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Em evento do Grupo Lide, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, e outras autoridades econômicas discutiram o cenário para o país
O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, diz ver uma "situação mais complexa" daqui para frente e alertou para a necessidade de reformas ao redor do mundo. Segundo ele, é a primeira vez na história que se tem uma produtividade global tão baixa e poucas reformas — um cenário visto especialmente nos países emergentes, com o Brasil sendo uma exceção.
"Faltaram reformas. Os governos ficaram acomodados. O mundo precisa de reformas, principalmente, os países emergentes. O Brasil é exceção e fez bastante reformas", avaliou ele, durante evento do Lide - Grupo de Líderes Empresariais, que vem acontecendo entre segunda (14) e terça-feira (15), em Nova York.
Campos Neto afirmou que as reformas iniciadas no governo de Michel Temer tiveram influência na oferta, como se vê no comportamento da mão de obra. Para ele, o momento atual é "muito importante". "Há mudança muito grande de vários paradigmas na economia mundial", disse.
De acordo com o presidente do BC, a pandemia deixou "cicatrizes grandes", com a invasão da Rússia na Ucrânia gerando grande problema de inflação em energia e alimentos, mas é preciso mostrar compromisso com o fiscal. Durante a crise do covid-19 foi feito o maior programa de incentivos no mundo, no valor de US$ 9 trilhões, equivalente a 10% da economia global, de US$ 80 trilhões.
Outro efeito da pandemia foi o salto nos preços dos bens, que ainda não voltou, enquanto o setor de serviços teve sua atividade bastante impactada, mas começa a retornar aos níveis pré-Covid. "Temos pouca capacidade de adaptar a oferta à demanda. A inflação será mais volátil", disse o presidente do BC.
Segundo Campos Neto, o BC identificou esse caráter mais persistente da inflação, e foi primeiro a subir os juros. "Parte do que foi feito em termo de juro vai fazer efeito em 2023", afirmou.
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Ele afirmou que há sinais incipientes que mostram melhora qualitativa da inflação, mas reforçou que é necessário cautela e atenção ao fiscal. "Somente plano coeso com responsabilidade fiscal e reformas vai garantir crescimento sustentável", disse.
A declaração vem num momento em que o arcabouço fiscal do governo Lula está sendo discutido — a PEC da Transição e uma nova rodada de gastos excepcionais, incluindo a possibilidade de retirada do Bolsa Família do teto de gastos públicos, geram preocupação aos agentes do mercado financeiro.
Dito isso, o posicionamento do presidente do BC não chega a ser surpreendente: nas decisões de juros por parte do Copom, sempre há menções à possibilidade de descontrole nos gastos do governo, e como essa falta de responsabilidade fiscal representaria um risco à trajetória de normalização da Selic.
Campos Neto alertou ainda que o Brasil deveria evitar um "aumento de impostos desequilibrado". Sobrecarregar demais capital, reduz produtividade, observou. "Precisamos de um conjunto de políticas que olhe o social, mas nos dê credibilidade para atrair o investidor externo", concluiu.
Membro da equipe de transição de governo, o ex-presidente do Banco Central, Persio Arida, defendeu a necessidade de o Brasil avançar no âmbito fiscal e no social. Também presente no evento do Grupo Lide em Nova York, ele afirmou que ambas as questões caminham juntas.
"Do ponto de vista substantivo, sabemos que responsabilidade fiscal e responsabilidade social vão juntas, elas não são separadas ou opostas", afirmou Arida. "É necessário avançar nos dois fronts, não vejo nenhuma oposição entre um e outro, pelo contrário: se avançar num front e não avançar no outro, mais cedo ou mais tarde vai ser incapaz de fazer qualquer avanço."
Arida entrou no tema após questionamentos quanto à reação do mercado financeiro na semana passada quando o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva criticou "a tal da estabilidade fiscal" e defendeu a ampliação de gastos públicos para combater a miséria.
Ao falar a uma plateia de empresários, políticos, ministros e banqueiros, ele pediu desculpas por não poder trazer tantos detalhes dos planos do futuro governo, uma vez que integra a equipe de transição.
Segundo , há inúmeros casos na América Latina, e mesmo no mundo desenvolvido, em que políticas sociais feitas sem responsabilidade fiscal geraram crise macroeconômica, que acabou inviabilizando as realizações sociais. Além disso, a adoção de uma política social sem fiscal "tira a base de sustentação das políticas macroeconômicas", ponderou.
Arida também defendeu a importância de se eliminar os subsídios do crédito no Brasil. A medida contribuiria para o crescimento da economia brasileira bem como dos empréstimos, segundo ele. "Os subsídios creditícios têm de ser eliminados. Seria um enorme avanço. Temos de avançar em eliminar a redução do subsídio".
Ele mencionou ainda a importância de medidas que contribuam para o fortalecimento das garantias atreladas aos empréstimos e ainda do desenvolvimento do mercado de capitais. Já Campos Neto disse que o crédito tem de ser olhado não só do lado da quantidade, mas da qualidade.
O presidente do BC observou que o Brasil atravessou a pandemia com crescimento de 20% nos empréstimos. "Adotamos várias medidas para que empresas grandes fossem direto para o mercado de capitais para abrir mais espaço no balanço dos bancos para atender pequenas e médias empresas", lembrou.
Campos Neto destacou ainda que os balanços dos bancos são "engessados", com exigências de direcionamento dos recursos captados. Segundo ele, esse é um tema que tem de ser direcionado, pois funciona como a "meia entrada", que por fim, pode crescer e elevar o custo geral.
*Com Estadão Conteúdo
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