Fugir para as montanhas ou correr para as oportunidades? O que fazer com os seus investimentos após o pânico generalizado nos mercados
Depois do forte movimento de liquidação que tomou conta dos mercados em todo o mundo, o Seu Dinheiro ouviu especialistas que dizem qual o melhor caminho agora

O temor de que a economia norte-americana possa entrar em recessão levou a uma onda de aversão ao risco, que tomou conta dos mercados globais nesta segunda-feira (5) e deixou uma dúvida: essa turbulência abre uma oportunidade para quem quer investir em ações ou é hora de deixar esse mar revolto e fugir para as montanhas?
Se o ditado que diz que mar calmo não faz bom marinheiro estiver certo, não é hora de pular do barco, segundo os especialistas ouvidos pelo Seu Dinheiro.
Thiago Pedroso, responsável pela área de renda variável da gestora Criteria — que hoje possui mais de R$ 10 bilhões em ativos sob gestão —, diz que o momento não é de correr para longe do mercado, mas sim de oportunidade.
Entretanto, ele lembra que é fundamental optar por empresas mais seguras para depois seguir para ativos de risco maior.
O especialista recomenda que o investidor busque ações de empresas cujos setores são mais protegidos contra a volatilidade e correção de receita de acordo com a inflação.
Entre os exemplos, Pedroso destaca o setor de utilities, especialmente empresas de energia, saneamento básico, infraestrutura e concessão de rodovias, como Grupo CCR (CCRO3) e EcoRodovias (ECOR3). Ele também recomenda o setor de shopping centers.
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"Esses ativos, além de uma receita pré-determinada em contrato, possuem uma resiliência dependendo do cenário", afirma. "Eu olharia com carinho para empresas que tenham uma correção da receita de acordo com a inflação. Mas ainda é preciso avaliar cada setor individualmente".
Para Aline Cardoso, do Santander, o momento não é de mexer na carteira — pelo menos até que a neblina sobre o futuro das economias globais e os riscos macroeconômicos comece a se dissipar.
“Vai ter muita volatilidade até setembro, quando esse corte dos juros nos EUA de fato acontecer”, projetou Cardoso.
“O que eu estou recomendando agora para os clientes é não fazer nada pelos próximos dois meses. É ficar parado, não vender o que tem, mas também não sair comprando e enchendo a mão. Pode ser um ponto interessante de compra, mas vai ter muita volatilidade.”
Mas para os investidores que já possuem alocação em bolsa, Cardoso recomenda manter uma exposição maior a segmentos mais defensivos, como utilities, e no setor financeiro.
Para a economista, ainda é um bom momento para negócios cujo crescimento não depende da expansão da economia brasileira, como Mercado Livre (MELI34), Totvs (TOTS3) e RD Saúde (RADL3).
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Bolsa americana: uma marolinha?
Com perspectivas de mais volatilidade para os próximos meses, mesmo que próximo de “alguma normalidade”, nunca é tarde para ter uma carteira mais diversificada e que não sofra tanto nesses momentos estresse, segundo Rodrigo Aloi, diretor de estratégia da HMC Capital.
“Quem tem uma carteira de investimentos bem equilibrada pode estar perdendo em termos de retorno, mas certamente está perdendo menos do que o investidor que possui uma carteira concentrada em ativos de empresas de tecnologia nos Estados Unidos”, afirma.
Na avaliação da Guide Investimentos, os próximos meses tendem a ser ainda mais voláteis para ativos como os BDRs (certificados de ações emitidos por empresas estrangeiras) em função da expectativa de corte de juros nos Estados Unidos.
“Em nossa visão, o valuation do mercado americano já está bastante caro e faz sentido reduzir as posições neste momento, principalmente em grandes empresas de tecnologia”, afirmaram os analistas da Guide, em relatório.
“O preço das ações tem subido mais que os lucros. Além disso, os últimos dados de rentabilidade destas empresas mostraram alguns sinais de alerta”, acrescentaram.
Para a Guide, em meio aos temores de recessão nos EUA, uma boa pedida nos investimentos é a aposta na curva de juros norte-americana por meio da renda fixa.
Atualmente, a corretora recomenda dois investimentos neste sentido: o BTLT39, mais sensível aos vértices mais longos da curva, e o BSHY39, exposto à política monetária. Os analistas ainda indicam o ouro (GOLD11) como porto seguro.
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É hora de comprar ouro e dólar?
Ainda que seja importante possuir parte do portfólio dolarizado, é quase consenso entre os especialistas que não é hora de sair comprando dólar, uma vez que os preços estão “fortemente esticados”.
“Embora o dólar seja um ativo importante para a carteira do investidor, a alocação deve ser feita ao longo do tempo, aproveitando as janelas de queda”, diz Pedroso, da Criteria.
A recomendação também vale para o ouro que, embora seja um ativo seguro, envolve custos de custódia e não possui rentabilidade. Nesse caso, existem alternativas melhores, como os ativos de renda fixa, por exemplo.
“Eu pessoalmente não gosto da exposição ao ouro porque o ouro só gera custo para o investidor. Ele é um ativo seguro, mas não gera nenhum fluxo de caixa. Existem alternativas melhores como os ativos de renda fixa, por exemplo, porque ao menos você tem alguma rentabilidade,” diz Pedroso.
O que aconteceu com os mercados globais?
O temor de uma recessão nos EUA foi o principal culpado pelo colapso dos mercados ao redor do mundo nesta segunda-feira (5) após o decepcionante relatório de empregos de julho divulgado na semana passada.
Lá, a abertura de vagas no mês passado desacelerou mais do que o esperado, enquanto a taxa de emprego subiu para o maior nível desde outubro de 2021.
A economia norte-americana criou em julho 114 mil postos de trabalho, segundo o Departamento do Trabalho, uma desaceleração em relação aos 179 mil de junho e abaixo dos 185 mil esperados pelos economistas consultados pela Dow Jones. A taxa de desemprego, por sua vez, aumentou para 4,3%.
Os dados fracos de emprego levaram muitos investidores a acreditar que talvez o Federal Reserve devesse ter agido nesta quarta-feira (31), quando manteve os juros no maior patamar em 23 anos.
O receio é de que, com os juros tão altos — entre 5,25% e 5,50% ano — a economia dos EUA entre em recessão.
Por isso, Wall Street fechou em forte queda na sexta-feira (2), dia da divulgação do payroll, e essa liquidação se estendeu aos mercados globais hoje, especialmente na Ásia.
O índice Nikkei da bolsa de Tóquio foi um dos mais afetados, com queda de 12,4% do — o maior recuo desde 1987.
Vale lembrar que, na mesma Super Quarta na qual o Fed manteve os juros, o BC do Japão (BoJ) elevou as taxas para a faixa de 0,15% a 0,25% e sinalizou que novos aumentos estão em jogo caso as atuais projeções para a economia e inflação no país se confirmarem.
Por que a avalanche no exterior não afundou (tanto) o Ibovespa
Mas ainda que a avalanche nos mercados internacionais tenha assustado investidores e gestores do lado de cá, o Ibovespa teve uma reação mais amena nesta segunda-feira.
“O movimento no exterior foi íngreme. Você está tendo um chacoalhão de política monetária no Japão sem precedentes, com intervenção cambial, primeira alta de juros em décadas e o Nikkei no ponto mais depreciado em relação ao dólar em 30 a 40 anos. O índice de ações do Japão teve a maior queda desde o crash de 1987. Não é pouca coisa e assusta”, disse Daniel Utsch, gestor de ações da Nero Capital.
Entretanto, para Utsch, o Brasil mostrou nesta sessão uma característica contracíclica em relação ao exterior. “O Brasil foi muito bem hoje. Se estiver acontecendo tudo de ruim lá fora, pode ser que a gente até defenda um pouco.”
Para Cardoso, do Santander, ainda que os mercados estejam em um momento de forte tensão, existem alguns motivos que seguram uma queda mais intensa do Ibovespa.
O primeiro deles é justamente a falta de vendedores. Segundo a economista, os investidores locais e estrangeiros estão com a mínima alocação em bolsa brasileira possível, o que impede que novas vendas aconteçam.
Outro motivo citado pela head do Santander é o movimento de rotação em relação às gigantes da tecnologia dos Estados Unidos, que beneficia mercados emergentes como o Brasil.
Além disso, de acordo com Cardoso, a iminência do início de ciclo de afrouxamento monetário nos EUA é historicamente um bom ponto de compra para a bolsa brasileira — isso se os temores sobre o futuro da economia norte-americana arrefecerem.
Na visão de Aloi, da HMC, caso as expectativas de afrouxamento monetário nos EUA se confirmem, o BC brasileiro poderá suavizar sua postura em relação aos juros no país.
“Se o dólar voltar a apreciar e deixar de ficar menos pressionado, o BC pode ter mais autonomia para tomar decisões com base no cenário interno e menos o internacional”, afirma o diretor.
Mas na visão dos analistas consultados pelo Seu Dinheiro, caso uma desaceleração mais forte se confirme nos EUA, o resultado deve ser um cenário problemático para o Brasil, com uma potencial queda nas commodities e consequente desvalorização do real.
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