Pandemia deve reforçar poder chinês na economia
Movimento aponta para a continuidade das tensões com Estados Unidos e manutenção da alta demanda por matérias-primas produzidas pelo Brasil

A recessão global causada pela covid-19 tende a acelerar o deslocamento do dinamismo da economia mundial para a Ásia, onde, com a China à frente, um melhor controle da pandemia já começa a resultar numa retomada mais rápida e vigorosa do que em outras regiões.
Além da China, Vietnã, Taiwan e Coreia do Sul são exemplos de países que terão desempenho econômico acima da média mundial, pelas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Esse movimento aponta para a continuidade das tensões comerciais entre China e Estados Unidos e para a manutenção da alta demanda chinesa por matérias-primas produzidas pelo Brasil, como soja, minério de ferro, celulose e carne. O crescimento de 4,9% do Produto Interno Bruto (PIB) chinês no terceiro trimestre, na comparação com igual período de 2019, reforçou esse cenário.
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A recuperação da China é marcada por medidas concentradas no crédito e no apoio às empresas, ao passo que a pandemia, segundo especialistas, parece contida.
Com isso, o FMI espera avanço de 1,9% na economia do país este ano, ante retração de 4,4% no PIB global. Como os EUA deverão registrar retração de 4,3%, a chegada da China ao posto de maior economia do mundo, ultrapassando a americana, poderá ocorrer em 2028, segundo estudo da agência de classificação de risco Austin Rating, feito a pedido do Broadcast/Estadão. A agência extrapolou as estimativas do Fundo até 2031.
Pelo estudo, a economia dos EUA, que em 1990 era 15 vezes maior que a chinesa, hoje equivale a apenas 1,4 vez o PIB da China. Quando se considera o câmbio por paridade do poder de compra (PPC), cálculo que leva em conta níveis de preços e o poder de compra na conversão de moedas, o PIB chinês já está acima do americano desde 2017.
E tudo indica que a retomada chinesa veio para ficar. Segundo Fabiana D’Atri, economista do Bradesco e diretora econômica do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), diversos dados da economia chinesa vêm surpreendendo de forma positiva nos últimos meses.
Em setembro, o destaque foi o início da recuperação do consumo, trajetória que parece ter se mantido este mês – na Golden Week, semana completa de feriados que ocorre todo ano em outubro no país, em torno de 600 milhões de chineses viajaram, conforme a agência de notícias oficial Xinhua.
Incentivos
O fato de a recuperação do consumo chinês só ter começado em setembro chama a atenção. No Ocidente, incluindo Brasil e EUA, o consumo e as vendas do varejo puxam a retomada.
Na China, porém, a produção industrial, as exportações e os investimentos em infraestrutura e no mercado imobiliário vieram na frente. Para Fabiana, a opção do governo local por não adotar transferências de renda para mitigar a crise segue a tradição de sempre concentrar as medidas de estímulo no lado da oferta.
Além de seguir a tradição, essa opção tende a dar maior sustentabilidade à retomada da economia na China, lembra a economista do Bradesco. Isso porque os investimentos em infraestrutura tendem a manter a roda girando enquanto as obras são executadas.
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Já a recuperação do consumo será puxada por maior segurança das famílias em relação ao controle da pandemia e ao mercado de trabalho - no Ocidente, a retirada das transferências diretas poderá provocar um “soluço” no consumo.
Conforme as projeções do FMI e a análise de economistas, a recuperação de diversos países seguirá por 2021. De 2022 em diante, Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, prevê que a China retomará o ritmo de crescimento entre 5% e 6% ao ano, enquanto os EUA devem voltar ao patamar anual de crescimento em torno de 2%.
Com a aproximação da China do posto de maior economia do mundo, o clima de confronto com os EUA - que começou com uma guerra comercial - tende a continuar, pois o governo americano vê a ascensão chinesa como uma perda histórica de protagonismo, diz Agostini.
Mesmo sem Trump, tensão deve continuar
Para Lia Vals, pesquisadora do Ibre/FGV, as tensões tendem a continuar mesmo se o presidente Donald Trump perder a eleição em novembro. “Os EUA, com a antiga hegemonia, veem a China como potência em ascensão que vai disputar espaço com eles, especialmente na questão da tecnologia, que é o grande ponto.”
Na visão do ex-embaixador do Brasil em Pequim, Marcos Caramuru, membro do Conselho Consultivo do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), mesmo com o maior dinamismo econômico, por enquanto o aumento da influência geopolítica da China se dá em âmbito regional, na Ásia.
A força da indústria chinesa, mesmo na crise, para fornecer a vários países medicamentos, testes e equipamentos de proteção, inaugurou uma “diplomacia da covid-19”, mas o resultado da estratégia no Ocidente é duvidoso. Para Caramuru, a imagem internacional do país está desgastada, com “fake news” sobre a covid-19 e certa “inveja” ocidental da retomada chinesa.
Goste-se ou não da China, o país é o maior parceiro comercial de cerca de 100 países, disse Caramuru. Assim, “racionalmente”, não há saída além de tentar negociar um bom relacionamento com os chineses. Para o Brasil, é importante ficar de fora dessa disputa, afirmou Lia. “Não somos nada nessa briga. Não temos nada a ganhar de um lado nem do outro.”
* Com informações do jornal O Estado de S. Paulo.
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