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2020-03-21T15:54:08-03:00
Estadão Conteúdo
DE OLHO NO MERCADO

‘Só uma notícia boa do front médico vai melhorar mercados’, segundo economista da Kairós Capital

Loes acredita que a crise atual terá tamanho semelhante à de 2008, com a diferença de que agora ninguém vai se safar

21 de março de 2020
15:54
coronavírus
Imagem: Shutterstock

O economista André Loes, da Kairós Capital, acredita que um dos reflexos da crise atual será um relativo recuo da globalização - movimento que já vinha se intensificando com a guerra comercial entre Estados Unidos e China. "Acredito que possa haver um desejo de diminuição da dependência do comércio internacional e um maior questionamento sobre a globalização." Para ele, esse é um processo de longo prazo. "Mas, se o mundo se engajar nele, pode haver sinais claros em cerca de cinco anos."

Loes acredita que a crise atual terá tamanho semelhante à de 2008, com a diferença de que agora ninguém vai se safar. "Naquela época, o Brasil sofreu pouco e aquelas nações menos alavancadas também." Na avaliação dele, por estar saindo de uma grave recessão, o País vai sofrer mais nesta crise. E a perda de receita das empresas pode ser um problema na retomada da economia, uma vez que afetaria o PIB potencial - crescimento sustentável sem pressão inflacionária. A seguir, trechos da entrevista.

Como essa crise que estamos vivendo afetará os rumos da economia mundial?

Acredito que essa crise provavelmente terá tamanho semelhante ao da crise de 2008. Claro que são crises com naturezas diferentes, mas quando estamos no olho do furacão achamos que nada mais será igual. Passamos por situação similar em 2008, e as coisas acabam voltando. Eu não acredito que vá mudar tanto os rumos da economia no médio prazo, mas acredito num relativo recuo da globalização. Isso não será fruto somente do coronavírus. Já vinha ocorrendo, e a guerra comercial entre Estados Unidos e China e toda a questão da competição pela liderança tecnológica mundial são vetores relevantes dessa tendência. Acredito que possa haver um desejo de diminuição da dependência do comércio internacional e um maior questionamento sobre a globalização. Essa crise de saúde está fortemente alavancada pela globalização, pelo grande aumento das viagens internacionais nas últimas décadas, e deve contribuir para esse questionamento da globalização.

O fato de estamos saindo de uma crise profunda, com uma recuperação lenta, deixa o País numa situação pior?

Acredito que sim. Isso vai atrapalhar muito a retomada. Depois de alguns anos de uma economia que dificultou a melhora da saúde das empresas, você ser pego nessa situação é ruim. A questão da perda de receita é grave e pode afetar de maneira importante o Brasil no médio prazo. Como a relação dívida/PIB limita gastos do governo, não podemos reproduzir a expansão fiscal de 3%, 4% do PIB que alguns países vêm anunciando. E, se as limitações ao suporte que pode ser dado pelo governo levarem a uma quebradeira relevante, afetaremos mais fortemente o PIB potencial, o que seria um problema na retomada.

Podemos viver uma quebradeira das empresas?

Sim, pode haver uma quebradeira relevante. Um ponto da crise atual é que não tem quem se safe. Em 2008, houve países que sofreram pouco, por estarem menos alavancados. O Brasil sofreu pouco. Foi uma recuperação em "v". Agora, todo mundo vai sofrer parecido.

A volatilidade do mercado vai continuar?

Os estímulos pouco a pouco vão atenuar a volatilidade. Enquanto não tem o lockdown é aquela incerteza, mas quando houver em quase todos os países relevantes, todo mundo já terá feito as contas e já se terá contabilizado quase todas as notícias ruins. Os estímulos estão vindo fortemente. Com menos notícias ruins, se olhará mais para os estímulos. Mas o mais importante é começarmos a ter notícias boas do front médico. Só isso fará os mercados melhorarem de maneira mais consistente.

Medidas anunciadas agora, como o complemento do salário dos empregados, por exemplo, são suficiente?

Somente mais um passo para reduzir as perdas de renda daqueles que, por motivo de força maior, terão suas jornadas reduzidas pelas empresas.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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