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Autoridades locais relaxam restrições em algumas cidades da China, mas Pequim e Xangai intensificam segurança nas áreas onde houve protesto
Os chineses estão cansados. Em vigor há quase três anos, as duras medidas de restrição impostas pelo governo da China para deter a proliferação do coronavírus provocam insatisfação em diferentes partes do gigante asiático.
Nos últimos dias, moradores de diversas cidades da China saíram às ruas para protestar. Há relatos circulando na imprensa internacional de “multidões exigindo a renúncia de Xi Jinping”.
Outros afirmam que os protestos são pontuais, limitados aos bairros mais afetados de metrópoles como Pequim, Xangai e Wuhan, além de outras cidades. Também houve manifestações em algumas das universidades mais prestigiadas do país.
No entanto, segundo esses relatos, a ira dos manifestantes seria dirigida às administrações locais, e não à cúpula do Partido Comunista, que há poucas semanas reconduziu Xi a um terceiro mandato.
Não foi possível verificar o tamanho dos protestos. Também não há informações confirmadas sobre repressão ou prisões.
Relatos divergentes à parte, não se pode negar que os chineses estão descontentes com as prolongadas medidas restritivas e que os protestos são reais.
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De qualquer modo, nada sugere que o governo chinês esteja cogitando a possibilidade de deixar de lado a política de covid zero.
“Sem uma orientação clara da cúpula [de governo], as autoridades locais estão inclinadas a jogar pela bola de segurança, mantendo a atual política de covid zero”, disse Larry Hu, economista-chefe para China da gestora Macquarie.
Há apenas algumas semanas, havia a expectativa de afrouxamento das medidas. O governo chegou a reduzir os períodos de quarentena e a tornar as restrições cada vez mais localizadas. Mas o relaxamento foi breve.
Apenas alguns dias depois, diante de um aumento considerável no número de novos casos e das primeiras mortes em seis meses na China continental, o governo restabeleceu os termos anteriores da política de covid zero.
“Isso incomodou muita gente que esperava ansiosamente pelo afrouxamento”, afirmou Larry Hu à CNBC.
“No curto prazo, a política de Covid será apenas ajustada às circunstâncias”, disse Bruce Pang, economista-chefe e chefe de pesquisa sobre China da JLL, gestora especializada em mercado imobiliário.
A China é um país de mais de 1,4 bilhão de pessoas. Em seu território vivem 17,5% da população do planeta, que recentemente ultrapassou a marca de 8 bilhões.
Se no exterior muito se fala em restrições à liberdade dos chineses sob o comunismo, pouca atenção é dada às constantes pesquisas promovidas por todos os escalões administrativos para medir a satisfação da população.
E as pesquisas mais recentes indicam que mais de 80% dos chineses apoiam a política de covid zero.
Não é à toa. Desde o início da pandemia, a China continental registrou 1,5 milhão de casos de covid-19, com 5.232 óbitos. Trata-se de um dos mais baixos índices de infecção por coronavírus no mundo.
A título de comparação, com 214 milhões de habitantes, o Brasil registrou mais de 35 milhões de casos, com 689 mil óbitos.
Entretanto, as mesmas pesquisas sinalizam o cansaço da população. Cerca de 50% dos chineses declaram-se “frustrados” e “cansados”.
Afinal, a política de covid zero, com uma adaptação aqui outra ali, caminha para completar três anos. A cada surto, distritos inteiros são fechados e toda a população é testada.
Os protestos na China são mais comuns do que costumamos imaginar. As administrações locais são o alvo preferencial das manifestações. E as demandas da população costumam estar conectadas àquele que muitos consideram o "órgão mais sensível do corpo humano": o bolso.
E é justamente isso que incomoda os chineses. Ao contrário das projeções mais pessimistas, a economia da China não entrou em recessão, e a inflação ao consumidor não disparou a níveis alarmantes.
Em contrapartida, a atividade econômica interna, a renda das famílias e o varejo foram duramente afetados pelas restrições sanitárias.
“A maioria das pessoas que reclamam da política de covid zero não exige liberdade”, escreveu Keawe Wong, um desenvolvedor de software de Hong Kong, em um fio no Twitter. “O que as pessoas querem é alívio financeiro”, afirmou.
Para Larry Hu, uma das causas aparentes da insatisfação popular reside numa falha de comunicação.
“Não está claro se o objetivo das medidas é reduzir drasticamente novas infecções, provavelmente exigindo restrições rigorosas, ou diminuir o ritmo de aumento, com menos interrupções na economia e nos hospitais”, disse ele.
No sábado, o Diário do Povo, editado pelo Partido Comunista Chinês, informou que apenas os condados e unidades administrativas superiores têm autoridade para impor restrições.
Além disso, recomendou que o fechamento de escolas e as restrições de movimento não devem ocorrer arbitrariamente.
Hoje, num editorial de capa, o jornal defendeu a necessidade de tornar os controles mais direcionados e eficazes. Isso sinaliza que ajustes devem ser aplicados no decorrer das próximas semanas.
“As autoridades estão enviando sinais de uma atitude mais pragmática em relação ao roteiro econômico, à política de covid e às relações geopolíticas, o que ajudará a proporcionar uma recuperação econômica gradual para a China”, disse Pang, da JLL.
O rápido bloqueio imposto pela China em 2020 ajudou a controlar a pandemia internamente. Muitas mortes foram evitadas, e a economia reabriu rapidamente.
No entanto, o surgimento de variantes mais contagiosas e requisitos de exames mais rigorosos, entre outras restrições, pesaram sobre o sentimento de negócios e consumidores.
Embora o número de casos tenha aumentado, a maioria das novas infecções é assintomática.
Hoje mesmo, autoridades locais reagiram aos protestos relaxando as restrições em algumas cidades.
No entanto, Pequim e Xangai intensificaram a segurança nas áreas onde houve protesto, e a mídia chinesa avisou que a política de covid zero está aí para ficar.
*Com informações da CNBC.
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