessíveis, reforçando uma tendência clara: apenas 14% dos consumidores ainda acreditam que preço elevado significa qualidade superior.

A linha tênue entre a comunicação de uma descoberta e a sua comprovação real é um dos pontos mais críticos.
Nathalia Harnam, da L'Oréal, admite que, do ponto de vista regulatório, as exigências de comprovação são mínimas, o que “dificulta para o consumidor discernir atualmente o que é verdadeiro ou não”. A responsabilidade, de acordo com ela, recai sobre as marcas. “O nível de comprovação em dermocosméticos fica mais a critério das marcas e por isso é importante que os usuários fiquem atentos às marcas que realmente tem compromisso com pesquisa e inovação”.
Questionada como as empresas decidem quais ativos high-tech devem ser incorporados, Harnam conclui: “Através de pesquisas e consistência de resultados e segurança. É importante resistir aos hypes do mercado e incluir ingredientes que sejam realmente relevantes terapeuticamente”.
Essa percepção é a mesma de Soon Hee, que alerta para a necessidade de um consumidor mais informado. “É muito importante saber quem conduz a pesquisa, quem é o fornecedor daquele ativo e quais são as comprovações científicas e os testes feitos. Isso para separar o que é puro marketing – que promete um rejuvenescimento em uma semana, o que sabemos ser impossível”.
A cosmetóloga Roseli Siqueira adota uma visão ainda mais crítica, especialmente em relação a procedimentos dermatológicos invasivos. De acordo com ela, trata-se do impulso de um marketing poderoso.
"Costumo ver pessoas com a pele fraca, sem vida e com pouco colágeno, porque o estímulo de colágeno na área médica acaba forçando demais as células.” Ela contrapõe esses métodos a abordagens que, em sua visão, respeitam a biologia da pele, como a fotoindução biológica, um tratamento baseado em magnetismo.
Para Siqueira, o foco excessivo em tecnologias agressivas gera dependência e fragiliza a pele. “Vejo o marketing como poderoso, mas a parte científica fica a desejar”.
Com a sofisticação dos ingredientes e do discurso, os preços dos produtos high-tech costumam ser significativamente mais altos. A questão que fica para o consumidor é se o investimento se traduz em resultados superiores.
A Dra. Locatelli é cética: “Isso nem sempre é verdade”. Ela explica que “muitos produtos têm custo elevado pelo tipo de tecnologia envolvida, pesquisa e até mesmo embalagem, mas isso não garante performance”.
A real diferenciação, de acordo com os especialistas, está na precisão. “Os ativos tecnológicos buscam mimetizar mecanismos biológicos, enquanto os clássicos (como retinol, ácido hialurônico e vitamina C) atuam em vias já bem conhecidas”, detalha Locatelli.
A promessa é que “as novas moléculas entregariam resultados com menor risco de irritação e maior eficácia no resultado”, segue a dermatologista. Na prática clínica, contudo, a melhor abordagem parece ser a combinação. “O ideal é combinar ambos: ativos novos e tecnológicos e os tradicionais”.
Promessas como “regeneração celular” e “reprogramação da pele”, por exemplo, também são colocadas em perspectiva. “Sabemos que nenhum cosmético tópico reprograma células de verdade, o que ele faz é melhorar o ambiente cutâneo, reduzindo inflamação e otimizando a comunicação celular”, esclarece a dermatologista. Promessas de “substituir procedimentos” ou “efeito lifting imediato” devem ser vistas com a mesma cautela.

A inteligência artificial já desempenha um papel no desenvolvimento de novos ativos. Nathalia Harnam revela que o ativo patenteado Melasyl™ “foi selecionado entre 100.000 moléculas durante o processo de desenvolvimento através da IA”. A tendência é que a tecnologia avance para uma personalização cada vez maior.
“Já vemos a IA sendo utilizada para analisar a pele e indicar rotinas personalizadas, e há pesquisas em andamento relacionando perfil genético com resposta a ativos”, afirma a Dra. Locatelli. Contudo, ela ressalta que “a tendência é que, no futuro, a prescrição seja cada vez mais precisa, mas com o olhar humano sempre por trás”.
A personalização genética, por sua vez, enfrenta desafios específicos no Brasil. “Precisamos discutir sobre a diversidade genética brasileira, que é extremamente miscigenada, não podendo receber uma extrapolação de padrão de outros países. Temos que desenvolver nosso mapeamento de identidade genética para então propor soluções e pesquisar a partir disso”, aponta Harnam.
A profissional do Grupo L’Oréal ainda prevê as apostas para os próximos anos: “O entendimento ainda mais avançado do impacto do microbioma na pele, a compreensão da neurociência e como questões psicológicas e emocionais impactam a derme”.
No final, o skincare tecnológico, por mais avançado que seja, não substitui tratamentos estéticos, mas os complementa. As especialistas concordam que a tecnologia pode potencializar resultados de procedimentos e auxiliar na recuperação da pele. Para o consumidor, a orientação é buscar informação comprovada.
“Procure sempre o nome dos ativos, concentração, estudos clínicos mencionados e laboratórios reconhecidos”, aconselha a Dra. Locatelli. A clareza nos dados e a transparência sobre as metodologias de pesquisa são fundamentais para navegar em um mercado saturado de promessas, onde a ciência avança, mas o marketing, muitas vezes, corre mais rápido.
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