Menu
Ruy Hungria
Sextou com o Ruy
Ruy Hungria
É formado em Física e especialista em bolsa e opções na Empiricus
2020-01-31T14:51:16-03:00
SEXTOU COM O RUY

O que um passeio da minha mulher no shopping me diz sobre o potencial de alta das ações das varejistas

Boas decisões investimentos dependem mais de suas experiências cotidianas e menos de modelos de excel do que pode parecer à primeira vista.

31 de janeiro de 2020
5:28 - atualizado às 14:51
shopping
Um passeio no shopping pode ser revelador para seus investimentos. - Imagem: Shutterstock

Pelo menos uma vez por mês o interrogatório abaixo se repete:

R: Onde você estava?
P: Fui ao shopping porque as meninas queriam tomar um café depois do trabalho.
R: Posso saber em qual shopping você foi? Quais lojas você visitou?

Antes que você entenda errado, é bom esclarecer que a conversa acima não retrata uma cena de ciúmes lá em casa.

Mas, primeiro, permita que eu me apresente. Meu nome é Ruy Hungria (o “R” do diálogo), sou formado em Física pela USP e responsável pelas séries focadas em Opções na Empiricus.

A Paloma (“P”) é a minha companheira de alegrias e tristezas, apaixonada por moda (e por mim também, claro).

Continuando o diálogo:

  • R: Eu posso saber quais lojas você visitou?
  • P: Ah, dei uma passada na Renner, na Riachuelo, na Zara...
  • R: E na C&A?
  • P: Também... mas bem rapidinho.
  • R: E aí, alguma novidade?
  • P: Está melhorando, mas ainda não está “aquelas coisas”.

O meu interesse específico na evolução da C&A é por causa do seu IPO (oferta pública inicial de ações) recente, no qual ela prometeu implementar mudanças estratégicas, melhorar a eficiência e recuperar o terreno perdido para as maiores rivais. Mas isso é assunto para daqui a pouco.

Agora tudo faz sentido

Como você já deve ter percebido, o interrogatório acima não é fruto de uma crise de ciúmes deste que te escreve. Na verdade, a Paloma é a minha fonte mais confiável na hora de avaliar se as varejistas de vestuário listadas em Bolsa estão conseguindo acompanhar as tendências de moda, se os preços estão condizentes com o público consumidor e, principalmente, se a qualidade das peças realmente faz jus ao valor que as lojas estão cobrando por elas.

Aliás, foi em um desses interrogatórios que entendi um dos motivos de os números das Lojas Marisa terem piorado tanto após 2013.

Depois de observar uma sequência de resultados horrorosos da companhia e a consequente queda vertiginosa das suas ações, foi a Paloma quem me deu uma luz:

  • R: Você gosta da Marisa?
  • P: As roupas eram legais, mas a qualidade caiu muito nos últimos anos. Na última vez que fui encontrei até roupa furada nas araras. Depois disso, nunca mais voltei.

Após esse relato ficou muito mais fácil entender o gráfico abaixo:

É a evolução do valor das ações da Marisa (AMAR3) de 2013 a 2017 (Fonte: Bloomberg)

É verdade que as ações têm se recuperado recentemente. No entanto, nesse mesmo período em que AMAR3 se desvalorizou 40%, as ações da Guararapes (GUAR3), dona das lojas Riachuelo, subiram 233% e as das Lojas Renner (LREN3) mais de 550%.

O que os números não dizem

Eu gosto de usar esse exemplo da Marisa porque muita gente que analisa empresas acredita que a resposta de tudo pode ser encontrada na demonstração de resultados de uma companhia. Infelizmente, aqueles números não conseguem nos dizer muito mais do que “vendeu menos”, “as margens caíram”, “o lucro virou poeira”...

“Por que vendeu menos?”. Essa é a pergunta importante, e não é no anúncio de resultados da companhia que você encontrará a resposta. Pelo menos, não uma que seja totalmente honesta e sincera.

Será que a queda na receita foi um mero erro de precificação dos produtos – algo que pode ser resolvido sem grandes problemas na próxima coleção e colocar as vendas futuras nos trilhos novamente?

Ou, será que foi por causa de uma grande queda na qualidade das peças, que acabou afetando a confiança na marca, afastou clientes fiéis e tem o potencial de continuar impactando as vendas por mais alguns trimestres futuros?

As duas situações afetam as vendas e o lucro em um determinado trimestre. Mas uma tem impactos muito mais profundos do que a outra no longo prazo.

Abuse e Use? Talvez, mas não invista

Um outro exemplo mais recente foi o IPO da C&A aqui no Brasil. Por isso o meu interesse na companhia.

IPO é o processo na qual uma companhia abre o seu capital e permite que pessoas comuns comprem as suas ações.

A sugestão dada aos assinantes da Empiricus foi para que não participassem do processo e comprassem as ações da Guararapes (dona da Riachuelo) ao invés das da C&A.

Apesar do desconto para as rivais, as métricas operacionais e financeiras da companhia estavam bem piores do que as das maiores concorrentes e ela ainda estava perdendo participação de mercado.

Para sacramentar a decisão, adivinha quem me ajudou mais uma vez:

“Eu adorava comprar na C&A muito tempo atrás. Mas a Renner e a Riachuelo ficaram muito melhores em termos de moda e custo vs benefício.”

Pode ser que o turnaround prometido pela C&A na oferta renda frutos polpudos em um futuro próximo. Mas desde o IPO até agora, o que vimos foi um banho de rentabilidade das ações da concorrência.

Uma imagem contendo texto, mapa

Descrição gerada automaticamente

Enquanto isso, a ação da C&A (CEAB3) ficou paradinha, GUAR3 se valorizou 50% desde então.

Se tivéssemos nos prendido apenas ao que as planilhas de valuation (avaliação do valor das empresas) nos diziam, provavelmente teríamos sugerido a compra da “ação mais descontada dentre as três maiores do setor” naquele momento. Por sorte, e um pouco de senso crítico, não foi o caso.

Eu não quero que você entenda que a análise financeira é dispensável para decidir se um investimento realmente vale realmente a pena. Não é isso!

O que eu quero é mostrar que boas decisões investimentos dependem mais de suas experiências cotidianas e menos de modelos de excel do que pode parecer à primeira vista.

Focar somente nos aspectos financeiros e dar as costas para o que os clientes pensam sobre os produtos e serviços de uma companhia é jogar fora uma das informações mais valiosas sobre o potencial futuro de vendas da empresa.

E se você está se perguntando se ainda gostamos de Guararapes, a resposta é “sim”. Aliás, ela é uma das preferidas do Felipe Miranda, estrategista-chefe da Empiricus, em sua série Oportunidades de Uma Vida.

Mas essa não é a única grande oportunidade no varejo de moda brasileiro. Uma velha conhecida do setor tem passado por uma transformação na gestão que tende a gerar frutos polpudos nos próximos trimestres. E a melhor parte é que ela ainda paga ótimos dividendos, do jeitinho que a série Vacas Leiteiras gosta.

Comentários
Leia também
Um self service diferente

Como ganhar uma ‘gorjeta’ da sua corretora

A Pi devolve o valor economizado com comissões de autônomos na forma de Pontos Pi. Você pode trocar pelo que quiser, inclusive, dinheiro

Que Bolsa é essa?

Crash do Coronavírus: o que fazer com o seu dinheiro?

Epidemia não deve deixar marcas permanentes sobre os negócios de empresas como Itaú, Weg, Vale ou Petrobras, mas o fenômeno é grande e tem potencial para machucar bem o PIB brasileiro no primeiro semestre

Seu Dinheiro na sua noite

O pior pregão desde o ‘Joesley Day’

Se o ano no Brasil só começa mesmo depois do Carnaval, 2020 resolveu chegar logo com uma voadora no peito dos brasileiros. Enquanto nós descansávamos ou curtíamos a folia, os mercados no exterior amargavam fortes perdas diante do agravamento da disseminação do coronavírus fora da China, notadamente na Itália. Pois bem, após a batucada pela […]

Gigante de tecnologia

Microsoft revê projeção trimestral e cita impactos do coronavírus

Empresa de tecnologia vive uma demora maior do que a esperada para a volta ao normal das operações em suas cadeias de suprimento

Caos na bolsa

Pressionado pelo coronavírus, Ibovespa cai 7% e tem o pior pregão desde o Joesley Day

O Ibovespa perdeu quase oito mil pontos nesta quarta-feira, impactado por um forte movimento de correção por causa da disparada de casos do coronavírus fora da China — todas as ações do índice fecharam em queda. Já o dólar à vista subiu a R$ 4,44, cravando mais um recorde nominal de encerramento

Mais uma polêmica

Vídeo de Eduardo Bolsonaro defendendo Orçamento impositivo circula pelo WhasApp

Vídeo mostra a fala do parlamentar no plenário da Câmara, no dia 26 de março do ano passado

Surto mundial

Por coronavírus, Costa Cruzeiros amplia medida de segurança em seus navios; Nestlé aconselha funcionários a não viajarem

Entre as providências está a proibição da entrada de pessoas que tenham viajado para países e regiões afetadas pela doença

FORA DO AR

Investidores da XP relatam problemas para acessar home broker nesta quarta-feira

Ao ser procurada, a assessoria de imprensa informou que “a plataforma apresentou lentidão para alguns clientes no início da tarde desta quarta-feira”

Medida do BC

Moody’s: diminuição de compulsório para depósitos a prazo é positiva

Para a agência, os gigantes do mercado são os mais beneficiados, por deterem 72% de todos os depósitos a prazo no Brasil

CDS no radar

Risco-país do Brasil tem novo dia de alta e vai a 106 pontos

Desde o começo de fevereiro o CDS vinha sendo negociado abaixo dos 100 pontos

CRIPTOMOEDAS

Criptomoedas ainda mantêm um papel limitado como forma de proteção, para analistas do JPMorgan

Apesar da baixa correlação das criptomoedas com ativos tradicionais, analistas do banco acreditam que elas ainda não podem servir como hedge da carteira

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu
Advertisements