Inflação vai “explodir” e Selic voltar a 13,50% se Banco Central optar por ajuste gradual, diz Felipe Guerra, da Legacy
Responsável pela gestão de R$ 20 bilhões, sócio-fundador da Legacy defende ajuste maior da Selic, mas espera alta de 0,25 ponto pelo Copom hoje

O que o Banco Central comandado por Roberto Campos Neto deveria fazer e o que ele vai fazer na reunião desta quarta-feira (18)? As respostas deveriam ser as mesmas, mas no caso desta decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) elas não coincidem, de acordo com Felipe Guerra, sócio-fundador da Legacy Capital.
Responsável pela gestão de mais de R$ 20 bilhões, Guerra espera por uma alta de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros (Selic), para 10,75% ao ano, em linha com a expectativa da maior parte do mercado.
Mas o sócio-fundador da Legacy defende que o BC deveria promover um ajuste maior e elevar a Selic em 0,50 ponto percentual. Ou seja, dos atuais 10,50% para 11,00% ao ano.
Em entrevista ao Seu Dinheiro no escritório da gestora, Guerra se mostrou bastante preocupado com a dinâmica da inflação e a resposta do Banco Central.
“O mercado de trabalho está ultra-apertado, o salário cresce a 10% real há três anos, o desemprego está nas mínimas e o crédito, bombando”, diz. Como se não bastasse, o governo ainda atrapalha o trabalho do BC pelo lado fiscal, em uma economia que já cresce a 3% ao ano.
Legacy: "Inflação vai explodir"
A Legacy projeta inflação de 4,5% em 2024 e 4,7% em 2025 — acima, portanto, do teto da meta de 4,5%. Mas se o BC adotar uma postura de subir gradualmente a Selic, a inflação vai “explodir” e pode passar dos 7%, de acordo com o gestor.
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Para ele, subir os juros em um ritmo de 0,25 ponto percentual por reunião será como “enxugar gelo”. Assim, o ciclo de alta de juros pode se estender por até um ano e meio e levar a Selic de volta aos 13,50% ao ano.
Nesse sentido, o Banco Central corre o risco de repetir o que ocorreu durante a gestão de Alexandre Tombini. Na época, a alta dos juros foi insuficiente para conter a inflação justamente porque o Copom optou por um ajuste gradual, segundo o sócio da Legacy.
O que o BC deveria fazer com a Selic...
Guerra diz que uma alta de 0,50 ponto percentual na Selic já a partir da reunião desta quarta-feira e uma sinalização dura no comunicado e na ata do Copom teriam como consequência a necessidade de um ciclo de aperto monetário menor.
Esse cenário local e um possível corte de 0,50 ponto nos juros nos Estados Unidos nesta "Super Quarta" teriam um efeito muito positivo para os ativos brasileiros, de acordo com o gestor.
Ele diz que uma “prévia” desse movimento ocorreu no mês passado, quando a bolsa subiu e o dólar e os juros futuros caíram em reação a declarações de Gabriel Galípolo, diretor de política monetária e futuro presidente do BC, indicando a intenção de subir os juros.
O mercado, contudo, acabou “voltando” depois que Roberto Campos Neto, o atual ocupante da cadeira, deu sinalizações contrárias.
“Tem muita gente competente no Banco Central. Eu não sei por que eles estão tão reticentes em reconhecer a verdade”, afirma Guerra, que trabalhou com Campos Neto na tesouraria do Santander antes de fundar a Legacy com outros colegas do banco.
... E o que o BC vai fazer
Desse modo, o cenário do gestor para que o Copom de fato vai fazer hoje coincide com o da maior parte do mercado. Ou seja, o Copom deve iniciar o ciclo de aperto monetário pelo Copom com uma alta de 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano, na linha do que Campos Neto indicou das últimas vezes que falou em público.
Assim como ocorreu nas últimas reuniões, Guerra espera que a decisão venha acompanhada de um comunicado suave com a inflação (dovish, no “economês) “para os políticos lerem” e depois trazer uma ata mais técnica para o mercado.
Juros e eleições nos EUA
Enquanto no Brasil se discute a dose do aperto monetário, nos Estados Unidos a dúvida do mercado é se o Federal Reserve (Fed, o BC norte-americano) começa a cortar os juros em 0,25 ou 0,50 ponto percentual.
Nos últimos dias, aumentaram as apostas de uma redução maior — e essa também é a expectativa do sócio da Legacy.
Para ele, o mercado de trabalho mais fraco e a desaceleração da inflação abrem espaço para os juros caírem de forma consistente por lá. “Os Estados Unidos estão em uma situação oposta à nossa.”
O que pode aumentar ou diminuir o ritmo de corte dos juros na maior economia do planeta é o resultado das eleições presidenciais de novembro.
Guerra afirma que uma vitória de Trump seria mais positiva para a bolsa norte-americana. Por outro lado, as políticas do republicano devem provocar mais inflação, o que reduziria o espaço para maiores cortes de juros.
Já no caso de uma vitória de Kamala Harris, a economia dos EUA deve desacelerar mais, o que deve levar a juros menores e a um dólar mais fraco. Nesse cenário, a bolsa americana deve “engasgar” no curto prazo, mas ainda assim a direção do mercado acionário lá fora é para cima, segundo o gestor.
Lembrando que qualquer cenário ficaria ainda mais exacerbado se um dos candidatos conseguir também o controle do Senado e da Câmara.
#189 PODCAST TOUROS E URSOS: Kamala vs Trump. O que não te contaram sobre o debate e como a eleição nos EUA mexe com os seus investimentos
Legacy: “não dá para ficar otimista de peito aberto com o Brasil”
Essa visão “espelhada” do momento das economias do Brasil e dos EUA se reflete na carteira da Legacy. Lá fora, o fundo tem posições compradas em bolsa, aplicadas em juros (que ganham com a queda das taxas) e vendidas no dólar.
Enquanto isso, aqui no Brasil a Legacy prefere atuar com posições vendidas em bolsa e tomadas em juros (apostando na alta das taxas). Além disso, o fundo tem posições que se beneficiam de uma aceleração da inflação.
Guerra reconhece que um corte de 0,50 ponto percentual dos juros nos EUA pode beneficiar os ativos brasileiros no curto prazo. Mas diz que isso não é o suficiente para mudar a convicção dele sobre a trajetória do país. Ainda mais em um cenário de ajuste gradual da Selic como o que o BC indicou.
Felipe Guerra, Legacy Capital“Não dá para ficar otimista de peito aberto com o Brasil, você não consegue dormir.”
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