Terra da inflação nascente: como é encarar a maior alta de preços em 8 anos para o Japão, que viveu estabilidade por décadas?
No acumulado do ano, o CPI mais abrangente, que ajuda a fazer comparações com outros países, registrou alta de 3% no acumulado dos últimos 12 anos

A inflação é um termômetro da economia local — e global — que funciona como uma faca de dois gumes. Os preços elevados podem indicar um descontrole da oferta, mas a deflação acentuada também não é totalmente positiva, como era o caso do Japão.
E depois de anos vivendo uma estagnação econômica devido à inflação controlada, o dragão por lá mostrou as garras: o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) registrou a maior alta mensal desde 2014.
O núcleo de preços — que exclui itens voláteis como alimentos, mas inclui energia — subiu 2,8% em agosto, acima das projeções de 2,7%, em comparação com um aumento de 2,4% em julho. A leitura marca o quinto mês consecutivo de inflação e ascendeu acima da meta anual de 2% do Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês).
O CPI mais abrangente, que ajuda a fazer comparações com outros países, registrou alta de 3% no acumulado dos últimos 12 anos.
Inflação na terra do Sol Nascente
Mas o que impulsionou os preços por lá?
O aumento dos custos das commodities — como petróleo e minério de ferro — e a desvalorização do iene frente a outras moedas mais fortes são alguns dos fatores que mexeram com os preços na Terra do Sol Nascente.
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Nem mesmo a estável economia japonesa conseguiu resistir a pressões externas como a guerra da Ucrânia e problemas na cadeia de suprimentos.
Comparando dragões
Uma inflação de 3% ao ano parece pouco quando comparamos com outras economias sólidas.
De acordo com o Trading Economics, no mesmo período em que o Japão registrou um CPI de 3%, o Reino Unido acumula avanço de preços da ordem de 9,9%.
A Zona do Euro, por sua vez, encara uma alta de preços de 9,1%; os Estados Unidos, 8,3% e a Alemanha, 7,9%. O Brasil fica no meio do caminho, com um acumulado de 8,73% nos últimos 12 meses.
O histórico da inflação no Japão
O problema é que o Japão só viu uma inflação tão alta assim em outubro de 2014, quando o CPI anual ficou em 3,2%. No pico daquele mesmo ano, os preços tiveram uma disparada de 3,7%.
Em dezembro de 1991, portanto há 31 anos, os preços no Japão sentiram sua penúltima disparada para 3,10% em 12 meses, atingindo o pico de 3,60% em março daquele ano.
Entre 1991 e 2022, a inflação da Terra do Sol Nascente ficou praticamente estável, tendo registrado a maior deflação do período, com queda nos preços de 2,50% em novembro de 2009.
Os problemas escondidos da deflação
São diversos os motivos que levam ao descontrole de preços. No caso japonês, a economia começou a se estabilizar após os anos 1990, depois de encarar diversos choques internacionais.
Aqui, um exercício de economia “um zero um”: pensando em quem deixa o dinheiro apenas na poupança, a inflação corrói o poder de compra do dinheiro. No caso da deflação, esse montante “ganha valor” se deixado parado por lá.
Somado a isso, os investimentos atrelados a juros também perdem razão frente a um cenário em que as taxas estão negativas.
Até 2015, o BoJ mantinha os juros em alta de 0,1% ao ano — você não leu errado. A partir de 2016, o país encarou um cenário de juros negativos a taxa de 0,1% ao ano.
E o futuro do Japão
Após a Super Quarta, que conta com a decisão de juros do Banco Central Brasileiro e do Federal Reserve, o seu equivalente norte-americano, o BoJ anuncia a sua decisão de política monetária na quinta-feira (22).
O cenário por lá deve mudar frente aos novos dados de inflação. Entretanto, a expectativa para a próxima reunião é de que o Banco Central do Japão mantenha os juros inalterados, à taxa negativa de 0,1% ao ano, de acordo com projeções do Investing.
O presidente do BoJ, Haruhiko Kuroda, afirmou que o BC japonês não tem planos de elevar juros ou de ampliar o teto do juro do bônus do governo (JGB) de 10 anos. Também não existem maiores expectativas em relação a uma melhora do iene frente aos seus pares internacionais.
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