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Ainda que não tenha efeito no caixa da companhia, inconsistência contábil deve aumentar o endividamento e estourar os chamados covenants; entenda o que são e por que isso poderia ser um problema para as Americanas

As "inconsistências contábeis" estimadas em R$ 20 bilhões descobertas nas demonstrações financeiras das Americanas (AMER3) têm "efeito caixa imaterial", segundo a companhia, mas têm tudo para bagunçar os indicadores de endividamento da empresa, ocasionando um estouro dos chamados covenants.
O termo covenant, mais conhecido de quem investe em títulos de dívida de empresas do que em ações, designa, neste caso, indicadores ou métricas financeiras que uma empresa precisa manter em certos níveis como forma de sinalizar a seus credores que tem capacidade de cumprir suas obrigações - ou, em bom português, pagar as suas dívidas.
Num sentido mais amplo, covenants são quaisquer tipo de obrigações acordadas entre as partes de um contrato para fazê-lo valer. Podem abarcar obrigações de se fazer ou não fazer algo - por exemplo, manter determinada composição societária, apresentar determinadas informações ao mercado periodicamente ou utilizar os recursos advindos do financiamento apenas para certo tipo de projeto.
Os covenants são definidos em contrato e, se forem descumpridos, a outra parte tem direito a medidas compensatórias ou a tomar medidas legais.
No caso de covenants financeiros, que é o caso quando falamos de dívidas de empresas, eles geralmente abarcam indicadores de liquidez e alavancagem, um teto para o endividamento ou até mesmo a classificação de risco concedida por uma agência de rating.
Para emprestar dinheiro para a companhia, o credor - digamos, um banco - exige que a empresa mantenha, por exemplo, a sua relação dívida líquida/Ebitda ou Ebitda/despesas financeiras em determinado patamar ou faixa - sendo o Ebitda o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, na sigla em inglês.
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Os covenants, assim, servem como uma espécie de garantia - em adição a eventuais outras garantias que a empresa tomadora de crédito possa apresentar -, de forma a dar segurança ao credor de que a devedora não perderá controle das suas finanças. Também contribuem para reduzir os juros da dívida da empresa que se dispõe a cumpri-los.
Em geral, se a empresa tomadora do crédito não for capaz de manter os seus indicadores dentro do que foi acertado - isto é, estourar os covenants - o credor tem o direito de executar a dívida antecipadamente. Para evitar que isso ocorra, as partes podem também repactuar os covenants.
O rombo identificado no balanço das Americanas certamente aumentará muito o endividamento da companhia quando as demonstrações financeiras hoje erradas forem republicadas com a correção.
Isso provavelmente levará a um estouro dos níveis de liquidez e alavancagem considerados aceitáveis pelos credores da varejista que porventura tenham acertado covenants para conceder o crédito, o que pode incluir bancos e outros investidores detentores de debêntures.
Num efeito cascata, isso poderia levar a um aumento das despesas financeiras da companhia ou até a execução de garantias. A pressão dos credores e a falta de capacidade de pagar imediatamente tamanha obrigação, por sua vez, poderia levar a varejista a precisar entrar com um pedido de recuperação judicial.
Segundo apurou o jornal Valor Econômico, no entanto, o comando das Americanas já procurou seus principais bancos credores, que concordaram em rolar a dívida da companhia, o que pode prevenir um eventual pedido de RJ.
Em teleconferência na manhã desta quinta-feira o agora ex-CEO da varejista, Sérgio Rial, já havia dito que sentia receptividade dos bancos a um possível acordo de suspensão da cobrança das dívidas.
Ele acrescentou, ainda, que as Americanas não têm dívidas relevantes de curtíssimo prazo e que teria caixa para pagar o primeiro grande vencimento, em 2025.
Do ponto de vista dos credores, o analista do Bradesco BBI, Gustavo Schroden, estima que o rombo das Americanas impactaria o patrimônio líquido dos seis bancos que a casa cobre em 4,5%.
Como não é possível precisar a exposição de cada um deles à empresa, especificamente, o analista analisou a exposição de cada banco ao segmento de varejo. Nesse sentido, Santander (SANB11) e BTG Pactual (BPAC11) são os que têm maior exposição, com cerca de 7% do total de empresas.
Para atravessar esta fase difícil, as Americanas precisarão de uma capitalização bilionária dos acionistas, segundo Rial.
Nos cálculos do analista da Empiricus Research, Fernando Ferrer, a capitalização da varejista pode chegar a US$ 2 bilhões. O número considera os compromissos futuros e também o endividamento da empresa, que deve ser equacionado para um patamar de três vezes a relação Dívida Líquida/Ebitda.
Acionista de referência da varejista, a 3G Capital - veículo de investimento do trio de empresários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira - já se comprometeu com a injeção de capital, o que, no entanto, deve diluir os acionistas que não toparem colocar mais dinheiro na empresa.
Após passar toda a manhã em leilão, as ações AMER3 finalmente começaram a ser negociadas no início da tarde desta quinta-feira, em queda de 76%. Acompanhe a nossa cobertura completa de mercados.
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