Fed deve manter juros em 2025, e dólar pode cair mais 10%, diz Morgan Stanley
Seth Carpenter, economista-chefe do banco, alerta para efeito inflacionário das tarifas de Trump e vê espaço para mercados emergentes

Você já deve ter ouvido aquela máxima de que “o mercado sempre se antecipa”. Mas no que depender do Morgan Stanley, essa pressa pode ser um erro — pelo menos quando o assunto é o Federal Reserve.
Na contramão das apostas majoritárias, o banco americano não acredita que o Fed vai cortar os juros em 2025. Pelo contrário: acha que o BC dos EUA vai esperar mais tempo do que o mercado gostaria.
O motivo? Um fator que muitos têm subestimado: o impacto inflacionário das tarifas e da política migratória.
Em entrevista ao Valor Econômico, o economista-chefe global da instituição, Seth Carpenter, reforça a leitura de que a inflação ainda vai subir antes de cair. E isso deve manter o Fed parado por mais tempo, mesmo diante de uma economia em desaceleração.
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“Enfrentaremos uma situação em que o emprego estará bem, mas a inflação seguirá mais alta do que o Fed deseja e continuará subindo. Por isso, o banco central não vai querer cortar as taxas até ter certeza de que a inflação parou de subir e começou a cair”, afirmou.
O peso das tarifas e da imigração
Carpenter chama atenção para dois elementos que vêm ganhando força na equação da inflação americana: o tarifaço promovido por Donald Trump e a restrição severa à imigração.
Na avaliação do Morgan Stanley, as tarifas impõem pressão direta sobre os preços e devem manter a inflação elevada nos próximos trimestres, mesmo com o crescimento em desaceleração.
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O economista também pontuou que a queda na oferta de mão de obra causada pela política migratória tende a manter o mercado de trabalho artificialmente apertado, o que reduz a sinalização clássica (taxa de desemprego) que normalmente justificaria um corte de juros.
“A economia desacelera, mas a taxa de desemprego não sobe muito. Será mais difícil justificar cortes nas taxas com o mercado de trabalho aparentemente saudável”, afirmou Carpenter.
Corte de juros só em 2026, diz Morgan Stanley
Enquanto o mercado ainda aposta em algum alívio monetário nos EUA até o fim do ano, o Morgan Stanley mantém a projeção de que os juros só começarão a cair em março de 2026.
Mais do que isso: o banco vê um ciclo de cortes mais agressivo do que o precificado atualmente, com a taxa básica terminando em torno de 2,5%.
“A história sugere que a inflação causada por tarifas é temporária. Assim que houver clareza sobre a reversão, será possível cortar com mais força”, disse o economista do banco.
Neste cenário, Seth Carpenter acredita que o dólar deve perder valor frente a outras moedas globais, o que pode abrir espaço para ganhos em países emergentes, como o Brasil.
O economista também projeta uma desvalorização adicional de até 10% no valor da moeda americana, puxada tanto pelo diferencial de juros quanto por uma realocação gradual de portfólios globais. Ou seja, segundo ele, investidores institucionais começariam a reduzir exposição a ativos denominados em dólar, mesmo que de forma moderada.
Para Carpenter, “essa discussão sobre realocação vai durar alguns anos”.
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Bolsa em alta não muda o cenário
Apesar da força das bolsas americanas — com o S&P 500 renovando recordes —, o Morgan Stanley mantém uma visão mais cautelosa sobre o ambiente macro.
O economista lembra que o desempenho do índice tem mais relação com multinacionais e ajustes fiscais do que com a atividade doméstica. E embora não espere uma fuga de capitais dos EUA, o banco vê espaço para uma redução marginal da alocação global em ativos americanos.
Impactos no Brasil
A possível desvalorização do dólar e o fim do aperto monetário nos EUA abrem espaço para cortes mais ousados em outros países, como o Brasil.
Segundo Carpenter, a queda do dólar alivia a pressão sobre moedas emergentes e pode facilitar a redução de juros pelo Banco Central brasileiro, mesmo que os fluxos globais continuem seguindo um ritmo cauteloso.
“É esse tipo de ajuste gradual que devemos ver. Não uma mudança dramática e total, mas um reposicionamento progressivo dos portfólios”, afirmou o economista.
Com juros elevados por mais tempo nos EUA e uma possível desvalorização do dólar no horizonte, o mercado segue atento aos sinais do Fed e ao destino do dólar.
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