Onde investir em 2021: dólar perde atratividade e ouro permanece nas carteiras
No ano do risco, devemos ver a troca da moeda americana por ativos mais rentáveis e alguma alocação na commodity

Entramos há poucos dias em 2021, mas já temos ânsia para saber o que este novo ano nos reserva. Será que vou ter aquele aumento de salário? Terei mais tempo para a família? Nós finalmente vamos nos ver livres da covid-19?
Depois do que aconteceu em 2020, seria muito bom termos um pouco de certeza sobre o que virá. O calendário que utilizamos, o gregoriano, infelizmente não nos oferece indícios sobre o que 2021 nos reserva. Algumas culturas, porém, acreditam que cada ano possui certas características que definem como será o rumo das nossas vidas e negócios.
É o caso do calendário chinês. Cada ano é regido pelas características de um bicho. Atualmente estamos no ano do rato – ele começou em 25 de janeiro de 2020 e vai terminar em 11 de fevereiro. Ao contrário de como é retratado no Ocidente, o roedor é considerado no horóscopo chinês o portador da prosperidade.
Fôssemos transpor esta lógica para o mercado financeiro, diria para você que, se 2021 tivesse uma característica, seria o risco (não sei que bicho representa isso). O ano que se inicia será marcado pela busca por rentabilidade, depois da procura desesperada por proteção e redução de danos em 2020.
Segundo analistas com quem conversei, veremos um afastamento dos investidores de ativos com aspectos defensivos, principalmente o dólar, considerado porto seguro quando ocorrem tempestades no mercado. O ano não promete ser bom para a divisa americana em termos de retorno.
O ouro, outro ativo clássico de proteção, também não deve ser tão rentável em 2021, mas a expectativa é de que sua cotação permaneça em patamares elevados, porque ainda há motivos para cautela.
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Este texto faz parte de uma série especial do Seu Dinheiro sobre onde investir em 2021. Eis a lista completa:
- Bolsa
- Dólar e ouro (você está aqui)
- Renda fixa (disponível em 6/1)
- Imóveis (disponível em 7/1)
- Criptomoedas (disponível em 8/1)
- Fundos imobiliários (disponível em 10/1)
Como chegamos a este ponto?
Não é preciso ficar aqui rememorando o que ocorreu em 2020, mas vale a pena dar uma recordada.
Um ano que poderia ter sido de forte crescimento econômico, pelo menos aqui no Brasil, foi marcado por um cisne negro de proporções homéricas, a covid-19 (resumidamente, cisne negro é um conceito desenvolvido pelo lendário Nassim Nicholas Taleb que trata de um evento raro, completamente imprevisível e de alto impacto sobre nossas vidas).
A pandemia mudou completamente o que os analistas projetavam inicialmente para 2020 – valorização das ações e outros investimentos de risco e queda da cotação do dólar. Com os países tendo que interromper suas atividades para conter a propagação do novo coronavírus, e as incertezas em relação à esta doença, todo mundo foi atrás de ativos de proteção, com dólar e ouro.
O movimento foi particularmente duro para o real. Nossa moeda foi a divisa emergente que apresentou a maior desvalorização em 2020, recuando 22%, enquanto o dólar subiu 29,3%. O ouro foi o segundo ativo que mais se valorizou no Brasil, com alta de 56%, atrás apenas do bitcoin. No mundo, a onça troy (medida utilizada no mercado para metais preciosos) chegou a ultrapassar a marca de US$ 2 mil pela primeira vez na história, em agosto.
“Começamos 2020 com uma visão otimista em relação ao real”, disse Samuel Castro, estrategista de câmbio e juros para América Latina do BNP Paribas. “No nosso modo de ver, o dólar estava num ciclo de forte valorização global há mais de sete anos. Nós achávamos que esse ciclo ia terminar.”
A partir do segundo semestre, a busca por proteção começou a perder força. De pessimismo generalizado, passamos a ver a esperança reinando nos mercados, graças ao avanço no desenvolvimento das vacinas e dos tratamentos médicos para a covid-19.
Além disso, houve uma forte injeção de liquidez no mercado, vinda principalmente dos Estados Unidos, e a aprovação de estímulos fiscais em diversos países, inundando o mundo com dólares e outras moedas fortes.
Também começamos a ver sinais de retomada das economias, principalmente a China. Nosso principal parceiro comercial ampliou os gastos em infraestrutura, aumentando a demanda por commodities como minério de ferro. O país asiático deve ser um dos poucos a registrar crescimento em 2020 – o FMI projeta uma expansão de 1,9%.
Estes fatores colaboraram para que a moeda americana fosse perdendo força no Brasil e no mundo. Do fim de outubro, quando o movimento começou a ganhar força, até 31 de dezembro, o dólar acumulou queda de 10,1% em relação ao real.
Então não vale comprar dólar?
A combinação destes três fatores, que começou no final do ano passado, deve continuar tendo efeitos em 2021.
Menos receosos e com mais dinheiro no bolso, os investidores estão cada vez menos alocados em dólares, vasculhando o mundo em busca de rentabilidade. Este movimento tende a beneficiar as bolsas globais, principalmente das economias consideradas mais arriscadas, por oferecerem retornos maiores.
Tem também a questão da retomada do comércio internacional, que aumenta o fluxo de recursos entre as nações. Nações exportadoras de commodities, como a nossa, tem tudo para ganhar com a retomada das principais economias, principalmente a China.
A tendência é de uma valorização do real e de outras moedas emergentes. Em levantamento feito com gestores da América Latina no começo de dezembro, o Bank of America (BofA) perguntou qual moeda do continente terá o melhor desempenho em relação às principais divisas globais – ou seja, cujo valor se valorizará mais ante dólar, euro e outros – nos próximos seis meses, e 42% afirmaram que será o real, seguido por 19% que responderam peso mexicano.
O real perdeu muito valor por conta da visão negativa a respeito da situação fiscal e ruídos políticos de Brasília. A situação não melhorou, mas há um consenso de que a desvalorização foi muito exagerada. “A quantidade de prêmio colocada na moeda relacionada ao (lado) fiscal foi muito mais do que deveria ter ido”, disse Castro. “Os fundamentos da economia não deterioraram tanto.”
Considerando o baixo patamar estabelecido no ano passado, o real deve ver uma forte valorização ante o dólar. O estrategista de câmbio e juros para América Latina do BNP Paribas projeta que a divisa americana deve recuar para R$ 4,25 em 2021, dos R$ 5,19 em que encerrou 2020.
A intensidade do movimento, porém, não é unânime. O Relatório Focus mais recente aponta que a mediana das projeções é de um câmbio de R$ 5,00 no fim de 2021. Esta é a mesma estimativa de Jefferson Rugik, CEO da Correparti corretora de câmbio. Embora concorde com a perspectiva de desvalorização do dólar em 2021, ele acredita que a situação fiscal vai continuar sendo um freio de mão.
“Estamos sofrendo ainda. O governo está tentando resolver a nossa situação, apresentando reformas”, disse Rugik . “Mesmo com a perspectiva de desvalorização do dólar, ainda existe receio com a situação fiscal do Brasil.”
Seja qual for o valor que atingirá, o dólar vai se desvalorizar, porque o movimento é global. Segundo dados mais recentes da Comissão de Negociação de Futuro de Commodities dos Estados Unidos (CFTC, na sigla em inglês) as apostas dos investidores na queda da moeda americana aumentaram para o maior nível desde março de 2011.
Tudo parece conspirar contra o dólar, mas isto não quer dizer que você deve sair vendendo suas verdinhas. Ainda que a projeção seja de queda, a moeda norte-americana permanece como o principal seguro do mercado, para onde todos correm quando algo dá errado.
Basta lembrar que ninguém esperava no ano passado uma pandemia só comparável à Gripe Espanhola, que assolou o mundo no final da década de 1910. Fora a situação fiscal do país, que está longe de resolvida.
E o ouro?
No caso do ouro, a história é um pouco mais complicada. Apesar de não ter mantido os históricos US$ 2 mil onça-troy de agosto, os contratos futuros da commodity fecharam 2020 em patamar elevado, em US$ 1.895,10 a onça-troy, alta de 23%. E o metal ainda está se valorizando – ele fechou o pregão de segunda-feira (4) com valorização de 2,64%, a US$ 1.945,05.
A perspectiva é de que a valorização da commodity não seja desfeita em 2021, mas ela não deve apresentar uma rentabilidade tão boa que nem no ano passado. O BofA, por exemplo, estima que o ouro fechará o ano na casa dos US$ 2 mil, um potencial de alta de 5,5%.
Segundo Mauriciano Cavalcante, diretor de câmbio da Ourominas, corretora que também atua na compra e venda de ouro, mesmo com o maior apetite para risco, os investidores não abandonaram completamente a prudência. Ainda há muitas incertezas no ar, não sabemos ainda se as vacinas resolverão a pandemia e em que ritmo as economias vão se recuperar.
A injeção de recursos no mercado, vindos principalmente do Fed (o banco central dos Estados Unidos), diminuiu a atratividade do dólar, porque tem muito no mercado. Já o valor do ouro não sofreu alterações, porque não houve alterações na oferta.
“O ouro é um investimento buscado quando ocorre uma injeção de liquidez como aconteceu, ele ajuda o investidor a proteger seus recursos”, Mauriciano Cavalcante, Ourominas.
Para ele, o avanço das vacinas e a retomada das economias podem forçar uma queda nos preços, mas considerando que sempre podemos contar com uma crise pela frente (não que nem a pandemia de covid-19), é bom ter um pouco de ouro no portfólio.
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