Tem que aumentar mais: o que pensam os economistas que esperam mais uma elevação da Selic pelo Copom, para uma taxa terminal de 15% ao ano?
O comitê deixou o cenário em aberto na última reunião e agora o mercado está dividido entre os que esperam a manutenção dos juros e os que projetam um aumento residual de 0,25 p.p.

A maior parte do mercado financeiro tem uma expectativa para a taxa terminal deste ciclo de alta da Selic em 14,75% ao ano.
Entretanto, há uma minoria que espera um aperto maior, com aumento residual de 0,25 ponto percentual, que elevará os juros básicos a 15% ao ano — o maior patamar desde julho de 2006, quando estava em 15,25% ao ano.
A possibilidade está na mesa, afinal, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deixou em aberto o cenário para a próxima reunião, que acontecerá nos dias 17 e 18 de junho.
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O presidente do BC, Gabriel Galípolo, e os diretores do comitê têm repetido constantemente nas últimas semanas que “incerteza” é a palavra do ano, e que o maior compromisso do Copom é com a convergência da inflação para a meta de 3%.
E é justamente a convergência para a meta de inflação o principal argumento dos economistas que defendem mais um aumento na Selic.
“Os riscos inflacionários continuam relevantes, especialmente em função do PIB ainda positivo, da persistência da inflação de serviços e da pressão que os salários exercem sobre os custos”, diz Arnaldo Lima, economista da Polo Capital.
Para ele, embora o patamar de juros já esteja suficientemente contracionista, esse aumento residual é necessário para ancorar as expectativas futuras de juro e inflação e reforçar os efeitos da taxa atual na economia, que são vistos como incipientes e ainda focados em setores mais sensíveis aos juros.
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Uma questão de expectativas
O mercado começou a precificar uma Selic de 15% ao fim de 2025 em meados de novembro do ano passado, quando o governo anunciou a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês junto com as medidas de cortes de gastos.
Naquele momento, o anúncio de uma renúncia fiscal quando se esperava um orçamento mais enxuto caiu como uma bomba na “Faria Lima”, região onde se concentram as empresas que atuam no mercado financeiro paulistano.
As apostas para juro e inflação futuros dispararam no mercado de derivativos, o dólar rompeu barreiras e chegou a R$ 6,19, e instalou-se um clima de desconfiança com o governo que só se dissipou quando a bomba internacional (tarifas) de Donald Trump superou a brasileira.
O tarifaço do “Dia da Libertação” fez economistas ao redor do globo reverem seus modelos, que passaram a apontar para uma desaceleração da atividade global devido ao menor volume de transações comerciais internacionais.
Com a nova perspectiva global, as expectativas em relação à inflação e aos juros no Brasil também arrefeceram — não por um motivo interno, mas sim por questões externas.
“O Banco Central se apoiou na boia da incerteza internacional para aderir a um discurso dovish [de queda dos juros], embora a inflação corrente e projeções futuras não autorizem em nada essa mudança de orientação”, diz André Leite, CIO da TAG Investimentos.
Nesta semana, dados do mercado de trabalho indicaram uma economia bem aquecida e aumentaram as apostas na Selic em 15%. O Brasil abriu 257.528 vagas formais de trabalho em abril, enquanto a expectativa era de 175 mil vagas.
Os números fizeram a curva de juros futuros — que baliza as projeções do mercado sobre o patamar dos juros e da inflação no futuro — abrirem, indicando uma expectativa de valores maiores não somente nos trechos curtos, mas nos longos e intermediários também.
Para Leite, as expectativas ainda estão desancoradas devido ao ímpeto do governo de manter a “torneira” da economia aberta.
“O suporte fiscal do governo Lula está segurando a atividade econômica e a inflação lá em cima. Em qualquer situação normal de economia, já era para o Brasil estar entrando em recessão com um juro real perto de 9%”, diz o CIO da TAG.
André Leite espera o aumento residual de 0,25 ponto percentual pelo Copom, mas tem dúvidas em relação ao efeito que os juros a 15% terão na economia. Para ele, não é só a torneira do governo Lula que está aberta, mas a torneira do governo Trump e do governo chinês também.
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Selic vs. chuva de dinheiro
O que Luiz Inácio Lula da Silva, Donald Trump e Xi Jinping têm em comum? Apetite por liberar dinheiro na economia, ao que seus planos de governo indicam.
“O mundo não vai desacelerar, o mundo vai é acelerar. Pedal to the metal. E com isso mais inflação”, diz André Leite.
O projeto de lei que Trump chamou de “one big, beautiful bill” (um grande e lindo projeto, na tradução livre) — e gerou críticas de Elon Musk —, prevê um aumento da dívida de cerca de US$ 3,8 trilhões em dez anos ao eliminar impostos, aumentar isenções fiscais e dar mais dinheiro para a segurança nacional. O texto foi aprovado pelo Congresso americano em uma vitória grandiosa para o republicano.
Do outro lado do mundo, Xi Jinping tem despejado rios de dinheiro para estimular a economia da China, que enfrenta desafios na área de consumo, mercado de trabalho e produção industrial. Desde o ano passado, já foram liberados diversos pacotes de centenas de bilhões de dólares.
Para Leite, essas medidas comprometem a projeção de desaceleração global e aumentam as chances de aumento de renda e preços nesses países, culminando em exportação de inflação.
Somam-se a isso o próprio volume financeiro liberado no Brasil, por meio de programas de crédito e sociais do governo Lula, além do projeto de isenção do Imposto de Renda, que ainda deve tramitar no Congresso Nacional para efeitos no próximo ano.
“O mercado está com juros de 13% para o fim de 2026. Isso, hoje, nos parece fora da realidade, dadas as condições de inflação e estímulos financeiros do governo. Isso posto, a questão [dos juros] é mais política do que qualquer outra coisa”, diz André Leite. “É complicado ter uma previsão de algo que não é técnico e pende mais para o político.”
Para Arnaldo Lima, da Polo Capital, o cenário externo tende a ser mais positivo do que negativo, e com tendências desinflacionárias.
O economista acredita que a guerra comercial de Donald Trump já se acomodou e que a situação da dívida dos Estados Unidos tende para a desvalorização do dólar, o que pode contribuir para a apreciação do real.
“Essa valorização cambial, por sua vez, tende a aliviar as pressões inflacionárias de bens industrializados, compensado, em parte, as incertezas da dívida pública brasileira”, diz Lima.
IOF vai influenciar o Copom?
Se o cenário externo estava nublando as decisões do Copom até maio, em junho isso pode mudar.
A decisão do governo de aumentar as alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) pegou mal — não no mesmo nível das medidas anunciadas em novembro do ano passado, mas reacendeu a chama da desconfiança que estava no nível de brasa nos meses anteriores.
Diferentes setores passaram a calcular o impacto que a medida teria na disponibilidade de crédito, no aumento de preços, na diminuição do consumo e afins.
O aumento no IOF inclusive levou a XP a deixar o grupo das instituições financeiras que viam a Selic terminal em 15% e passar para o time das que acreditam em manutenção dos juros no patamar de 14,75% após a próxima reunião do Copom.
“O aumento do IOF não tem o mesmo impacto que uma elevação da Selic sobre as expectativas de inflação, consumo intertemporal e taxa de câmbio. Ainda assim, parece razoável afirmar que o IOF mais alto pode substituir, em nosso cenário base, a alta final de 0,25 p.p. que esperávamos para a reunião de junho”, diz o relatório assinado pelo economista Caio Megale.
André Leite e Arnaldo Lima não partilham dessa opinião.
Para o economista da Polo, embora existam sinais iniciais de inflexão no mercado de crédito devido aos juros já restritivos, como maior seletividade bancária e elevação de spreads, o crédito consignado privado — impulsionado por programas do governo — mostra expansão, potencialmente ampliando a renda disponível para a população via troca de dívidas.
“Combinados, o dinamismo do mercado de trabalho, a manutenção de um crédito forte e os vetores inflacionários persistentes indicam que a política monetária ainda não atingiu seu pico de restrição”, diz Lima, que ainda destaca a disposição do Congresso Nacional em derrubar o decreto do governo Lula que instaurou a medida de aumento do IOF.
Zebra ou não, uma coisa é certa: o horizonte em que a Selic está acima de dois dígitos se perde de vista.
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